Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eu quero matar a minha mulher: agora sim, o fim.

Prudêncio chegou ao hospital já cadáver. O comentário mais profundo que fizeram à sua chegada foi "Porra que cheira a porco queimado!". Nem na morte aquele homem parecia inspirar particular respeito ou admiração. Alzira estava zangada. "Maldito homem, nem morto me dá descanso... agora tenho que andar a caminho do hospital por causa dele. E o dinheiro que vai custar o enterro..." Ainda sugeriu ao médico que queimassem o corpo mirrado de Prudêncio juntamente com os lixos do hospital... sem sorte.
O enterro foi simples e solitário. A imagem fiel da vida do homem. Alzira, o padre e dois homens que costumavam trocar dois dedos de conversa com Prudêncio, que lá estiveram por compaixão do que por amizade. A alocução do padre acerca do morto foi interrompida com um "Despache lá isso. " disparado secamente por Alzira, que nem esperou que o caixão descesse à terra para se retira. Voltou para casa com um sorriso nos lábios "Enfim, livre! Livre daquele traste inútil, de um homem sem força da braguilha, um desgraçado que só me trouxe trabalho." Entrou em casa triunfante e inspirou profundamente. Abriu um sorriso (coisa rara!) que revelou a boca negra e com apenas três ou quatro dentes esburacados e amarelos. Sentiu o cheiro da cozinha queimada e amaldiçoou Prudêncio uma vez mais. Caminhou pesadamente pelo corredor cujas tábuas velhas e bolorentas cediam e rangiam a cada passo, observando os seus cacarecos de cristal e porcelana, os seus naperons poeirentos, as imagens de santos e quadros com paisagens ou naturezas mortas pendurados aleatoriamente pelas paredes e chegou ao quarto. Deitou-se exactamente a meio da cama, como se reclamasse finalmente para si o espaço partilhado durante tantos anos, e adormeceu.
Acordou com o sol da manhã a bater-lhe nos olhos e berrou: "PRUDÊNCIO! PRUDÊNCIO? Raio do hom..." a lembrança da morte do marido bateu-lhe inesperadamente forte demais. Levantou-se e foi preparar o pequeno-almoço. Na cozinha semi-destruída preparou um café e um naco de pão torrado. A cada movimento se lembrava dele. Bateu com a palma da mão na testa "Esta agora... acorda mulher!" Saiu de casa e logo os vizinhos se apressaram a apresentar as suas condolências que se revelaram bem mais dolorosas do que ela imaginara. Passou um dia triste e cinzento. Prudêncio fazia-lhe falta. Não podia dizer que o amava. Nunca o amara, mas foram anos de convivência e partilha e ele nunca a tratara mal. Prudêncio era o seu animal de estimação, o seu cãozinho irrequieto a quem pontapeava e dava com o jornal, mas que nunca lhe rosnava e voltava sempre para ela. Além de que, sempre lhe dava algum prazer... não que fosse um animal sexual mas ela, embora não o confessasse, nunca tinha deixado de ter um orgasmo. Fraquitos é certo, mas mesmo assim vinha-se sempre! Ao regressar a casa sentiu-se sozinha. Aquele velho T1 parecia-lhe agora enorme e os seus passos pareciam agora ecoar por toda a casa. Ao jantar, deixou praticamente toda a comida no prato. Não tinha apetite e cozinhar nunca tinha sido o seu forte. Prudêncio tratava disso por ela e, diga-se que os pratos vinham sempre bem apaladados.
Sentou-se ao sofá a ver a novela. Os actores principais beijavam-se loucamente enquanto se despiam e, atabalhoadamente, se dirigiam para o quarto. "Ai, Prudêncio, Prudêncio. Sempre me fazes alguma falta afinal..." suspirou. A imagem de Prudêncio assaltou-lhe a mente. Aquela postura sempre submissa e com medo de levar um tabefe, as mão entrelaçadas junto ao peito, os olhinhos de cachorro medroso atrás daqueles óculos que só aumentavam a pena, os dentinhos de ratinho a espreitarem por cima dos lábios fininhos despertaram-lhe saudade. E um arrepio no fundo das costas. Alzira sabia o que isso significava mas Prudêncio não estava ali para lhe apagar o fogo "nos entrefolhos", como ela dizia. Fechou os olhos enquanto pensava nele e, acto contínuo, afundou a sua grande manápula por entre a gordura das coxas que sempre lhe faziam lembrar aquele boneco que tinha recebido de uma oficina, há uns anos atrás. Afastou as pernas e colocou a mão por cima da "boca do mundo". Estava quente e molhada. Estremeceu ao enfiar dois dedos dentro de si mesma mas logo recuou. "Ai meu Deus! Que grande pecado... perdoai-me Senhor", benzeu-se mas o toque daquela mão húmida a cheirar a luxúria carnal só lhe aumentou a vontade. Voltou a colocar a mão entre as coxas que ondulavam ao ritmo do movimento frenético da mão. Esfregava vigorosamente e enfiava os dedos no seu buraco. Primeiro um, gemeu. Depois outro. O terceiro -la abafar um pequeno grito. "Só mais um..." e os quatro dedos penetravam nas suas mais recônditas entranhas. "Prudêncio... quem me dera que aqui estivesses... sempre me preenchias mais que isto, se bem que nunca to disse... ai, Prudêncio..." ofegante e suada, decidiu que as suas mãos não eram suficientes para lhe satisfazer o desejo. Esfregando-se enquanto andava pela casa, procurava algo que lhe enchesse as medidas do prazer. Abriu gavetas e armários, no quarto, na sala, na casa de banho. Percebeu o que precisava assim que o viu: uma velha garrafa térmica que jazia esquecida no fundo de um armário da cozinha. Aquela tampa em forma de bola-cortada-a-meio tinha um aspecto sugestivo. Não pode deixar de sorrir ao constatar que aquela garrafa era a cópia exacta da picha circuncidada de Prudêncio, muito embora em ponto grande. "Tanto melhor!" pensava enquanto de deitava no sofá com as pernas o mais afastadas que era capaz. O frio da garrafa ao penetrar naquele túnel quente arrepiou-a mas logo passou. Começou devagar, a medo, nunca tinha feito aquilo e temia magoar-se mas as dimensões e o laxismo dos seus músculos pélvicos logo lhe exigiram mais vigor. Acelerou os movimentos e esforçou-se por se lembrar da cara de Prudêncio quando fodiam como cães. Lembrou-se e urrou de prazer. Mais rápido e ela sentia o desfecho a aproximar-se com a imagem de Prudêncio a aumentar de nitidez na sua imaginação. Os olhos pequenos fechados vigorosamente, pequenas gotas de suor a escorrerem pela careca e os lábio unidos com os dentes a morderem o inferior. Alzira combinou os movimentos de vai-vem da garrafa com movimentos circulares e capitulou! Gritou de prazer como nunca o tinha feito e veio-se. O seu corpo contorceu-se, tremeu e caiu do sofá. A luz apagou-se.
Alzira acordou num local desconhecido. Olhou em volta e não viu nada mais que montanhas despidas de verde. Estava numa escarpa, de um lado o vazio e do outro a entrada para uma caverna. À porta da caverna reconheceu um vulto magro e curvado sobre si mesmo. Poderia ser ele? Avançou em direcção à caverna, lentamente, como se receasse o seu destino. O vulto saiu das sombras. "Prudêncio?"
"Sim Alzira. Sou eu."
"Onde estamos? Que cheiro é este? Prudêncio... perdoa-me... senti a tua falta."
"Eu sei Alzirinha. Este cheiro de que falas é enxofre e esta é a nossa nova casa. Vamos entrar?"
"Sim Prudêncio. Vamos entrar!"
"Isto é uma descida longa e íngreme... não te assustes."
Avançaram juntos em direcção às trevas.
Uns dias mais tarde uma vizinha foi ver da Alzira. Não era normal tantos dias sem sair, por muito que estivesse de luto pelo marido. Encontrou-a morta no chão, pernas escancaradas com uma garrafa térmica enfiada nas partes baixas. O falatório não tardou e deu conversas durante algumas semanas. O tempo para a autópsia revelar a causa de morte: ruptura de aneurisma cerebral com hemorragia maciça após esforço e tensão muscular intensa. Morte imediata.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher - Fim (ou nem por isso?)

Prudêncio passou a tarde inteira a pesquisar formas de o inodoro monóxido de carbono penetrar nas vias respiratórias da vaca que dormia no quarto, ainda amarelada pelo veneno fora de prazo. Desse por onde desse, aquele animal teria que sair da sua vida. Tudo à sua volta desaparecera para dar lugar apenas ao propósito de matá-la. Nada mais importava. Vê-la morta, de língua pendente, pupilas dilatadas. Ver-se livre da voz, da pele pegajosa, do cheiro húmido daquele traste era a motivação para continuar a respirar.
Não falharia. Observou o esquentador, comprado há pouco tempo e por isso, pouco atreito a avarias mortais. Provocar-lhe uma avaria certamente deixaria rasto. Teria que ser de outra forma. Abriu e fechou os bicos do velho fogão, a porta do forno e enquanto ligava o gás de um dos bicos foi levantado do chão pela voz que o enojava até às entranhas.
- A minha canja seu imprestável? É preciso ir aí aviar-te seu paneleiro?
Prudêncio respondeu com a voz mais serena que conseguiu:
- A canja está a cozinhar!!! – Mal sabes tu a canja que te vou fazer minha vaca, ruminou de si para si.
Enquanto pensava que seria a última vez que aquela megera gritaria ordens na sua direcção sentiu um forte murro na nuca. Alzira levantara-se desconfiada e ao verificar que não havia canja ao lume praticamente espumava de raiva.
- Seu inútil careca de merda que nem uma porra de uma água com frango e arroz metes no lume! És pior que uma galinha depenada. A minha canja?!!!!!! Queres-me matar?!!!! Não vês que estou desarranjada da tripa? - Um forte ruído vindo do interior da gigantesca pança da mulher deu o toque final ao seu discurso. Ela continuava pontapeá-lo, a esbofeteá-lo, como se isso de alguma forma a pusesse melhor.
- Ai pára, pára. Falta-me o frango. Não queres canja sem frango, pois não? Deixa-me sair que o vou comprar! Ai! A voz de Prudêncio era de puro desespero.
As lágrimas de humilhação e dor caíam sobre o rosto oleoso de Prudêncio. Alzira olhava-o implacável:
- Se demoras mais de 15 minutos a ires ao talho do Vítor e voltares, vou-te buscar e vens de rastos.
Prudêncio virou costas e fugiu porta fora. As lágrimas mal o deixavam enxergar o caminho à sua frente. Sentou-se no banco de jardim e chorou de puro ódio. O tempo passou e à medida que se ia acalmando um pânico crescente bem no fundo do pensamento saltou para a frente dos seus olhos. Com a confusão, deixara o bico do gás ligado. Alzira certamente nem notaria o gás a espalhar-se pelo apartamento. Meu Deus, o que é que fora fazer? Não podia ser assim. Não era o que tinha programado. A canja, ela tinha que comer a canja. A culpa seria dele, o que faria com tamanha culpa? O que faria sem Alzira?
Levantou-se do banco de jardim e cego de pânico correu até ao velho prédio onde sempre morara com aquela que era, apesar de tudo, a sua mulher. Tinha que a salvar.
Enquanto subia as escadas de madeira gritava:
- Alzira eu estou a ir, não te enerves comigo! Eu não fiz por mal!
Abriu a porta do apartamento mal iluminado e sem pensar duas vezes ligou o interruptor da luz. A última coisa que ouviu foi um enorme estrondo que o ensurdeceu e uma luz tão intensa que o cegou para sempre.
Enquanto era consumido pelas chamas que engoliam a casa juntamente com o seu pequeno corpo. Conseguiu ainda ouvir as vozes dos bombeiros e sobre as vozes na rua, uma que se impunha sobre todas as outras:
- Aquele traste pegou fogo à casa.
Foram estas as últimas palavras que ouviu antes de partir em direcção à luz reconfortante e serena.
Uma frase saiu ainda da sua boca retorcida pelas chamas:
- Desculpa Alzira, não fiz por mal...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher: 605 Forte

Prudêncio abafou uma gargalhada que pareceu ter vida própria quando lhe saiu disparada pela boca. Com uma destreza manual e de raciocínio que lhe pareceu estranha, agarrou no saco de veneno para ratos que se lhe apresentara em tão boa altura e despejou duas colheres se sopa do pó mortal para dentro da chávena de café de Alzira. "Para os ratos era preciso uma colherinha de café, por isso estas devem ser suficientes...". O café borbulhou por instantes e Prudêncio adicionou bastante açúcar. "Não querias o café doce?? Vai bem docinho....". Voltou-se para Alzira sem conseguir disfarçar o sorriso que lhe permanecia indelével nos lábios. "Lá estás tu com essa cara de parvo... já te conheço, pá! Se descubro que andas a tramar alguma... levas tantas no focinho que não vais ter vontade de rir por muito tempo!". Calmamente, sem temor Prudêncio deu a chávena de café a Alzira que a devorou em segundos. O silêncio da cozinha deixava ouvir o barulho que Alzira fazia a deglutir o café. Um som demasiado semelhante ao que os esgotos da casa de banho faziam quando despejava a banheira depois do banho. Os olhos brilhavam ao ver o veneno desaparecer bem fundo nas tripas da velha matrafona maljeitosa!
"Finalmente um belo café, homem!! Não te imaginava tão jeitoso mas isso só prova que só aprendes à porrada... enfim, a partir de agora fazes sempre o café assim. Isto se não queres que to enfie nas trombas ainda quente." Prudêncio via os lábios de Alzira, emoldurados pelo bigode lustroso pelo sebo de muito bacon, a mexer mas não ouvia nada. A sua mente imaginava já Alzira a agarrar-se ao pescoço, os olhos a querer saltar das órbitas, a face a ficar roxa e depois preta, a rolar no chão respirando ruidosamente e a espumar da boca, a borrar-se e a mijar-se toda, a suplicar por ajuda tentando agarrando-o com os braços prostrados em desespero enquanto ele gritava "Morre porca, MORRE!! Ah, Ah, Ah!!!". Acordou com um berro de Alzira e só depois pensou que nunca tinha visto ninguém morrer daquela forma. Andava a ver muitos filmes. Esperou e... nada! Alzira mantinha-se firme como sempre. Devorou todo o bacon e ainda pediu mais café (que levou o mesmo tratamento do anterior) e não aconteceu nada. Prudêncio amaldiçoou a sua sorte. "Será possível que esta mulher não morre?!?! Mas que raios! Bem dizem que vaso ruim não quebra...", os seus pensamentos foram interrompidos quando Alzira se levantou, derrubando a mesa e correu para a casa de banho. Prudêncio conseguia ouvi-la a vomitar, uma vez após outra, e depois sentiu o cheiro fétido da merda líquida que lhe jorrava em jacto do olho do cu peludo. Prudêncio nem sentia a aura de esgoto que agora empestava a casa. "Não era isto que imaginava mas se vais esvair-te em merda até morreres, tanto melhor!! Que sofras o máximo possível e, afinal, sempre foste uma mulher de merda e morrerás numa poça de merda." Alzira saiu do WC e parecia menos mulher. Pálida, os olhos encovados, vergada e encostada ás paredes. Parecia até mais magra. "Que raio de café de merda fizeste, meu cabrão??! O bacon devia estar estragado... como sempre não posso confiar em ti, minha amostra de homem, filho de uma puta sarnenta que não te conseguiu abortar... é isso que tu és, um desmancho mal feito!" Dirigiu-se para o quarto apoiando-se nas paredes e nos móveis velhos e empoeirados do corredor. Derrubou todas as figuras de bonequinhas e passarinhos que tinha em cima desses móveis, juntamente com os naperons que lhes serviam de base, enquanto grunhia mais alguns insultos a Prudêncio. Era o que fazia sempre.
Aquele dia passou, Alzira já nem se dava ao trabalho de ir à casinha cagar ou vomitar. Sacou do velho penico de porcelana que jazia esquecido debaixo da cama e fazia ali mesmo, berrando depois para Prudêncio o despejar. Ele começava já a perder a paciência e rogava pragas para tentar acelerar o processo. Mas Alzira não morreu. Ao outro dia acordou sã que nem um pêro e, antes de abrir a boca, pregou-lhe um estalo tão grande que Prudêncio cuspiu um dente podre que teimava em permanecer no seu buraco. Ele estranhou aquela ausência, passava o tempo a passear a língua pelo local onde antes estava o dente preto e esburacado que se enchia de comida a cada refeição. Esperou que Alzira saísse da cozinha para a sua rotina de higiene que consistia em lavar a face, os sovacos e "por baixo". "Todos os dias que eu sou mulher asseada." gostava de pregar nas conversas de mulheres. Abriu o armário e pegou no saquinho prateado. Cheirou, parecia-lhe um pouco menos intenso e procurou a data de validade: 01/1999!!! "Dez anos?!?! Isto está aqui há 10 anos?? Estúpido, estúpido, estúpido!! A ânsia de a matar é tão grande que nem vês os meios falíveis que utilizas. Pensa homem, pensa... sabes mais do que ela te quer fazer acreditar..." Mas, por outro lado, não deixou de se rir ao lembrar-se da valente caganeira que tinha causado a Alzira. Riu-se por um pouco e descansou. A próxima vez seria bem planeada. Só tinha de procurar uma forma mais eficaz de lhe limpar o sebo. Sentou-se a ler o jornal do dia e, num canto da primeira página, uma pequena notícia chamou-lhe a atenção: "Casal de idosos encontrado morto em sua casa". Procurou rapidamente a página mencionada e leu o resto da pequena notícia: "Um casal de idosos foi encontrado morto esta manhã em sua casa. Estavam os dois na cama, sem sinais de assalto ou violência. Os bombeiros encontraram o esquentador ligado mas sem ventilação adequada. Pensa-se que a causa de morte tenha sido intoxicação por monóxido de carbono. É frequente uma vez que esta gás não tem cheiro e é invisível. As vítimas não se apercebem que estão a ser envenenadas e adormecem nos braços da morte.". Prudêncio fechou vagarosamente o jornal. Os olhos estavam postos no infinito e os seu lábios afilados por um longo sorriso maquiavélico.
Desculpem a demora OK?? Ana... deixo a batata a escaldar nas tuas delicadas mãozinhas de escritora!!! Beijinhos...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher - À segunda é de vez

Alzira sentara-se na mesa da cozinha e fitava-o enquanto ele lhe fritava o bacon para o pequeno-almoço. Havia qualquer coisa diferente nele, ela só não sabia bem o quê.
Uma espécie de riso idiota na sua expressão que não estava lá no dia anterior. Prudêncio era submisso na cama, atendia-a, obedecia-lhe sem grande ardor, mas o suficiente para lhe tirar os calores. Agora o que se passara essa manhã era novidade. Ser ele a praticar um bocadinho de dor durante o acto sexual? Geralmente era ela quem lhe batia. Agora o contrário? Decidiu romper o silêncio do bacon a frigir ao lume:
- Que cara de estúpido é essa? O que é que te deu hoje para me enfiares a almofada nas ventas?
Prudêncio treme, pensa rápido:
- julguei que gostasses…
- Gostar que me vomites em cima? Tu estás a mangar comigo? Raça do homem, que besta que me saíste.
Prudêncio enche o prato dela de bacon gorduroso e reza interiormente para que as artérias dela expludam de uma vez por todas.
Ela enfia uma tira escaldante para o interior da boa cavernosa enquanto o fita com olhar de lince.
- Tu estás-me a esconder alguma coisa? É que se eu descubro que estás com ideias…
O bigode dela parecia agora alagado em essência de bacon. Ele escondeu mais um arrepio de repulsa, enquanto se sentava com a sua caneca de café, olhando em volta. Buscando ideias luminosas no interior da cozinha. Mas logo foi despertado por um estalo que quase o virou ao contrário.
- Olha para mim!!!!
- Porque é que tens que ser sempre tão violenta? Começo a ficar farto disto! Tu sabes que ainda olham para mim na rua. Nada me impede de te trocar por outra!
O riso dela propagou-se por cada divisão daquela casa húmida. As gargalhadas eram guturais, deixando ver a comida já mastigada no interior da sua boca.
- Quem é que olha para ti diz lá. Uma merda de um homem como tu. O que é que tu tens que faça virar cabeças na rua? Uma verga murcha e seca, um monte de ossos sem préstimo, duas pernas de alfinete que nem para marcarem bainhas servem de tão finas. Enxerga-te e traz-me mas é café, que só consigo olhar para ti depois de duas chávenas dessa mistela que fizeste!

Prudêncio arrasta-se pela cozinha e de açucareiro vazio na mão abre a despensa para tirar o açúcar.
- Quero essa zurrapa bem doce!
Ele lança a mão ao pacote de açúcar, desta vez rezando interiormente para que o diabetes a leve com gangrena, ou coisa pior, quando bate os olhos no veneno para ratos, pousado na prateleira inferior. Mais uma vez é trespassado por um flash luminoso. E sabe que tem que agir depressa, muito depressa. Um sorriso pérfido molda-lhe os lábios finos e molhados enquanto escuta a mastigação ruidosa de Alzira...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher: touro bravo

Prudêncio usava de todas as suas forças na tentativa de sufocar Alzira. Sentia-se como um estranho na sua própria pele. Aquela decisão rápida, quase impulsiva, ao agarrar a almofada e colocá-la na carantonha disforme de Alzira tinha-o surpreendido. Contudo, uma estranha satisfação percorria-lhe os músculos mirrados mas agora retesados. A sua face sorria, o que contrastava com o suor que lhe escorria pela face, com os músculos da face contraídos, a careca parecia ter aumentado com os sulcos que agora lhe marcavam a testa. Os lábios finos esticados mas afastados um do outro desvendavam-lhe os dentes que raramente mostrava num sorriso, desalinhados, amarelos com uma película seborreica que se apoiava na gengiva preta. Mas, aquela face deixava adivinhar uma realização pessoal, o cumprir de um sonho.

Enquanto apertava a almofada contra a cara da sua esposa, Prudêncio pensava "Vais morrer... vou matar-te... odeio-te! Onde estão os gritos agora? Agride-me agora vaca gorda!!! Julgavas que eu não seria capaz? Porca, monte de banha malcheiroso, balde de merda". Acima de tudo, Prudêncio estava orgulhoso dele próprio. Julgava nunca ser capaz de concretizar uma acção na qual pensava há muito tempo: o assassinato de Alzira. Agora que finalmente tinha ganho a coragem necessária para o fazer sentia-se, após tantos anos, um Homem. Ao montar Alzira daquela forma, como de de um touro se tratasse, agarrando-se com a força das pernas e com a almofada sufocando-a, enquanto ela se debatia para se libertar algo luminoso aconteceu: uma erecção! Sentia-se poderoso e isso excitava-o.
De repente, a sua expressão mudou. As mãos largas, rugosas e excessivamente masculinas de Alzira afagavam-lhe a face exterior das coxas. Conseguia ouvi-la, num tom abafado pelas penas da almofada dizendo "Sim, assim sim homem... queres comer-me à bruta?? Já estou toda molhadinha pelas pernas abaixo..." Ao aperceber-se do toque húmido nas suas pernas não foi capaz de conter-se. Vomitou o jantar em cima dela! Alzira urrou de ódio ao aperceber-se do que a estava a molhar. O touro enfureceu-se e Prudêncio desesperou. Alzira fazia uso de toda a sua força bruta para se libertar. Prudêncio usava os seus 60 kg de peso contra a força bruta de uma mulher de 100kg verdadeiramente enfurecida. Inevitavelmente, o touro venceu. Prudêncio embateu violentamente contra a parede do quarto, sentiu as pequenas saliências pontiagudas do cimento mal acabado cravarem-se na pele. Alzira levantou-se exclamando "MAS QUE MERDA É ESTA??!?!?!". Prudêncio encolheu-se antecipando um pontapé em cheio na cara mas Alzira retirou-se arrastando-se para trocar de camisa.
Prudêncio paralisou por um pouco. Depois sorriu, maliciosamente. Concluíra que tinha a coragem para matar o touro, era só uma questão de tempo até encontrar o meio mais eficaz para o fazer.

domingo, 19 de abril de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher - Tentativa

Vagueou pela casa a noite inteira a pensar na melhor forma de terminar com o seu sofrimento. Sabia que não ia aguentar nem mais um mês a viver debaixo do mesmo tecto do que aquele ser abjecto. Quando regressou finalmente à cama deles, já vencido pelo cansaço e sem ideias geniais, sentiu o braço dela sobre o seu peito. Já não ressonava. Não demorou muito para que o braço começasse a descer pelo seu corpo. Ele sabia exactamente onde aquela incursão levaria. Tentou afastar-se dela o mais que conseguiu, mas a manápula segurou-o, bem firme.
- Anda cá homem.
O pénis de Prudêncio encolheu em directa proporção com o seu asco. O hálito a tártaro, o buço que parecia esvoaçar, o cabelo oleoso com um capacete de rolos. Não conseguia sequer pensar na mulher que todo o seu corpo começava uma dança no sentido do vómito. Mas a voz dela não o deixou fugir:
- Não vês que estou carecida disso? Anda cá, do que é que estás à espera? És feito de quê afinal? De merda? Anda, monta-me!
Cada palavra dela era uma chapada na sua masculinidade e em vez de uma explosão de desejo, Prudêncio tremia até ao mais íntimo do seu ser.
- Estou cansado. Agora não…
A mão dela acertou-lhe na face corada e podia jurar que dois dentes tinham saído projectados.
- Vem cá. Já te disse que preciso! Ou te pões teso, ou mato-te de pancada e juro que não te deixo um dente nessa cremalheira seu trapo velho, sem préstimo.
Prudêncio trémulo comunicou com o seu pénis, numa linguagem muito deles. Implorou-lhe que se arrebitasse, que desse sinais de vida, que saísse do desmaio, para lhe salvar a vida mais uma vez.
Alzira puxou-o para cima dela como um animal no cio. Ele olhou os rolos que lhe cobriam a cabeça e tentou imaginar uma mulher loira, magra, bem cheirosa. Mas em vão, tudo nele murchava como uma num dia de vento. Até que olhou a almofada atirada para o lado e pensou de uma forma tão veloz que se assustou a ele próprio. Só isso poderia salvá-lo. Seria tudo ou nada. Agora, ou nunca e com as duas mãos a tremerem, agarrou na almofada e colocou-a com todas as forças sobre aquela carantonha diabólica. Pressionou, pressionou, pressionou com toda a raiva, asco, humilhação. Ele tinha que conseguir sufocá-la…

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher: resolução

Prudêncio era um homem de meia-idade, baixo, magro. Usava óculos de massa preta com lentes grossas e escurecidas. Calvo, tentava esconder a sua alopécia puxando o pouco cabelo que lhe restava, lateralmente, para cima da cabeça ficando com o risco junto ao lóbulo da orelha e apenas uns fios de cabelo sobre a careca luzidia. Os dentes desalinhados faziam com que soltasse grossos perdigotos de saliva e acumulava saliva seca e branca no canto dos lábios. Sempre fora tímido e reservado. A auto-estima era baixa e muito afectada por anos de rejeição por parte das mulheres. O seu casamento com Alzira surgiu porque ele sempre achou que nunca seria capaz de encantar melhor mulher.
Mas Prudêncio era bom homem. Apesar de maltratado por Alzira durante anos, sempre lhe perdoara. Afinal ela fazia-o mais para descarregar as suas frustrações. Afinal, também Alzira não devia nada à beleza e Prudêncio sentia-se na obrigação conjugal de suportar essas provações. Nunca tiveram filhos. Apesar de o médico ter afirmado que Alzira era estéril, ela dizia a toda a gente que Prudêncio "estava seco" e que não cumpria com as suas obrigações na cama. Que estava sempre "murcho" e que ela precisava de "mais homem" e que só não ia embora porque Prudêncio "não seria nada sem ela" sendo ela a vítima. Sendo ele um homem já de si tímido, ainda mais se fechava quando era gozado no café lá da rua. Continuava a lá ir porque era menos doloroso o gozo dos amigos do que as queixas de Alzira. Mas nunca respondeu a provocações aprendendo a tornar-se quase invisível. Só não o conseguia porque era frequente Alzira entrar no café aos berros, na sua voz esganiçada e rouca, que ele era um inútil e que fosse já para casa.
Ao fim de quase três décadas de cenas semelhantes a estas no café, no mercado, na rua, no médico, e as constantes verborreias caseiras de Alzira, Prudêncio perdeu a paciência... numa noite a juntar às muitas que já passara em branco, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Pegou na maior faca que encontrou e regressou ao quarto. De pé, ao lado de Alzira, elevou a mão com que segurava a faca, olhou para o peito imenso e disforme daquela mulher. Ela roncava ruidosamente enquanto o seu peito pouco ou nada mexia, tal o peso que suportava. Um fio de baba pendia do canto da boca e molhava o ombro. Prudêncio sentiu um sentimento que há anos o atormentava sempre que via a sua mulher a dormir e, finalmente foi capaz de o definir: náusea. O seu coração batia, as pernas adormeceram, o braço termia. Preparava-se para desferir o golpe quando Alzira mudou de posição. Assustou-se, as pernas abandonaram-no e caiu no chão. Levantou-se e voltou para a cozinha. Chamou-se cobarde um milhão de vezes e arrumou a faca na gaveta de origem. Sentou-se e soube que tinha de matar Alzira. Passou o resto da noite a congeminar um plano.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher

O ressonar dela despertou-o. Abriu a luz e fitou a mulher que dormia ao seu lado. Um fio de baba escorria pela boca fina e inexpressiva, emoldurada em baixo por um queixo quase inexistente e em cima por um buço negro e humedecido pelo suor.
Um arrepio de nojo percorreu-lhe o corpo todo, despertando-o para mais uma noite de insónia. Toda ela exalava um cheiro adocicado que o agoniava para além do que julgava ser possível . Como é que poderia tocar-lhe, beijá-la, possuí-la se a única coisa que sentia por ela era repulsa pura e simples. As pernas grossas quase sempre por depilar, a voz esganiçada que se dirigia a ele com insulto fácil. As mãos de unhas mal tratadas e grosseiras que o agrediam vezes sem conta tinham-no transportado para um estado de quase automatismo. Dizia o mínimo, fazia o máximo só para se esquivar às suas agressões.
Envergonhado, humilhado, rebaixado diariamente não tinha coragem para admitir perante os outros que era uma vítima da sua própria esposa. Seria certamente gozado, escarneceriam dele sem dó nem piedade.
Por isso cada noite que passava acordado ao lado daquele dejecto humano uma terrível certeza tomava conta dele. Uma certeza cada vez mais palpável, mais inevitável. A certeza de que a única forma de se salvar seria matando-a. Só precisava de pensar na melhor maneira de o fazer...