Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

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terça-feira, 14 de abril de 2009

Um Estranho caso de Amor: recomeço.

Rodrigo corria pela cidade. Sentia-se livre, leve, feliz. Observava tudo avidamente, como se fosse a primeira vez que corria naquela cidade. Mas não era. Tudo lhe era familiar, o cheiro forte e penetrante que emanava das grelhas do esgoto, o colorido da baixa, a luz brilhante da baixa junto ao rio, o cheiro a maresia, a pastelaria da esquina, as montras, o trânsito. Passou por uma fila de carros que apitavam impacientemente ao camião que descarregava as mercadorias. Não deixou de reparar na bela condutora que o observava e devolveu-lhe o olhar, provocador. "Sempre o mesmo, Rodrigo!" pensou para os seus botões. Sentia o suor a correr-lhe pelas costas, o vento a bater-lhe na face, os músculos das pernas a pedirem-lhe para parar mas ele acelerou. Sentia-se feliz porque ia ver Helena e a sua filha.
Corria já em direcção ao parque da cidade. Além de ser óptimo para correr, tinha um enorme lago com patos e Inês adorava os patos. Lembrou-se que não tinha trazido consigo o pão seco para partir e dar aos peixes e patos. Ela adorava fazer isso e ria-se largamente com a disputa entre os animais. Talvez Helena se tenha lembrado. avistou o verde do parque ao fundo da avenida. As árvores altas e frondosas, as pedras imponentes que o delimitavam, o repuxo gigante do lago e sentiu a brisa a erva que vinha daquela direcção. Mais perto, viu homens e mulheres a correr, famílias sentadas na relva, pares a namorar junto ás árvores, pais e filhos a jogar à bola e a lançar papagaios. Viu as crianças junto ao lago e reconheceu Helena. Mas ela estava só.
Tremeu. Onde estava a menina? Correu com um nó na garganta. Aproximou-se e não a viu. Helena chorava. Parou e olhou em volta. Tantas crianças... onde estava ela? Viu uma menina a correr sozinha pelo parque. Correu atrás dela mas abrandou quando uma mulher lhe pegou ao colo. Andou sem destino enquanto parecia ver a sua filha atrás duma árvore, a brincar com um menino, sozinha na outra margem do lago. Não estava em lado nenhum. Helena chorava. Rodrigo correu por toda a extensão do parque. Queria perguntar às pessoas se a tinham visto mas não sabia como ela estava vestida. De repente, ao fundo do parque, avistou-a. Corria na direcção oposta a ele. Precipitou-se pelo caminho. Correu com todas as suas forças, viu-a virar noutra direcção e perdeu-a de vista. Correu mais ainda e tomou o mesmo caminho. A estrada de pedra subia e Rodrigo sentiu-a a dificultar a sua caminhada. Virou e lá estava ela. Suspirou...
Era um pequeno recanto do parque, bem no cimo da colina. Um relvado bem cuidado rodeava um pequeno lago formado pela água que caía de uma pequena cascata. Ela estava sentada junto ao lago. Brincava com uma folha de um carvalho velho que guardava aquele recanto, e falava sozinha. Rodrigo sentiu-se esmagado por aquela visão e chorou. De felicidade, de encanto, de desespero, de alívio. Aproximou-se e ela sorriu. "Meu amor, minha filha... porque fugiste do pai? Sabes que podes sempre contar comigo, estarei sempre cá para ti, meu amor". Ela olhou-o com um sorriso desarmante no rosto e colocou-lhe as pequenas mãos na face, limpando as lágrimas que caíam.. As suas mãos eram suaves e leves, o seu toque era o Amor. Sentiu que aquelas mãos, aquele toque eram a razão da sua existência.
"Rodrigo, Rodrigo?" ouvia Helena a chamar, ao longe. Olhou e não a viu. Quando se voltou, também a menina tinha desaparecido. "Rodrigo, estás a ouvir-me? Ele mexeu-se!! Rodrigo, Rodrigo....". Abriu os olhos. Lá estava ela!!! Sentada no seu peito uma menina mexia-lhe na face. O cabelo escuro, a pele bem clara, nos olhos castanhos, redondos e grandes bailava a mesma vontade de viver que ele reconhecia todos os dias ao espelho! E o sorriso, ainda só com alguns dentinhos, o sorriso era aberto, franco e pleno de significado como o de Helena. Ele abraçou-a forte e não foi capaz de conter a felicidade que sentia. "Filha, minha filha... já estás tão crescida..."e a menina respondeu tão simplesmente "Papá!" Rodrigo apercebeu-se finalmente onde estava. Viu Helena a sorrir, aliviada. Um médico e um enfermeiro rodearam-no e confirmaram que ele estava bem. "Foste atropelado Rodrigo. Lembras-te?" Ele não se lembrava. Só se lembrava de correr para a ver e contar-lhe que nada tinha acontecido entre ele e Diana. "Helena, tens de saber, eu e Diana..."
"Nunca aconteceu! Eu sei..."
"Como..."
"O António contou-me tudo!! Mas soube-o apenas depois do acidente. Passaram nove meses Rodrigo. Pensámos que te tínhamos perdido... eu e Inês, a tua filha!!" Rodrigo continuava abraçado a Inês e ela adormecera entretanto. Aquele abraço parecia-lhe tão natural como respirar.
"Inês? É linda..."
"Passou aqui a maior parte do seu tempo de vida. Dormiu, comeu, chorou aqui. A primeira palavra que disse foi "papá", numa manhã em que entrávamos para te visitar. Brincou ao teu colo, dormiu no teu peito. Sempre dormiu tranquilamente no teu peito, como agora. Como se soubesse que voltarias para nós a qualquer instante."
"Tinhas razão minha filha..." sussurrou Rodrigo, beijando-a docemente na face. Depois encarou Helena "Também te amo... apesar de tudo. Quero continuar contigo, quero compensar-te por tudo o que te fiz sofrer. Amo-te Helena... mas, nove meses. Eras tão próxima do António e eu podia nunca acordar..."
"O António voltou para Londres, Rodrigo. Ele sabe que nunca vou amar nenhum homem como te amo a ti!!". Abraçaram-se num abraço que ambos julgaram interminável. Estavam juntos finalmente, uma família!
Rodrigo respirou fundo. Finalmente reparou no médico que esperava num canto do quarto. "Diga-me, doutor. Quando é que posso por-me a andar daqui para fora?"
O médico exibiu um sorriso forçado "Interessante escolha de palavras..." disse para si mesmo "Bom Rodrigo, o acidente causou muitos danos. O facto de ter ocorrido mesmo ás portas da urgência foi um factor fundamental para que esteja connosco hoje. Contudo, apesar de estar tudo normal do ponto de vista neurológico, alguns danos foram irreparáveis..."
Rodrigo sentia uma estranha sensação de formigueiro nos pés.
"... tinha fracturas múltiplas da bacia e várias fracturas expostas nas pernas. Alguns ossos foram literalmente pulverizados pelo choque. Lamento Rodrigo... tivemos de lhe amputar ambas as pernas." saiu, deixando o silêncio a governar o quarto.
E cá está!!! Eis o final da saga de Rodrigo!!! Espero que tenham gostado, afinal ficaram todos juntos!
Até à próxima história!!!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Uma Luz na Escuridão

Rodrigo continuou a correr pela cidade. Não importava como chegaria até ela, a única coisa em que pensava era que tinha que chegar o quanto antes. Toda a distância que o separava de Helena deixara de fazer sentido e tinha que a encurtar. Era só isso que importava, diminuir o espaço entre ele e a mulher que amava.
Como é que pudera sequer duvidar de si próprio, como é que pudera supor que seria capaz de trair Helena na sua própria casa? Tinha-se em fraca conta mesmo.
As decisões foram-se formando dentro de si em catadupa, uma após a outra. Largaria o escritório, precisava de mais tempo para eles, para a família que estava prestes a ficar maior. Diria à mulher que a amava todos os dias. Não deixaria que o passar do tempo se tornasse pesado, pelo contrário, renovaria o seu amor diariamente as vezes que fossem precisas.

Helena despediu-se da imagem da filha a preto e branco. Pois em breve iria tê-la nos seus braços, iria ver o rosto que imaginara vezes sem conta ao longo daqueles nove meses. Olhou para o seu médico com um sorriso:
- Então Dr. está tudo bem com ela?
Mas a expressão do médico sempre tão bem disposta, hoje estava grave e preocupada.
Helena desfez o sorriso enquanto olhava a mão experiente do médico às voltas com a pequena sonda.
- A Helena já não volta para casa hoje. O batimento cardíaco dela está muito fraco. Temo que esteja em sofrimento.
- O que é que isso quer dizer?
- Talvez seja melhor ligar ao seu marido. Se quer que ele assista à cesariana…
- Não! Ele… O meu marido não vai assistir. Mas está tudo bem com ela? Por favor Dr. não me esconda nada. O que é que ela tem?
- Eu vou ligar para o bloco, saber se há uma sala disponível para nós. Se quiser avisar alguém…
Helena tentou desfazer o tremendo nó que lhe sufocava a voz e agarrou no seu telemóvel com as mãos trémulas. Olhou a imagem no monitor e tentou dizer à sua filha que esperasse, que em breve se iriam conhecer. Que não desistisse agora.

- Helena? António estranhou aquele telefonema logo após o telefonema de Rodrigo. – O Rodrigo conseguiu falar contigo?
- António alguma coisa não está bem com a minha filha, o meu médico acha melhor fazer uma cesariana o quanto antes.
- O que é que não está bem? – A voz de António tentava parecer o mais tranquila possível.
- Acho que está em sofrimento, não sei. Por favor, eu gostava que estivesses perto de mim. Tens sido o nosso ancoradouro durante estas semanas, eu preciso de ti, mais do que algum dia precisei de alguém.
- Mas o Rodrigo não te ligou mesmo?
- Eu não quero saber do Rodrigo. Vem António, quero-te ao meu lado.


Rodrigo estava perto do hospital, conseguia já sentir os braços de Helena em redor do seu pescoço, imaginar o olhar dela quando ouvisse o que realmente acontecera. Estava tão perdido naquela imagem que não viu a ambulância que se aproximava em marcha de emergência, nem sentiu o embate. Foi tudo demasiado rápido. Primeiro estava em frente ao hospital e pensava em Helena, depois tudo ficou escuro e sem som. Era como se tivesse regressado ao útero materno. Uma sensação quente, de voltar a casa. As vozes de pânico muito ao longe, portas a baterem, buzinas, pânico, muitos gritos. Mas ele estava bem, aliás, ele nunca estivera tão bem em toda a sua vida. Podia finalmente descansar de tudo aquilo. O rosto de Helena, a sua voz, as suas mãos pálidas acariciavam-no agora e ele deixou-se ficar.

A sala de partos era pequena e impessoal. O anestesista pediu-lhe que não se mexesse enquanto lhe aplicava a epidural. António sorria-lhe com um sorriso que iluminava toda a sala. Helena focalizou-se nele. Naquele homem que sofrera por ela, vivera por ela, respirara por ela nos últimos dias. O que fizera para merecer tanta dedicação estava para além da sua compreensão. Mas sabia que com ele não haveria turbulências de maior. Tudo era sereno e despreocupado. Tão diferente da sua vida com Rodrigo.
Ele tentara dizer-lhe qualquer coisa acerca do marido, mas ela nem quisera escutá-lo. Aquele era o momento mais importante da sua vida e não estava disposta a estragá-lo com a imagem de Rodrigo e Diana.
Só António e a sua filha a mexer-se no seu interior é que lhe haviam dado força para continuar e sabia agora que não estava disposta a deixar aquele homem ao seu lado sair para fora da vida delas.

O choro da sua filha quebrou aquele encantamento e quando a viu teve a certeza absoluta que não precisava de mais nada para ser feliz....

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor: revelação

Rodrigo caminhava vagarosamente pelas ruas agitadas da cidade. Era agora um homem mudado. Mais calmo, mais atento aos pormenores, mais simples, menos preocupado com a opinião dos outros. A descoberta trágica que tinha um tumor no cérebro, a perda do controlo do seu próprio corpo, a incapacidade de se expressar tornaram claro o que era mais importante na vida. Contudo, caminhava vergado por um peso invisível, o peso da vergonha. Para ele o mais importante eram Helena e o seu filho. Envergonhava-se profundamente pela dor que causara a Helena e pela dor que ele sabia ir causar ao seu filho, por não estar presente. Por muito que pensasse para ele próprio que todo o ódio que sentiu por Helena enquanto esteve doente, se tinha devido ao tumor, isso não o aliviava. Sabia que não tinha sido esse ódio que o tinha empurrado para os braços de Diana.

Revia os momentos intensos passados com Diana com sofrimento. Reviver aquelas emoções, aquele prazer, aqueles gritos, beijos e arranhões ainda o revoltavam mais. Não sentia nada por Diana, o prazer era carnal, apenas, sexo puro e duro. Tinha traído Helena por nada. Eram apenas colegas de trabalho. Tinham trocado alguns piropos pouco inocentes e Rodrigo não deixara de se imaginar na cama com aquela mulher mas nunca pensara que ela fosse capaz de se entregar daquela maneira. Debaixo daquele aspecto profissional, educado e circunstancial escondia-se uma predadora. Rebobinava as memórias e via Diana nua, pela primeira vez, no seu chuveiro. Sentia a pele dela na sua. Depois no escritório, as pernas esguias e sedosas tentando envolvê-lo como de de um polvo se tratasse, os olhos nos olhos, a língua sibilante. A primeira vez na sua cama, os seios firmes, as coxas quentes, as unhas nas costas, o melhor orgasmo que alguma vez experimentara. No dia em que Helena saiu de casa com António, sexo animal, furioso, intenso. Experimentara com aquela mulher a parte mais primitiva da sua própria sexualidade, o toque dela parecia queimar sempre, parecia que cada toque seu era como uma tatuagem cuja tinta não se vê, mas que a dor, fina, volta á simples lembrança do desenho da tatuagem.

Passaram duas semanas desde que Helena o deixara. Não tentara ligar-lhe, não saberia o que dizer. Sabia que antes de enfrentar Helena teria de enfrentar Diana e vencer o desejo que sentira por ela. Sim, sentira, no passado. Hoje, Diana era significado de sofrimento e, nas suas entranhas sabia que não seria capaz de estar de novo com ela. Sentia-se um cobarde por não ter sido ainda capaz de a confrontar mas pensou que, se sempre fora dela a iniciativa de o procurar nos momentos em que ele se encontrava mais frágil, seria dela o próximo passo. Estranhou o facto de ela ainda não o ter procurado. Com Helena fora do caminho... No escritório, Diana mantinha a mesma pose de sempre: profissional, competente, cordial, educada. Mantinha sempre os homens a uma distância segura, respondendo elegantemente mas sem deixar margem para para dúvidas aos avanços, mais ou menos subtis, dos homens. Cultivara uma imagem de mulher bela, apetecível mas inacessível. Não se lhe conheciam namorados, não falava da sua vida privada, não tinha amigos no escritório. Entrava a horas, saía a horas. Nada de copos após o serviço "para descontrair". Depois do choque inicial, aquela mulher esbelta era respeitada. Mas Rodrigo conhecia a verdadeira Diana.

Rodrigo sentia que Diana o evitava. Saía da sala mal ele entrava, desviava o olhar, sentava-se no lado oposto a ele na sala de reuniões e, acima de tudo, evitava ficar sozinha com ele. Inicialmente, Rodrigo achou que seria apenas estratégia. Uma espécie de jogo do rato e do gato, predador e presa que Diana teria iniciado para depois terminar na cama. O facto de ela assumir o papel da presa, desta vez, intrigou-o. Contudo tinha já desistido de a compreender. Passaram-se dias.

Rodrigo estava farto daquele jogo que o enfadava cada vez mais. Pensou em Helena e tomou uma decisão: falaria com Diana naquele dia. Seguia subrepticiamente e encurralou-a na sala do café. Entrou e fechou a porta, trancando-a. O que tinha para dizer era demasiado importante para ser interrompido. Diana estremeceu quando a porta fechou e encarou Rodrigo.

"Rodrigo... bom... estás bem? Quer dizer... da cirurgia e isso" estava visivelmente pouco à vontade, encostada à bancada do lava-loiça e puxando sistematicamente a saia curta até aos joelhos.

"Temos de falar." Rodrigo estava decidido.

"Sim... pois temos..."

"E porque estás com esse ar assustado? Não me convences."

"Rodrigo... quero que a nossa relação, a partir de agora, seja estritamente profissional." disse, um pouco a medo da reacção de Rodrigo.

"Sim... isso também eu! Mas antes quero esclarecer algumas coisas. Porque raio é que me escolheste a mim?"

"Porque me disseram que eras o melhor aqui da firma."

"Sim, o melhor... e quem te disse isso? Quem poderia saber isso?"

"Bom, Rodrigo, a tua fama precede-te."

"Mas estás louca???"

"Não. Escolhi esta empresa apenas para poder estar contigo."

"És mais cabra do que eu imaginava... premeditas-te tudo, não foi?"

Diana estava visivelmente confusa com o rumo que a conversa estava a tomar e mudou de assunto.

"Acerca do que se passou em tua casa..."

"É exactamente acerca disso que quero falar contigo..."

"Não sei que mensagem errada eu te passei... mas, por favor, nunca mais me tentes beijar. Não serei tão tolerante da próxima vez."

Ah, Ah, Ah, Ah!!! Rodrigo ria descaradamente.

"Beijo?? Estás assim por causa daquele beijo que recusaste??? Impressionante..." Avança para Diana e agarra-a, tentando beijá-la. Diana afasta-se rapidamente e agride-o violentamente com um estalo na face. Rodrigo para subitamente, surpreendido com aquela reacção.

"O quê? Em minha casa, na cama da minha mulher, pode ser. no meu escritório pode ser, no hospital tudo bem, ficas excitada mas a sala do café é território proibido? Por favor..."

Diana estava ofegante, o coração acelerado. Agarrou um prato e estava disposta a parti-lo na cabeça de Rodrigo se ele avançasse novamente.

"Estás a falar de quê???!!" Disse, visivelmente alterada, desalinhada

"Ora Diana, poupa-me!! Acabaste de dizer que eu sou o melhor.."

"ADVOGADO Rodrigo!! O que se passa contigo??"

"COMIGO?!?!? O que se passa comigo?? Quem é que se enfiou no duche comigo, quem é que me desapertou a braguilha no meu escritório? Não foste tu que me proporcionaste a melhor foda da minha vida? Não foste tu que sentiste toda a minha virilidade? E gemeste de prazer sua cabra!! Sempre te excitaste com o proibido e agora essa cena de virgem ofendida?!! Por favor!"

"ESTÁS LOUCO???!! Eu NUNCA fiz nada disso que dizes. NUNCA!! Na tua cama? A única vez que estive em tua casa foi no dia em que fizeste aquela cena lamentável com a tua mulher ali ao pé... a tentar beijar-me... ÉS UM PORCO, OUVISTE? UM PORCO!! Seria incapaz de me deitar com um homem que trata assim a sua própria mulher... ela que tratou tão bem de ti durante estes meses."

Rodrigo estava mudo. Petrificado perante aquela revelação. Perdeu as forças e ajoelhou-se no chão.

"Não pode ser... mentes com quantos dentes tens... eu senti, eu senti-te... a tua pele, as tuas mãos, a tua língua, todo o teu interior... eu tive prazer, orgasmos... "

Diana baixou a sua guarda perante aquele farrapo que tinha aos seus pés.

"Nunca Rodrigo... isso nunca aconteceu. Dizes que estive contigo no dia em que me beijaste? Estive numa reunião com clientes toda a tarde, posso comprová-lo. Contigo no duche, em tua casa?? Como entraria eu em tua casa? No hospital, no dia após teres desmaiado e seres levado para o hospital? Nem estava na cidade... Lamento Rodrigo... não era eu." Saiu, deixando Rodrigo a chorar, rendido ao caos que governava a sua mente.

"Mas como.... como???" A sua mente trabalhava desordenadamente á procura de uma resposta. Até que... Levantou-se e dirigiu-se a um computador. Lembrava-se de uma pesquisa que tinha feito após a cirurgia, acerca do tumor.

"Tumor no sistema límbico" digitou na página do Google. Reconheceu o título do artigo que tinha já consultado. "Anatomia... patologia... diagnóstico... cá está, sinais e sintomas... cefaleias, humor depressivo, alterações da visão, agressividade e.... ALUCINAÇÕES!!!!" Rodrigo estava siderado. Poderia ser? Digitou "alucinações" no motor de busca e obteve "alterações na percepção da realidade que podem ser visuais, auditivas e tácteis. Certas doenças, como alguns tumores do cérebro, podem causar alucinações tão reais que o paciente acredita que vive, de facto, aquela situação. Pode confundir-se com esquizofrenia". Rodrigo tremia. Sentou-se. Riso. Primeiro leve, reprimido, envergonhado e depois mais solto, mais livre até se tornar ruidoso e histérico. Alucinações!!! Ele nunca tinha traído Helena!! Ele amava-a e agora não tinha dúvidas!!

Pegou no telemóvel e marcou um número. Do outro lado atendeu António.

"Rodrigo? Está tudo bem?"

"Ouve António, o tumor que me arrancaste? Podia ter-me causado alucinações?"

"Bem... claro. é típico... mas... tiveste alucinações? Nunca referiste nada!"

"António" Rodrigo estava mais calmo do que nunca "Onde está Helena?"

"Rodrigo... sabes que não posso...."

"Onde, António?" O seu tom de voz saiu calmo mas forte e António percebeu que não devia contrariar Rodrigo.

"Acaba de sair para o Hospital... última consulta antes do parto."

Rodrigo desligou e correu. Esqueceu as dores, as limitações, as recomendações do fisioterapeuta. Correu e, pela primeira vez em muitos dias, o seu coração estava cheio de felicidade, amor e... esperança.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Choque

António apercebeu-se que a sua camisa ficara molhada pelas lágrimas de Helena. Era como ter um bocadinho dela junto a si. Passou a mão pela superfície molhada do tecido e olhou Helena e Rodrigo através do vidro. Viu-a acariciar-lhe os cabelos, passar-lhe uma mão pelo rosto, falar-lhe. O olhar do marido era vazio. Olhava-a num misto de culpa e consternação. Quem o olhasse poderia tomá-lo por uma criança perdida, em busca de algum sinal que pudesse orientá-lo.
António sabia que um longo caminho de recuperação esperava por ele. Um caminho nem sempre cheio de sucessos, mas que com o estímulo e dedicação certos, tinha tudo para ser vencido. Pousou uma mão sobre o vidro impessoal que o separava da sala de recobro e ficou ali a ver a imagem daquele casal. A esperança de conseguir um dia ficar com aquela mulher nunca o abandonaria, apesar de tudo, ele era um homem fiel àquilo em que acreditava.
Passaram oito meses. A barriga de Helena assumia já o volume de quem está prestes a conhecer um filho e Rodrigo fizera progressos extraordinários. Coordenava já os seus movimentos, construía frases a um ritmo normal e a sua memória regressava mais um bocadinho todos os dias.
Almoçava com Helena numa esplanada quando as seguintes palavras decidiram brotar da sua boca sem consentimento:
- Eu não merecia nem metade da tua dedicação.
- Como assim não merecias? Na saúde e na doença, diz-te alguma coisa?
- Diz-me que fui um estupor. Que te negligenciei, que deixei que me seduzissem, quando tenho a mulher mais fantástica do mundo ao meu lado.
Helena franze a testa, duas pequenas rugas, que ele conhece de cor, vincam-lhe aquela parte do rosto.
- O António explicou-nos vezes sem conta que a tua agressividade foi provocada pelo tumor. A culpa não foi tua…
- Eu traí-te Helena. Da forma mais miserável possível…
Helena engole em seco, no fundo de si, pensa que ouviu mal.
- Não olhes assim para mim. Todos os dias me lembro mais um bocadinho e à minha lembrança vem-me a Diana na nossa cama, na nossa casa. Eu traí-te mais do que uma vez! Não me perguntes como é que as coisas chegaram a esse ponto, pois não me lembro de ter uma relação para além do escritório com ela. Não sei o que aconteceu, como é que caímos nos braços um do outro, mas a verdade é que tive outra mulher e pior do que isso. Gostei.
Helena não chora. Recusa-se a deixar que a emoção leve a melhor. Sempre disse a Rodrigo que jamais lhe perdoaria uma traição, mas agora que ouvia aquilo, a perspectiva de o perder parecia dolorosa demais.
- Como é que foste capaz?!! Na nossa casa??? Como é que me fizeste isso, eu confiava em ti! Eu fiz tudo por ti…
Rodrigo tenta alcançar a mão dela em vão. Helena já se levanta, fora de si.
- Eu não sei o que é que me deu, ou porque é que as coisas aconteceram! Eu amo-te Helena! O que fizeste por mim…
- Devia ter sido a Diana a cuidar de ti, a limpar-te a baba, a ensinar-te a falar, a caminhar. Porque é que não a chamaste?! Tu és a maior decepção da minha vida! Nunca, ouviste bem, nunca vou conseguir esquecer!
Rodrigo olha Helena com lágrimas nos olhos. Não tem reposta, pois sabe que Helena está coberta de razão.
- O que é que eu posso fazer para me perdoares?
- Todas as coisas baixas que me disseste, que eu não me produzia para ti, que não saíamos! Não foi porra de tumor coisa nenhuma. Foste tu, tu! Comparada com aquela Diana, é claro que sou um pãozinho sem sal.
Rodrigo quer falar, mas tudo o que possa dizer vai soar a desculpa esfarrapada.
- Não saias da minha vida Helena.
- Olha para mim. Já saí!
Helena afasta-se a passos largos e à medida que a distância entre ela e a mesa daquela esplanada se alarga, as contracções que vem sentindo desde manhã tornam-se mais intensas, até a impedirem de andar. Ofegante encosta-se a um velho muro e pega no seu telemóvel. Só há uma pessoa a quem pode pedir ajuda naquele momento. Uma pessoa que os acompanhou durante estes meses como um verdadeiro amigo, apesar de sentir por ela muito mais do que uma amizade.
- António é a Helena. Eu sei que só te ligo nestas alturas, mas achas que podes vir ter comigo? – A voz dela é calma, mas bem lá no fundo desesperada.
- O que é que aconteceu Helena?
- Vou deixar o Rodrigo e acho que vou ter o bebé…

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor: alívio

"INEM, bom dia."
"O meu nome é António Gentil, sou neurocirurgião, estou no nº 2, 5ºdto da Rua da Felicidade. Tenho um homem, cerca de 30 anos, inconsciente, ventila e tem pulso. Apresenta um desvio da comissura labial, pupilas reactivas mas assimétricas. Solicito o envio de uma equipa médica e que contacte o Hospital Central que chegarei com este doente. Que tenham tudo preparado!!"
"Compreendido. Vou iniciar os procedimentos."
António desligou. Olhou para Helena que estava imóvel de olhar vazio junto à porta. Dirigiu novamente a sua atenção para Rodrigo. "Não tem nada bom aspecto" pensou "Apesar de seres um crápula da maior espécie, de teres feito sofrer Helena, não posso deixar-te morrer. Ela iria ficar destroçada". Amaldiçoou a sua sorte. Sabia que, depois disto Helena iria dar-lhe mais uma oportunidade. Ela nunca o iria abandonar se ele precisasse. E ele precisava de largar esses pensamentos e concentrar-se. Ele era médico e aquele o seu doente. A equipa médica chegou rapidamente. Invadiram a casa com os seus aparelhos, ajoelharam-se junto a Rodrigo e colocaram-lhe um soro, os eléctrodos no peito, um tubo pela boca, outro pelo nariz, uma algália. Helena colou-se à parede como se pretendesse fundir-se nela. Observou Rodrigo a passar na maca, desfigurado, cheio de tubos e fios e surpreendeu-se com ela própria. Não chorou. Recompôs-se. Tinha que ser forte.
Rodrigo acordou no hospital. Não reconheceu aquele tecto branco. Ouvia uns sons agudos, rítmicos e fios por todo o corpo. Contudo, sentia-se incompleto, dividido, fracturado. Através dos vidros, viu Helena falando com um médico que, apercebeu-se depois, era António. "Estou tramado com este gajo" pensou, e chamou Helena. Ela voltou-se e entrou no quarto, um sorriso doce, um afago terno na face, a presença serena. "Desculpa Helena... fui um parvo. Amo-te. Estive com outra mulher, espero que me perdoes..." o olhar de Helena não demonstrava revolta, antes confusão com um toque de desespero. "Tem calma Rodrigo, não te percebo, fala mais devagar"
"Como não me percebes? Estou calmo e a falar devagar..." até que ouviu a sua voz...
"Papapapapapapappppppaaa"
"Mas o que é isto.... não consigo falar..."
"Papapapapappapapapappp"
"Tem calma Rodrigo" Helena derramava uma lágrima
"Calma? Calma? Mas..." tentou levantar a mão direita para agarrar Helena mas a mão não lhe obedeceu. Apercebeu-se que não sentia a metade direita do corpo. Pânico!
"Papapapappapapapappapapapapappp"
"Socorro, Helena tens de me ajudar! António!! Ajuda-me... por favor...."
António administrou-lhe um calmante e explicou "Rodrigo, tiveste um AVC, provavelmente por obstrução de uma das veias do cérebro. Neste momento não consegues verbalizar os teus pensamentos. Chama-se a isso disartria. Também tens todo o lado direito do teu corpo paralisado. Não vais conseguir mexer. Dentro de algumas horas vou operar-te. esperemos que estes factores sejam reversíveis. Entretanto tens de manter-te calmo."
"CALMO? CALMO? COMO ESPERAS QUE ME MANTENHA CALMO??!??!?!? Estou preso dentro do meu próprio corpo..."
"Papapapapapapppappappapappp?!?!??!"
Os exames revelaram um tumor no cérebro de Rodrigo. "Um tumor?!!?!" exclamou Helena "Mas... como é possível?"
"Não notaste nada estranho no Rodrigo?"
"Além de se ter tornado num perfeito idiota??!?! Só umas dores de cabeça. Mas sempre atribuímos isso ao excesso de trabalho."
António engoliu em seco antes de falar "Sabes que a agressividade dele pode ter sido um sintoma importante da sua doença?" Helena petrificou. "O tumor está a comprimir todo a parte do cérebro que controla as emoções... a não ser que ele sempre tenha tido essas atitudes." Helena abriu o seu maior sorriso e abraçou António "Claro que não!!! Ele sempre foi um querido!! Quer dizer que, quando lhe tirares o tumor, ele voltará a ser o mesmo de sempre??"
"Bom... tudo indica que sim...."
"Oh António.... obrigado!!"
Entretanto Rodrigo dormia no quarto. Sentiu uma presença no quarto que o beijou no lado direito da face. Não sentiu nada. Diana aproximou-se vagarosamente. "Coitadinho do meu menino... tem dói-dói? Sei que estás... digamos que apenas a metade das tuas capacidades!!!" riu-se da sua própria piada. "Por mais que sempre tenha fantasiado o sexo contigo num quarto de hospital, estás demasiado em baixo. Não me irias dar prazer. Talvez quando fizeres uma entorse num dos teus jogos de futebol?" Rodrigo sabia que ela não o iria compreender e, por isso não falou, mas pensou com toda a sua força "Cabra... nunca mais te quero ver!"
"Não penses que te livras de mim assim, querido" Diana parecia ter-lhe lido os pensamentos.
Diana saiu. Um enfermeiro entrou e disse-lhe que iria já para a cirurgia.
As luzes eternamente ligadas do corredor voavam por cima dele. O bloco operatório era frio. Reconheceu ou olhos de António atrás da máscara verde. Alguém lhe colocou uma máscara de gases e lhe pediu para contar até dez "1... 2... 3... 4... 5.... 6...". Adormeceu.
António saiu do bloco com um sorriso nos lábios "Correu tudo bem!! Não havia estruturas vitais envolvidas!! A face desfigurada dele retomou a sua posição original!! Vai ficar tudo bem!"
Helena chorava mas eram de alegria as lágrimas que lhe rolavam pela face.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Uma única certeza

António respeitava as lágrimas de Helena com um silêncio solene, por isso o som do motor do Alfa Romeo desportivo era a única coisa entre eles. A estrada do Guincho, escura e agreste como sempre, lembrava-os que eram simples personagens no jogo do mundo.
- Pensamos que conhecemos alguém por dentro e por fora só para descobrirmos que ninguém conhece ninguém de verdade. As pessoas revelam-se sempre, mesmo aquelas que mais amamos. – A sua mão trémula limpa o rosto molhado, numa tentativa vã para deixar de chorar.
António limita-se a pousar uma mão sobre os cabelos de Helena, num gesto que não perdera mesmo passados tantos anos. Como é que ela se esquecera daquele homem com tanta facilidade? Como é que pudera apagar 3 anos de um relacionamento tão sereno, apenas porque Rodrigo surgira na sua vida?
António sempre fora um estudante brilhante, um namorado dedicado, fiel, meigo. Fora o primeiro homem a quem se entregara e jamais se arrependera disso por um único instante. Por isso ao olhá-lo agora, já com os cabelos salpicados de cinzento, o olhar preso na estrada, aquela mão gentil nos seus cabelos, pensou no rumo que a sua vida teria tomado se tivesse ficado ao lado dele.
- Fala-me de ti António, por favor. Faz-me esquecer da minha própria vida nem que seja só por um minuto.
António sorri.
- A minha vida não é propriamente a coisa mais excitante do mundo, mas se me queres ouvir falar…
- Por favor fala, ajuda-me a esvaziar a cabeça.… - A voz dela era uma súplica.
- A minha vida seguiu um rumo certinho, sem desvios. Acabei o curso com média de 18. Estive uns anos em Londres a exercer, fui convidado a ficar por lá. Mas decidi que fazia mais falta aqui, por isso voltei há cerca de 2 anos. Ontem estava num congresso estúpido quando decidi ir apanhar um bocadinho de ar. Foi aí que te vi sentada no passeio. Até para um homem de ciência como eu é difícil não acreditar no destino quando estas coisas acontecem.
Helena sorri.
- Sempre foste tão céptico em relação a tudo isso...
- Menos em relação a ti. Sempre tive a certeza absoluta que um amor assim só se encontra uma vez na vida.
Helena podia ter ficado incomodada, mas ouvi-lo falar do amor que sentira por ela parecia a coisa mais natural do mundo.
- Eu tenho uma teoria bastante científica acerca do assunto.
- Morro de curiosidade.
- Há alguém destinado para ti no planeta terra. Alguém a quem a força da gravidade, da atracção, do que lhe quiseres chamar, é impelido na tua direcção. Pode demorar anos até que essa pessoa se cruze no teu caminho. Muitas pessoas se perdem umas das outras, pois não estão atentas e essa distracção pode custar-lhes bem caro. Mas eu sempre fui uma pessoa focada. Quando te vi entendi logo que eras a minha companheira de viagem. Tu não me viste como eu te vi. Mas nunca desisti de ti Helena, pois sabia que muitas vezes temos que perder alguém para o encontrar. E que tu tinhas que me perder para me reencontrares. Simples, não é?
Como é que alguém podia amar outra pessoa independentemente de tudo? Não perder a fé, mesmo quando o outro partia noutra direcção? Como é que alguém podia manter-se firme num amor que tinha apenas um lado? Helena não sabia a resposta. A única certeza que tinha era que se existia alguém capaz de um sentimento assim, esse alguém era António.
- Estás consciente de que amo o Rodrigo? Apesar de poder ser o homem mais errado para mim, é a ele que amo?
António sorri, encosta o carro junto à praia e desliga o motor barulhento. Vira-se e encara Helena com um sorriso.
- Eu sei esperar Helena. E por um grande amor espera-se sempre.
Helena abana a cabeça, incrédula.
- Chegas a assustar-me.
António acaricia o rosto dela. O toque da mão dele na sua pele não a deixa indiferente, mas é Rodrigo quem lhe assoma à mente, por isso segura na mão daquele homem ao seu lado, como se o travasse.
- Eu sei que te magoei muito quando terminei tudo entre nós. Não quero voltar a magoar-te António. Não mereces…
António respira fundo e muda o rumo daquilo em que pensa.
- O que é que tencionas fazer Helena? Tens um marido violento, que te insulta, te maltrata numa altura em que mais precisavas dele. Tencionas voltar a correr para os braços de alguém que te deixa tão infeliz?
Helena desvia o olhar, fita aquele mar revolto na esperança de encontrar algum tipo de resposta.
- Agora que te reencontrei não tenciono perder-te. – António nunca dizia o que não sentia, desta vez não era diferente.
- Leva-me para casa António. Eu vou ter uma última conversa com o Rodrigo.
- Levo-te a casa com uma condição. Deixares-me subir contigo. Se o teu marido ainda estiver com aquele olhar enlouquecido, não tenciono deixar-te sozinha com ele.
- Como queiras.
O sol levantava-se no horizonte, aquecendo-os na viagem de volta. Muito pouca coisa foi dita entre eles. António pousou a sua mão na mão dela na maior parte do tempo e Helena deixou-a ficar, sem a menor pressa de chegar a casa.
Os dois entraram no apartamento abafado. Um cheiro a tabaco e a álcool pairava no ar. António abriu caminho pela casa. Helena atrás dele com o coração nas mãos, um sentimento de angústia avassalador, como se alguma coisa terrível estivesse prestes a acontecer. Por isso quando entraram na cozinha e viram Rodrigo estendido no chão, Helena de alguma forma sentia que seria isso mesmo que encontraria quando chegasse a casa. Tudo à sua volta se desfocou, por isso nem viu bem António que caiu de joelhos no chão ao lado de Rodrigo, tomando-lhe o pulso, vendo-lhe os olhos, gritando qualquer coisa para o seu telemóvel. Era como se tivesse acabado de sair do seu próprio corpo e tudo o que se passava agora fosse exterior a ela.

terça-feira, 31 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor: lágrimas

Rodrigo avança para de novo beijar Diana, com o olhar turvo pela luxúria que o domina e que lhe dá um ar de loucura prestes a rebentar. Diana afasta-se e coloca-lhe uma mão no peito. Está com um ar absolutamente furioso enquanto diz: "Estás louco?!?" e sai repentinamente batendo a porta, furiosa. Rodrigo está confuso e, ao mesmo tempo furioso. Com Helena por ser tão presente, tão constante. Precisa de espaço para pensar, para se organizar e ela não lho dá. Com Diana por lhe ter mostrado um prazer que nunca tinha sentido com mais ninguém, como uma criança que recebe um brinquedo novo, e por agora lho estar a recusar. Mas estava principalmente furioso com ele próprio. Sempre fora confiante e determinado. Nunca teve dúvidas nas suas escolhas. Porquê este caos agora? Esta desorganização completamente fora de controlo?
"Já fizeste a porcaria do café?" perguntou enquanto entrava lentamente na cozinha. Descalço, tronco nu, o cabelo negro sobre os olhos dando-lhe um aspecto sombrio. Helena chorava encolhida num canto. "Chora, chora... não me serves para nada. Absolutamente nada!" Sentou-se indiferente à mesa e comentou "Que porcaria de café..." Helena sentia-se pequena, vazia e todo o seu interior chorava. Não era medo, era uma profunda tristeza pois amava aquele homem e sabia que ele a amara também, até há bem poucos dias. Chorava porque, estando na sua cozinha com o seu companheiro de anos, sentia-se no desconhecido.
A campainha tocou. Helena correu até à porta e abraçou António. " Olha, olha, quem ele é!!" disse Rodrigo num tom trocista "Sabia que nunca tinhas esquecido esse... esse merdas! Há quanto tempo andas com ele? Sabia que eras uma galdéria... Vai! Pirem-se os dois daqui!!" António retesou os músculos e deu um passo mas Helena pediu para a levar dali. "Estás louco Rodrigo? Nunca gostei de ti porque me roubaste Helena, mas pensava que irias cuidar dela... já vi que me enganei... não vales nada!" Saíram.
Rodrigo estava descontrolado! Arremeteu a chávena do café contra a parede, pontapeou a porta e desfez os lençóis da cama. Sentia-se furioso mas não conseguia determinar com o quê. A visão de Helena apoiada em António revelara-se insuportável. Amava-a ou odiava-a? A linha que separa estes dois sentimentos era agora ténue e ele já não sabia o que sentia por ela. Sentado na cama, observava os prédio que dominavam a cidade e pensava como seria atirar-se do telhado de um daqueles arranha-céus. O que se sentiria na rápida descida. E o contacto com o chão? Seria doloroso ou libertador? Enquanto pensava de olhar perdido no horizonte sentiu o toque quente a que já se habituara. "Voltaste? Pensei que já não querias nada comigo, de tão furiosa que estavas..."
"Cala-te! És parvo se pensas que me vou expor à tua mulher! Tu és apenas o meu brinquedo..." sorria com ar de menina inocente mas o seu olhar traía-a. Estava louca de desejo. "Fiquei muito excitada com toda esta cena tragico-cómica!! Eu, inocente, apanhada numa discussão entre marido e mulher!" Soltou uma gargalhada leve e aguda, como uma menina travessa. Rodrigo perdeu o controlo. Agarrou-a por um braço e encostou o peito dela ao beiral da janela enquanto lhe fazia subir o curto vestido até à barriga e lhe arrancava a lingerie rendada "Á bruta? Gosto muito..." sussurrou Diana com a voz sumida na respiração acelerada e no gemido que soltou quando Rodrigo a penetrou furiosamente. Rodrigo movia-se furiosamente. Parecia mais que queria libertar as suas frustrações que propriamente retirar algum prazer de Diana. Os braços tensos, os olhos firmemente fechados como se estivesse envergonhado do seu comportamento. Terminou rapidamente e caiu exausto na cama. "Uma rapidinha? Esperava mais de ti, meu garanhão! Mas hoje não foi um bom dia para ti... da próxima será melhor."
"NÃO HAVERÁ UMA PRÓXIMA!!" gritou Rodrigo, desolado.
"Também disseste que não haveria uma primeira, lembras-te? E ainda há pouco te rendeste, tu próprio o disseste." saiu com o seu característico porte altivo e sensual. Rodrigo não conseguiu conter tudo o que sentia, tudo o que o consumia e irrompeu num choro descontrolado "O que ando eu a fazer... Helena..."
Helena estava sentada no carro de António, mais calma mas ainda com algumas lágrimas rebeldes que teimavam em rolar pela sua face. "Obrigado por vires António... obrigado."
"Não me agradeças Helena, sabes que gosto muito de ti. Para onde queres que te leve?"
"Não sei... guia e veremos onde a estrada nos leva."

sábado, 28 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Às vezes é difícil demais

Helena beija Rodrigo junto aos lábios e tapa-o melhor. O quarto deles está iluminado por uma luz ténue que vem do candeeiro da cómoda e que confere um tom alaranjado àquele compartimento. De alguma forma é uma luz que serena.
- Agora descansa. - A voz dela é terna, como um sussurro.
- Ainda não me sinto bem Helena.
- Tens andado muito ansioso. Vou-te preparar um chá, depois venho para ao pé de ti fazer-te aquelas festas no cabelo. Geralmente são tiro e queda.
- Não quero merda de chá nenhum! Quero ficar sozinho! - A sua voz soa demasiado agressiva até para ele. Mas Helena finge nem perceber. A campainha da porta toca e ela agradece no seu íntimo. Ao sair do quarto tem que munir-se de toda a sua força interior para não chorar. Há alguma coisa de errado com Rodrigo, ela sabe que sim, tem a certeza que ele lhe esconde uma verdade qualquer. Ninguém deixa de amar ninguém da noite para o dia. Ela teria notado que as coisas se degradavam lentamente e isso não aconteceu. Perdida nos seus pensamentos, Helena abre a porta e depara-se com uma atraente loira que num vestido curto, mas com classe, sorri para ela de mão estendida.
- Sou a Diana, colega de escritório do Rodrigo.
Helena estende e mão e tenta lembrar-se do nome, mas nada. Rodrigo nunca lhe falara daquela colega.
- Sei que já é tarde, mas como vamos a tribunal amanhã, combinei com ele rever a lista de testemunhas. O Rodrigo não lhe disse nada?
Helena disfarça o melhor que consegue o facto de se sentir uma completa idiota.
- Ele não se sentiu bem...
- O que é que aconteceu?
- Porque é que não entra?
Ao fechar a porta atrás de si Helena sente um estranho arrepio no pescoço, como um mau pressentimento que chega sem pré-aviso. A mera presença daquela mulher incomoda-a mais do que acha possível.
- Aceita um café, um chá?
- A Diana odeia chá!
De calças de pijama e em tronco nu, Rodrigo fita Diana ali bem no meio da sala.
- Porque é que não nos trazes um café, tenho a certeza que nos ia fazer bem a todos.
- Eu não sei se é boa ideia estares a pé Rodrigo, devias descansar e...
- Porque é que não vais fazer o café Helena? Por favor, será que não tenho um minuto de paz?
Helena bem de dentro de si arranca um sorriso forçado e vai para dentro. Desta vez já não consegue controlar as lágrimas. Já não consegue controlar quase nada. Por isso quando entra na cozinha, pega na cafeteira do café a atira-a com toda a força contra a parede, como se assim evitasse sair de novo porta fora.
Na sala Rodrigo e Diana olham-se. O olhar de Rodrigo é tão intenso que a atravessa sem qualquer espécie de pudor.
- És insaciável mesmo, não te chegou o que tivemos esta tarde?
Diana tem um sorriso nervoso, ajeita o cabelo, como que para ganhar tempo.
- Eu sei que parecemos dois loucos, mas temos que ganhar isto Rodrigo.
Rodrigo puxa-a para si e consciente de que não consegue controlar-se beija-a com uma voracidade tal que tudo se apaga em seu redor.
- Já ganhaste Diana, venceste. Estás satisfeita, não penso noutra coisa, nada mais importa. Ganhaste.
Helena chora na cozinha, odeia sentir-se assim cercada, humilhada, desprezada. O seu telemóvel toca. Ela consegue limpar as lágrimas e entre soluços atende.
- Sim?
- Helena sou eu o António. Fiquei preocupado contigo e consegui o teu número.
- Por favor António vem-me buscar, tira-me daqui, faz qualquer coisa. Eu não aguento mais. Helena soluça, a voz distorcida pelo desespero. - Eu preciso de alguém que.. Eu preciso...
- Calma Helena, dá-me a tua morada eu vou agora para aí...

sexta-feira, 27 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor: um desconhecido.

Branco. Tudo era branco. Sentia-se a flutuar, ondulante, corpo à deriva, sozinho num universo vazio de som mas pleno de luz. A luz que lhe penetrava pelas pálpebras e feria os olhos que se tentavam esconder. Subitamente, um som. Rítmico, cavo, tamboreante. Vinha de dentro de si e apercebeu-se que era o seu coração. Era o único som nítido que ouvia, o resto chegava-lhe difuso e longínquo, como se estivesse debaixo de água. Abriu os olhos e viu como se observasse o mundo através de um vidro por onde a água escorre profusamente.
"Tensão normal, pulso normal, glicémia normal, traçado cardíaco normal... tudo normal!! Juro que não sei o que se passa com ele. Mas não reage a estímulos, nem sequer dolorosos... juro que nunca vi nada assim..." ouviu uma voz masculina, num tom entre o surpreendido e o confuso. Depois uma voz que conhecia tão bem. "Rodrigo... meu amor. Acorda, precisamos de ti agora. Eu e o nosso bebé...". A voz de Helena pareceu despertar o resto do corpo. Sentia as mãos dela quentes a agarrar na sua, sentiu as suas lágrimas a cair no seu peito mas estas queimavam-lhe como gotas de cera de uma vela a arder. Conseguia ainda sentir o calor de Diana na sua pélvis, a dor fina das suas unhas cravadas nas suas costas, o seu beijo molhado no seu peito. Sentiu finalmente a superfície dura e fria da maca nas suas costas e acordou.
"Helena..." disse com voz débil e sussurrante, enquanto lhe apertava a mão. "O que se está a passar?". "Rodrigo? Estás bem? Ele está a acordar!! Não te preocupes amor, estamos a ir para o hospital...". Ao ouvir a palavra hospital, Rodrigo levantou-se furiosamente. Arrancou os eléctrodos do peito, a manga da tensão, a agulha do braço levando a sangrar profusamente. Estava cego de fúria "HOSPITAL??? HOSPITAL? MAS QUE MERDA É ESTA, ACHAS QUE ESTOU LOUCO?". Helena tremeu de medo, ali encarcerada numa pequena célula de ambulância com um homem tresloucado, sujo de sangue, olhar raiado de raiva, um homem que ela nunca vira antes... o paramédico actuou rapidamente, dando-lhe uma injecção de um sedativo que Rodrigo nem sentiu.
Acordou nas Urgências, sobrelotadas como sempre, no meio do frenesim dos enfermeiros e médicos, num local onde as luzes estão sempre ligadas, num local que nunca dorme. "Onde estou Helena, o que se passou?" perguntou docemente. Helena estremeceu e afastou-se ligeiramente "Não te lembras de nada?"
"Lembro-me de ir tomar um duche e depois... um clarão... e depois... nada. Não me lembro de nada."
Foram atendidos por um médico com uma aparência demasiado nova e assustado para ser médico. Em cinco minutos diagnosticou uma crise ansiosa aguda, provavelmente relacionada com algum factor de stress. "Aconteceu alguma coisa de diferente, alguma novidade, problemas no trabalho?"
"Bem... Dr., eu descobri que estou grávida e contei-lho. Apenas isso."
Está explicado!! Não tem problema, é uma situação perfeitamente normal. Auto-limitada. Pode ir!"
"Mas... e aquele acesso de fúria, na ambulância?"
"Minha senhora.... nestas alturas o nosso sub-consciente manifesta-se e ninguém sabe de que maneiras. As melhoras." Virou costas e desapareceu na multidão de gente, confundindo-se com as outras batas brancas que por ali andavam, sem aparente sentido ou objectivo. Ajudou Rodrigo a levantar-se. Chamou um táxi e dirigiram-se para casa. Rodrigo fixou o seu olhar num ponto algures nos limites da cidade que passava indiferente por eles. Ela apertou-lhe a mão e chamou baixinho por ele. Em resposta obteve... nada.
(Desculpem a demora mas a vida não é só blogonovelas, um gajo também tem que trabalhar!)

Um Estranho Caso de Amor - Uma Certeza

Enquanto punham Rodrigo na ambulância, Helena pensava que não podia perdê-lo. Recordou tudo, desde o momento em que o viu pela primeira vez, até ao dia em que fizeram amor dentro do velho chaço dela ao som de Brian Adams. Recordou aquele momento que antecedeu o primeiro beijo, a sensação de plenitude quando ele disse que a amava e como aquela palavra assumiu uma importância desmesurada. Helena recordou a primeira casa deles de uma divisão, o cão que ele lhe tinha dado, a forma carinhosa como a tinha consolado quando Aramis (o cão) tinha sido atropelado. Ela recordou a voz, o cheiro, o toque daquele homem agora tão diferente. Recordou o calor deixado na cama quando ele se levantava de manhã, o café que ele preparava sempre e que povoava as manhãs deles, recordou o sorriso que Rodrigo tinha apenas na sua direcção, recordou o olhar escuro e fundo, as mãos entrelaçadas nas dela. Há dez anos que se construíam e reconstruíam, se reconquistavam, se davam um ao outro. Dez anos de altos e baixos mas cheios de amor e sentiu-se desmaiar perante a perspectiva de o perder.
Reviu tudo em poucos segundos, mas com uma precisão estonteante.
Quando entrou na ambulância segurou na mão do seu marido ainda inconsciente e sentiu bem dentro de si que seriam sempre um do outro.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Desculpas

- Desculpa ter sido um traste Helena, tu não merecias ouvir nada daquilo que te disse.
Helena olha bem dentro dos olhos dele e sente que há ali qualquer coisa diferente, qualquer coisa que não estava lá antes dela ter batido com a porta.
- Há qualquer coisa que não me estás a contar Rodrigo? Lembras-te do que prometemos quando nos casámos? Mentiras nunca. Prefiro uma verdade dura a uma mentira piedosa.
Rodrigo engole em seco. Ao vê-la ali à sua frente com aquele olhar que o despe por dentro vacila.
- Fala Rodrigo eu sinto quando me estás a esconder alguma coisa.
- Porque é que não falamos do nosso filho? Quando é que soubeste, porque é que não me disseste que desconfiavas de alguma coisa?
- Soube hoje de manhã.
- Então porquê o silêncio?
- Disse-te agora, não disse?
Rodrigo passa uma mão sobre o rosto de Helena, ela faz exactamente o mesmo. É o sinal de tréguas deles.
Quer beijar Helena, mas sente o sabor de Diana na boca, sente-a ainda pelo corpo todo. Vai ter que a tirar da pele, por isso levanta-se e dirige-se para a casa de banho.
- Vou tomar um duche e depois conversamos com mais calma.
- Rodrigo? - O tom de voz dela diz quase tudo o que não tem força para dizer.
Rodrigo vira-se e encara-a.
- Ficaste contente com a notícia?
Rodrigo sorri, mas é o sorriso mais triste do mundo, um sorriso que encerra tanta dose de culpa como de felicidade.
- É claro que estou. É o teu sonho, não é?
- Pensei que também querias um filho.
- Se te faz feliz quero sim.
- É só isso?
- Por enquanto é tudo o que consigo dizer. Deixa-me tomar um banho, por favor, eu preciso de um minuto sózinho.
- Desculpa mas não vais tomar porra de banho nenhum. Olha para mim!
Rodrigo continua de costas viradas.
- Olha para mim! Estamos há 7 anos a tentar ter um filho. Fiz 5 longos tratamentos, fui picada, analisada, medida, fiz punções, fecundações, construí expectativas, desiludi-me. E quando desistimos de tentar acontece e tu reages assim?!!!
Rodrigo olha Helena, os olhos avermelhados e húmidos.
- Porque é que não consegues deixar-me em paz Helena? Porque é que tem que ser tudo ao teu nível de emoção?
- Não queres que me emocione? Pela última vez Rodrigo, o que é que tu tens?
Rodrigo entra na casa de banho e fecha a porta atrás de si, encostando-se a ela, como se largasse todo o peso que o consome. Consegue ouvir Helena chorar no quarto, mas dentro de si nada mais parece importar. O cheiro, a voz, o corpo de Diana estão em todo o lado como uma maldição que não o quer largar, que insiste em consumi-lo.
Rodrigo chora, chamando por si, chamando pela sua razão que parece perdida. Acaba por gritar como nunca havia gritado até então.
- Nããããããããooooo!!!!!
Helena irrompe casa de banho adentro e vê Rodrigo caído no chão, inanimado.

terça-feira, 24 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Culpa

Rodrigo senta-se na cama. Sente-se confuso porque dois sentimentos antagónicos o consomem. Por um lado, está farto da vida que leva com Helena mas por outro sente que não consegue viver sem ela. Despe-se mas, em vez de ir para o chuveiro deita-se na cama. Sabia que Helena odiava que ele se deitasse na cama suado mas fazia-o para, de alguma forma a castigar. Ela nunca tinha saído assim de casa.
Ouviu o barulho da porta a fechar, devagar, como se não se quisesse anunciar. "Helena... desculpa-me, não sei o que me deu. Ultimamente sinto-me como se fosse outro, como se não conseguisse controlar as minhas emoções." Mas quem entrou no quarto foi Diana. Parecia flutuar, tal a leveza dos seus passos. "Olha, olha... estás completamente nú!" disse num tom entre o trocista e o malicioso "Poupamos tempo." Encaminhou-se para ele enquanto desapertava o fecho lateral do seu vestidinho vermelho. Apesar deste não deixar margem para grandes dúvidas, tal o seu diminuto tamanho, Rodrigo ficou siderado com o corpo daquela mulher. Era ainda melhor do que ela deixava adivinhar. "O que fazes aqui Diana? Como conseguiste entrar? Vai-te, por favor... já te disse que não quero nada contigo!!"
"Ora, ora Rodrigo... nunca nenhum homem me rejeitou e tu não serás, concerteza o primeiro. Além disso posso muito ver muito bem o... tamanho da tua vontade... para que eu me vá embora!!" Riu e montou-se em cima de Rodrigo. Este estava perfeitamente em pânico. Mais uma vez o seu corpo parecia ter vontade própria. Sentia-se como se de um voiyeur se tratasse. Observava aquela erecção que não queria ter, os arrepios de prazer que sentia pelo simples contacto com a pele de Diana, mas isso causava-lhe repúdio. Estaria a sonhar outra vez? Já a tinha recusado antes, o que o impedia agora? A discussão com Helena? Quando Diana o colocou dentro dela compreendeu que era real. Bem real.
As suas mãos percorreram aquele corpo de pele sedosa. Detiveram-se nos seus seios, redondos e firmes, com os mamilos erectos. Ela arqueou o corpo com aquele toque e puxou-o ainda mais para o fundo de seu corpo. Nesta altura Rodrigo capitulou. Colocou a mãos nos seus quadris e ergeu o seu tronco firme e torneado pelo exercício físico, beijou avidamente o pescoço de Diana enquanto determinou o ritmo a que os seus corpos se encaixavam. Diana gemeu, Rodrigo explodiu de prazer. Diana mordia o su próprio lábio enquanto lhe cravava as unhas no fundo das costas. Diana levantou-se, sorria naquele seu característico tom trocista e triunfante "Vês? Não foi assim tão mau, pois não?". Vestiu-se e saiu sem mais palavras, apenas aquele olhar de lúxuria a bailar livre.
Helena despediu-se de António. "Obrigado António, foste um querido e ajudaste-me muito! E, na verdade tens razão. Não posso decidir o que fazer com esta gravidez sem antes falar com Rodrigo. Afinal é o filho dele."
"Continuas a amá-lo Helena?"
"Sim António. Amo-o. E não vou desistir assim da nossa felicidade. Lutarei até que não seja mais possível para nós ficarmos juntos. Ou até que Rodrigo me diga para sair da sua vida..." o seu olhar endureceu.
"Obrigado pela companhia António, e pelos conselhos!" despediu-se enquanto o beijava na face.
"Ora Helena... posso... podemos voltar a encontrar-nos, quer dizer... beber um café ou assim?"
"Claro! Falaremos dos velhos tempos."
Helena entrou no quarto e viu Rodrigo de olhar fixo, vazio. Reparou que estava suado mas não ligou. Estava decidida a não discutir com ele. Saltou para a cama e, com o seu sorriso mais belo e sincero disse: "Amo-te muito Rodrigo! Estou grávida!" Rodrigo não foi capaz de conter as lágrimas. Helena abraçou-o irradiando felicidade. Mas as lágrimas de Rodrigo eram causadas pela culpa do que acabara de fazer. A notícia foi demasiado violenta. Rodrigo chorava de culpa e remorso e pensava "A Helena nunca pode saber..."

Um Estranho Caso de Amor - Decepção

Helena saiu do prédio com o olhar toldado pelas lágrimas. A decepção que crescia bem dentro de si era quase sufocante.
Quem era aquele homem que deixara para trás? Um homem outrora carinhoso, dedicado, sensível que não passava agora de um estranho.
Sabia que a vida deles estagnara um pouco, que já não se consumiam um ao outro como antigamente, que algures entre a vida doméstica e o dia a dia, o romantismo se havia perdido. Mas valia a pena lutar por eles, por aquilo que tinham. Helena não era uma desistente. Por isso não entendia este encolher de ombros de Rodrigo, esta frieza que lhe congelara o coração.
Já não a achava a mulher mais bonita do mundo, já não a ouvia com aquela atenção desmesurada, já não a fazia sentir-se especial. E ainda lhe vinha pedir contas do estado das coisas?
Sem forças para continuar a caminhar sentou-se na berma de um passeio e escondeu o rosto entre os braços. Talvez assim conseguisse pensar, raciocinar no meio daquele turbilhão que sentia. Só queria uma resposta, um qualquer entendimento que a resgatasse, pois afundava-se lentamente.
Sentiu uma mão no seu ombro e uma voz que já havia esquecido:
- Helena, és tu?
Helena limpou as lágrimas com as costas da mão. Sentia-se tremer, com a pressa de sair esquecera-se de vestir um casaco. A respiração dele provocava uma névoa à sua volta, mas Helena viu imediatamente António, reconheceria aquele homem no meio de uma multidão. O seu primeiro namorado.
- António?
António baixou-se ao nível dela e afastou-lhe o cabelo do rosto. Depois tirou o seu próprio casaco e colocou-o nos ombros de Helena.
- O que é que estás a fazer aqui? Moras perto? Posso-te ajudar?
- É tão típico meu. Encontrar o meu primeiro namorado nestas figuras. Em vez de te mostrar que estou bem e maravilhosa, olha para mim. Um farrapo.
António senta-se ao lado dela e ajeita-lhe o casaco, apertando-a contra si.
- Não digas isso, estás na mesma. Exactamente como na faculdade. Não mudaste nada.
Helena sorri, nem tenta evitar as lágrimas que insistem em cair.
- Acabei de descobrir que estou grávida e quando decido contar ao meu marido ele age como um perfeito desconhecido. Sabes quando tens a sensação que alguém te quer deixar e faz de tudo para que sejas tu a deixá-lo?
António anui com um sorriso triste.
- Estás esquecida de como é que as coisas entre nós terminaram? Conheceste o Rodrigo e deixaste-me a remendar os bocadinhos de mim sem sequer olhares para trás.
- E hoje apareces-me aqui, num dos piores dias da minha vida.
- Disseste ao Rodrigo que estavas grávida?
- Não, ele tratou-me como lixo. Eu já nem sei se quero ter este bebé, eu já não sei nada António, nada.
Helena encosta a cabeça a António e deixa que os braços dele a envolvam. Os dois ficam ali, sentados na berma do passeio, como dois velhos amigos que finalmente se reencontraram após um longo período longe um do outro. Helena deixa a voz de António ecoar na noite, enquanto ele lhe diz:
- Vai ficar tudo bem Lena,tudo bem...

domingo, 22 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor - A Falta de Luxúria

- Chegaste tão tarde hoje Rodrigo, o que é que aconteceu? - O Olhar de Helena enternecia-o sempre, mas hoje parecia impacientá-lo.
- Eu tinha-te dito que tinha jogo. ultimamente parece que não ouves uma única palavra do que te digo. - Ao dizer isto, Rodrigo deixa cair o saco desportivo no chão e descalça os ténis, lançando um em cada direcção.
- Porque é que estás assim?
- Assim como? Tu é que me enches de perguntas quando a minha única vontade é enfiar-me no banho e aterrar na cama. Haja pachorra!
- E não é o que tens feito todos os dias? Porque é que hoje havia de ser diferente? - Helena estava claramente magoada com o tom de Rodrigo - Parece que fazes de tudo para chegar tarde a casa e saíres o mais cedo que consegues. O que é que se passa? Se tens alguma coisa para me dizer diz. Mas pára de agir como um idiota. Este não é o Rodrigo com quem me casei.
- Lamento não ser o poço de perfeição que me imaginavas. Se a realidade é demasiado dura para ti tens bom remédio.
Helena tem o olhar húmido por cada palavra que Rodrigo proferiu.
- Tenho bom remédio?
- Sinceramente Helena não tenho paciência para mais uma das tuas cenas. Um gajo chega de rastos do trabalho e ainda tem que levar com isto em casa?
Rodrigo afasta-se para dentro. Helena segue-o pela casa.
- Estás a querer fazer com que te odeie?!
Rodrigo pára no corredor e olha aquela mulher quebrada diante de si.
- Porque é que não te arranjas mais Helena? Porque é que nunca me desafias para sair, jantar fora, dançar, qualquer coisa. Porque é que passamos a vida enfiados em casa?
Helena chora abertamente, mas já não sabe se é de raiva, se de dor.
- Pensei que gostavas de ficar por casa, que estavas cansado.
- Sempre de calças de ganga, és incapaz de te produzires mais um bocadinho para mim.
- Mas que merda é esta Rodrigo? E tu produzes-te para mim? O que é que tens feito ultimamente para me agradar? Ah não espera, deixa ver. Não sei o que é mais sensual, se as tuas cuecas sujas que tenho que pôr a lavar, ou a porra do jantar que tenho que te fazer todas as noites! Já te ocorreu que eu também gostava que me levasses a jantar fora? Que também gostava que me fizesses sentir um bocadinho mais desejável?
A voz de Helena tremia de indignação!
- Parece que estamos os dois mal.
- Então vamos falar, conversar, tentar entender o que é que está a falhar. Mas não penses que me vais fazer sentir culpada!
Rodrigo limita-se a lançar um olhar de cansaço a Helena e a prosseguir o seu caminho em direcção ao quarto. Ao virar as costas à sua mulher sente-se o pior animal do mundo e pergunta-se o que é que o levou a dizer tudo aquilo que acabou de dizer. Mas é como se uma voz tivesse falado por ele, um impulso que não consegue mais largar. Um impulso chamado Diana.
Helena pega nas chaves de casa, calça uns sapatos e atira com a porta da rua. Não sabe para onde é que vai, a única certeza que tem é que precisa de sair dali o mais depressa possível.

sábado, 21 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Luxúria

Helena acordou com o suave odor a café que se espalhava lentamente pela casa e lhe invadia as narinas. Levantou-se energicamente e embrulhou-se no lençol. Encontrou Rodrigo sentado na banca da cozinha, um hábito que ela não gostava mas enfim, sabia que ele só o fazia quando estava com a mente ocupada.
-"Bom dia meu lindo! Sabes como fico contente quando te levantas antes de mim e te encontro já limpinho e cheiroso. E este café... hmmmm, fico acordada só com o seu odor!" disse enquanto caminhava lentamente, deixando cair o lençol e olhando-o maliciosamente. Helena era uma mulher bonita, sem dúvida. Mas a sua beleza era terna e serena. Uma morena de olhos castanhos profundos, não muito alta mas de curvas generosas. Séria no trabalho, competente, defensora da igualdade entre géneros pelo que abominava as suas colegas que faziam uso dos seus atributos de mulher para ascender na hierarquia dominada pelos machos. Mas isso era no trabalho. Na privacidade do lar sabia entregar-se plenamente, era atenta aos pormenores e tentava sempre que a sua relação com Rodrigo fosse sexualmente aliciante. Para ambos.
-"Desculpa Helena... tive um sonho estúpido... ou dois, não sei bem. Estou cansado e tenho de ir para o escritório." Beijou-a nos lábios e saiu.
Enquanto conduzia não conseguia tirar Diana do pensamento. Como é que ela tinha entrado em casa, no duche? Com Helena logo ali. Lembrava-se da situação como de um sonho se tratasse mas ainda sentia o toque firme dos seus seios nas costas e o seu beijo lascivo. "Sempre soube que eras uma cabra. Tens o desejo a bailar-te no olhar" pensou enquanto se esforçava para se concentrar na face doce de Helena, afinal a mulher que ele amava, com quem tinha assumido um compromisso, que lhe dava tudo, na vida e na cama, que o fazia sentir no centro do mundo. Estranhava esta sensação de ter de se esforçar para pensar em Helena... era a primeira vez que o fazia desde que estavam juntos. Estava constantemente a ser interrompido pelo riso trocista e mavioso de Diana enquanto dizia "Vim para salvar o teu casamento. Aceita."
Ao entrar no seu gabinete encontra Diana sentada na sua secretária. Não consegue deixar de sentir um arrepio na espinha cada vez que vê aquela mulher. Alta, pernas compridas e torneadas pelo ginásio diário que culminam num rabo perfeito. A cintura fina é salientada pelos seios firmes e nota que não traz soutien. A face é a dos anjos mas com a aura dos demónios, os olhos verdes penetrantes parecem despi-lo com os olhos. Rodrigo sente as mãos suadas quando diz "O que fazes aqui Diana? Por favor sai!" enquanto prepara a sua mesa de trabalho tentando manter as costas viradas para Diana. "Sabes perfeitamente o que quero. E sei também que me desejas. Porque lutas assim contra mim, ou melhor, contra ti?"
"Já te pedi para saíres..." sente um puxão na gravata e fica frente a frente com Diana. Ela envolve-o com uma das suas pernas, como se de uma serpente se tratasse. Ele não consegue contrariar o seu corpo, todo ele agora bem firme e tenso. Diana coloca a sua mão na braguilha de Rodrigo e escarnece "Tolo! Todo o teu corpo me quer" e baixa-se enquanto desaperta as calças dele. Rodrigo estremece.
"Rodrigo, Rodrigo, RODRIGO!!!" ele estremece e vê o seu velho amigo Ricardo "Que se passa pá??!?! Estás há horas a olhar para esse ecran!! Acorda meu!!! Chegas e nem dizes nada, as secretárias estão a comentar que estás estranho... "
"Viram alguém sair daqui agora mesmo?"
"Não, ninguém viu nada. Estás bem? Estás suado. Tens febre?"
"Nada disso pá!! Como é logo? A bola mantém-se?"
"Claro meu!! Aqueles cromos da contabilidade nem sabem a abada que vão levar!!!"
"Vá, tenho de trabalhar. Encontramo-no no balneário!"
"Porta-te bem pá!!! E já topaste a miúda nova, Diana?? É tão boa!!!!"

Um Estranho Caso de Amor - A Tentação...

Rodrigo deixa que a água quente lhe caia sobre o corpo demasiado tenso e fecha os olhos. Ainda se sente inebriado pelo sonho que o despertou de forma tão brusca, por isso quando o toque daquelas mãos o envolve, não tem pressa de abrir os olhos, deixa-se afagar por aquela pele que conhece tão bem.
- Tive um sonho tão estranho. - A voz dele sai enrouquecida. Como lhe sabe bem aquela rara iniciativa de Helena. Como tinha saudades de a sentir assim contra si.
As mãos prosseguem sem resposta e terminam numa suave massagem pelas suas costas doridas.
Rodrigo vira-se para trás, na certeza de encontrar aqueles lábios cujo sabor sabe de cor. Aproxima o seu rosto do rosto dela e vira-se para a beijar. A boca corresponde, mas não sabe a ela. Rodrigo abre os olhos e quem tem ali, nua dentro da banheira ao seu lado não é Helena, mas uma mulher loira, esguia com um sorriso provocador nos lábios.
- Diana?!!! O que é que estás aqui a fazer? Como é que? Onde?
- Calma Rodrigo, eu sei que tens sonhado comigo. - O sorriso dela é desconcertante.
Rodrigo tenta tapar-se, sai da banheira desajeitadamente, acabando por cobrir-se como pode com a toalha.
- Eu só posso estar a sonhar. Isto não é verdade.
- Sempre me desejaste, do que é que estás à espera? Nos sonhos podemos ser quem quisermos. Não deves fidelidade a ninguém.
Mas Rodrigo sentia-se bem acordado. Sabia que as coisas entre ele e Helena há muito haviam arrefecido, mas ela ainda era a sua mulher.
- Sai daqui. Não sei como é que entraste, mas trata de sair o mais rapidamente possível.
Diana sai da banheira com toda a segurança que uma mulher consciente do seu corpo pode ter.
- Tu só vais ser feliz com a Helena depois de me teres. Será que não vês isso? Eu vou sempre ser a sombra no vosso casamento. Como teria sido, como teríamos sido juntos. Tens que tirar isso do teu sistema. Só assim vais ser feliz. Entrega-te Rodrigo, responde às tuas perguntas, sente-me, eu estou aqui para ti. vim para salvar o teu casamento. Aceita.
Rodrigo sente que está a ser posto à prova por uma qualquer entidade estranha a si, sente-se desfalecer ante a imagem daquela mulher que sempre desejou. Mas ali, adormecida no quarto, está Helena...

Um Estranho Caso de Amor - O início

1. Exposição
Ele corre pelas ruas da cidade. Normalmente estas suas corridas dão-lhe sempre uma sensação de desprendimento, de liberdade, mas desta vez sente-se desprotegido, exposto, envergonhado. Os pés doem-lhe, sente as rugosidades do asfalto e o impacto do chão anormalmente intenso nos calcanhares. Repara que está descalço. Quer parar mas o seu corpo não lhe obedece. Sente o vento em todo o corpo e uma estranha mas familiar sensação de leveza que apenas vive quando deambula sem roupas pelo seu apartamento de homem solteiro e bem sucedido...
"Estou nu, completamente nu!!!" A angustia e uma enorme vergonha tomam conta dele. Leva as mão ao baixo ventre e tapa o orgulho da sua virilidade. Nunca tinha tido vergonha do seu corpo, aliás orgulhava-se dele, mas agora esse corpo estava deformado, diminuido, mirrado. Queria esconder-se num beco qualquer mas continuava a correr, descontrolado. As suas pernas estavam decididas a causar-lhe o máximo de vexame possível e dirigem-no pelas ruas mais movimentadas, através de centros comerciais, por entre as filas de carros parados nas filas de trânsito. Ninguém parece notá-lo mas isso não o alivia. Sente o peso da vergonha de uma forma que nunca sentiu antes. O pânico toma conta dele quando se apercebe do caminho pelo qual as suas pernas o transportam.
Está a aproximar-se do edifício onde trabalha. Entra no enorme hall e, subitamente, para. A respiração ofegante, o corpo suado, as pernas dormentes. As pernas finalmente fizeram-lhe a vontade mas no pior sítio do mundo. Grita um grito mudo que ninguém à sua volta ouve. Estão todos parados a observá-lo e a rir. Ruidosamente uns, subtilmente outros. Sente o escárnio daquelas pessoas a cravar-lhe o corpo como se de murros se tratassem. A sua mente grita, agita-se, luta para voltar a correr para trás, e voltar à indiferença das ruas mas as sua pernas caminham agora lentamente.
Entra no elevador. Estranhos entram também, querem prolongar aquele divertimento inesperado num local onde nada de novo acontece. Ele vê o seu reflexo nas portas metálicas e frias do elevador. Quem é aquele homem? Magro, quase esquelético, cabelo baço e ralo, desdentado, pés e mãos desproporcionalmente grandes para aquele corpo, sem pelos exceptuando uma farta mini-cabeleira rodeando o seu pénis diminuto. A porta abre-se, entra na divisão onde trabalha. Todos os seus colegas festejam a sua vergonha. Há champanhe, confettis, música e... um palhaço acabadinho de chegar. Caminhou pelo longo corredor de secretárias e ouviu gritar o seu nome. Caminhava agora curvado, como se se arrastasse, os braços caídos, os joelhos dobrados. entrou no seu gabinete e sentou-se. Conseguia ver as pessoas a festejar através das paredes transparentes e a chamar por ele. O telefone toca.
Rodrigo acorda suado, os músculos contraídos enquanto procura, de olhos ainda fechados, o despertador que lhe berra aos ouvidos. Senta-se na cama e sente-se estranhamente cansado, as pernas a latejar. Levanta-se e enfia-se no duche.