Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor: um desconhecido.

Branco. Tudo era branco. Sentia-se a flutuar, ondulante, corpo à deriva, sozinho num universo vazio de som mas pleno de luz. A luz que lhe penetrava pelas pálpebras e feria os olhos que se tentavam esconder. Subitamente, um som. Rítmico, cavo, tamboreante. Vinha de dentro de si e apercebeu-se que era o seu coração. Era o único som nítido que ouvia, o resto chegava-lhe difuso e longínquo, como se estivesse debaixo de água. Abriu os olhos e viu como se observasse o mundo através de um vidro por onde a água escorre profusamente.
"Tensão normal, pulso normal, glicémia normal, traçado cardíaco normal... tudo normal!! Juro que não sei o que se passa com ele. Mas não reage a estímulos, nem sequer dolorosos... juro que nunca vi nada assim..." ouviu uma voz masculina, num tom entre o surpreendido e o confuso. Depois uma voz que conhecia tão bem. "Rodrigo... meu amor. Acorda, precisamos de ti agora. Eu e o nosso bebé...". A voz de Helena pareceu despertar o resto do corpo. Sentia as mãos dela quentes a agarrar na sua, sentiu as suas lágrimas a cair no seu peito mas estas queimavam-lhe como gotas de cera de uma vela a arder. Conseguia ainda sentir o calor de Diana na sua pélvis, a dor fina das suas unhas cravadas nas suas costas, o seu beijo molhado no seu peito. Sentiu finalmente a superfície dura e fria da maca nas suas costas e acordou.
"Helena..." disse com voz débil e sussurrante, enquanto lhe apertava a mão. "O que se está a passar?". "Rodrigo? Estás bem? Ele está a acordar!! Não te preocupes amor, estamos a ir para o hospital...". Ao ouvir a palavra hospital, Rodrigo levantou-se furiosamente. Arrancou os eléctrodos do peito, a manga da tensão, a agulha do braço levando a sangrar profusamente. Estava cego de fúria "HOSPITAL??? HOSPITAL? MAS QUE MERDA É ESTA, ACHAS QUE ESTOU LOUCO?". Helena tremeu de medo, ali encarcerada numa pequena célula de ambulância com um homem tresloucado, sujo de sangue, olhar raiado de raiva, um homem que ela nunca vira antes... o paramédico actuou rapidamente, dando-lhe uma injecção de um sedativo que Rodrigo nem sentiu.
Acordou nas Urgências, sobrelotadas como sempre, no meio do frenesim dos enfermeiros e médicos, num local onde as luzes estão sempre ligadas, num local que nunca dorme. "Onde estou Helena, o que se passou?" perguntou docemente. Helena estremeceu e afastou-se ligeiramente "Não te lembras de nada?"
"Lembro-me de ir tomar um duche e depois... um clarão... e depois... nada. Não me lembro de nada."
Foram atendidos por um médico com uma aparência demasiado nova e assustado para ser médico. Em cinco minutos diagnosticou uma crise ansiosa aguda, provavelmente relacionada com algum factor de stress. "Aconteceu alguma coisa de diferente, alguma novidade, problemas no trabalho?"
"Bem... Dr., eu descobri que estou grávida e contei-lho. Apenas isso."
Está explicado!! Não tem problema, é uma situação perfeitamente normal. Auto-limitada. Pode ir!"
"Mas... e aquele acesso de fúria, na ambulância?"
"Minha senhora.... nestas alturas o nosso sub-consciente manifesta-se e ninguém sabe de que maneiras. As melhoras." Virou costas e desapareceu na multidão de gente, confundindo-se com as outras batas brancas que por ali andavam, sem aparente sentido ou objectivo. Ajudou Rodrigo a levantar-se. Chamou um táxi e dirigiram-se para casa. Rodrigo fixou o seu olhar num ponto algures nos limites da cidade que passava indiferente por eles. Ela apertou-lhe a mão e chamou baixinho por ele. Em resposta obteve... nada.
(Desculpem a demora mas a vida não é só blogonovelas, um gajo também tem que trabalhar!)

6 comentários:

Ana C. disse...

Brilhante!

Miguel C. disse...

Obrigado Ana...

Sílvia disse...

Bom muito bom... Vá, quero mais xD

bjo**

Banita disse...

Gosto sempre quando "mete" hospitais e cheiro a éter. :)
Já reparaste, Miguel, que a palavra eternamente é na verdade. éter/na/mente?

Miguel C. disse...

Eh pá Rita... éter na mente deve dar uma moca do caraças!!!
Se calhar descobriste a razão do tom ligeiramente esquizofrénico do meu blog...

L. disse...

Aii.. uma pessoa vem para a terra e tem logos tantos desenvolvimentos :D

Venha o próximo!