Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

sábado, 28 de março de 2009

Amantes

Ela olhou o corpo nu ao seu lado naquela cama que não era sua, coberta de lençóis de seda, aos quais sempre fora alérgica.
Olhou aquele corpo que aquecia o espaço que ocupava, interrogando-se porque é que continuava a procurá-lo, apesar de saber que o que quer que tinha com aquele homem, que evitava agora olhar com mais atenção, não poderia durar. Mas sempre que o olhava mais atentamente lembrava-se do motivo pelo qual regressava uma e outra vez àquele quarto de hotel, contra todas as expectativas que a sua razão lhe ditava, contra todas as regras morais que a sua consciência insistia em gritar-lhe.
Vestiu-se desajeitadamente e olhou-se ao espelho. O rosto pisado e coberto de pequenas manchas vermelhas não a deixava disfarçar a noite passada. A blusa excessivamente amarrotada, o cabelo despenteado, a pele maculada pelo cheiro daquele corpo que dormia. Nada permitia o esquecimento.
Num gesto furioso arremessou o pesado cinzeiro de vidro contra o espelho e gritou:
-Que cheguem as pragas dos homens que traí, subtraídas às pragas que lancei sobre todos os homens que me traíram!
O homem, sobressaltado, levantou-se e abraçou-a por trás, prendendo-lhe as mãos que tentavam juntar os pedaços de vidro espalhados pelo quarto.
-Tudo se vai resolver, tem calma, tudo se vai resolver. – Aquela voz lembrava-lhe mais um motivo pelo qual não conseguia afastar-se daquele homem que a abraçava como ninguém.
-Mas nada se irá resolver, não entendes? Se colar estes pedaços e voltar a olhar-me ao espelho, terei a minha imagem reconstruída, uma imagem recortada, retalhada, monstruosa. É assim que me vejo repetidamente, dia após dia, noite após noite, até sangrar de horror e de ódio por não conseguir deixar de te procurar.
-Eu nunca irei permitir que deixes de me procurar! Cabe-te a ti despedires-te de mim.
-A ti cabe-te despires-me e deixares-me voltar para casa, para o meu marido, tendo de me despir de novo para ele, apesar de nos meus lábios permanecer a parte molhada da tua boca.
-Cabe-te a ti não voltares a tocar-me. Se ousares tentar... – Ele olhava-a de forma desafiadora, com aquele olhar que lhe arrancava a razão.
-Ficarás sempre com a intensidade do meu corpo na tua superfície, é melhor não me desafiares, porque entre os teus dedos permanecerá para sempre o meu gosto, entre os teus prazeres os meus gritos surgirão como uma faca imprevisível. É aconselhável seres tu a deixar-me. – Ela olhava-o com uma certa loucura no verde dos seus olhos.
-Queres que te diga que me és indiferente, que represente um desdém assanhado e convicto, queres que finja que me repugnas?
-Não acreditaria. – Ela chorava agora dentro do abraço daquele homem, dentro daquele quarto de hotel. – Cabe-me a mim desentranhar-te de dentro do meu corpo que te pertence irremediavelmente.
-Não sei se o permitirei. Aviso-te que não te deixarei seguires a tua consciência.

Na rua gelada pelo inverno ela fez ecoar os seus passos apressados, era necessário chegar a casa antes de uma determinada hora, era necessário mentir mais uma vez, era necessário não quebrar a rotina. Uma mão gelada parecia apertar-lhe a garganta sem piedade. Apenas o som dos seus passos a mantinha alerta.
Uma estranha velha bordava um trapo à porta de uma casa que deveria ser a sua e fitava-a com desprezo. « Ela sabia » , pensou, toda a gente sabia.
O olhar da velha seguiu-a com desdém e ela soube que esse olhar jamais a largaria ao longo da sua vida.
Chegou finalmente ao seu apartamento, iluminado e arrumado, demasiadamente iluminado para a sua consciência escura.
Sentou-se no moderno sofá e esperou escutar a porta do prédio.
Escutou finalmente os passos na escada que conduziam ao andar superior, onde habitava aquele homem que deixara há momentos naquele quarto de hotel. Imaginou os sapatos gastos contra os degraus e estremeceu, definindo mentalmente o espaço do prédio que os unia.
Após uma pausa que lhe pareceu interminável, escutou o som da porta a fechar-se e imaginou o casaco a ser atirado sobre o sofá, tentando tocar com a memória aquela pele fria pelo inverno lá fora.
Deteve-se nas mãos que se libertariam da grossa camisola de lã, conseguindo senti-las na sua própria pele.
Profanou mentalmente a sua mente, espiando sem pudor os pensamentos que sabia ocuparem o espírito daquele homem.
Mentiu novamente a si própria, jurando que jamais se deixaria voltar a tocar por aquelas mãos que se ocupavam agora de outras coisas, mas continuava a senti-las no seu corpo, entregue às imagens lembradas.
O seu braço pendia suavemente daquele sofá, a sua mão desenhava os traços que desejava novamente junto a si.
Fechou os olhos culpados e chorou. Prendeu as mãos teimosas e cerrou os lábios molhados.
«Não voltaria a procurá-lo», decidiu.
A porta da sua própria casa bateu com brusquidão, ao contrário da porta do andar de cima, acordando-a daquele torpor quase chocante que a envolvia.
-Boa tarde querida. – A voz do marido fez com que um sorriso automático e inexpressivo tomasse conta do seu rosto.
-Boa tarde meu amor, senti tanto a tua falta. – Olhou os seus sapatos brilhantes e o seu fato engomado, disfarçando o vómito que chegou sem aviso.
Deixou-se abraçar por aqueles braços excessivamente rígidos, enquanto escutava os passos no andar de cima.
Deixou que ele a despisse, enquanto imaginava as roupas espalhadas no chão da casa sobre o seu tecto.
Deixou que o seu corpo fingisse a entrega desejada por aquele homem, ao qual prometera fidelidade eterna, enquanto fechava os olhos e imaginava outras mãos na sua pele.
No final chorou convulsivamente. O marido julgou que eram lágrimas de prazer e sorriu satisfeito.
Mas ela sabia que eram as lágrimas de alguém que descobrira naquele preciso instante que o homem que tinha no pensamento era o único motivo pelo qual não deixara ainda o marido.
Eram as mãos dele que tornavam suportável o toque do marido, era o cheiro do seu corpo que impedia que vomitasse ao cheirar o perfume do marido, eram as palavras dele que a faziam esquecer todas as frases bruscas daquele homem que arfava agora ao seu lado, era o prazer que ele lhe proporcionava que apagava a frustração que o marido deixava marcada na sua pele.
-Fazes-me sentir tão bem querida. – Aquela voz proveniente daqueles lábios que agora a beijavam fê-la estremecer de nojo.
-Tu também me fazes sentir muito bem. – Ela retribuía-lhe o beijo demasiado seco enquanto os seus olhos abertos fitavam o tecto que era o chão do andar de cima.

4 comentários:

Miguel C. disse...

Que amarras são estas que nos impedem de largar tudo e perseguir a nossa felicidade? Tenho alguma dificuldade em o entender...

MARIINHA disse...

Acho que as amarras resultam do receio de trocarem a vida a que estão habituados, cheia de rotinas mas conhecida, por uma outra vida que não sabem se vai dar certo e que desconhecem. O ser humano é um animal de hábitos, é difícil as roturas.Gostei deste texto Ana C.

Ana C. disse...

Miguel muitas vezes são as amarras do hábito, do preferir o fácil ao difíil. De preterir um desafio pela comodidade da rotina instituida. Mas também pode haver medo de construir uma felicidade tendo como base a infelicidade de uma outra pessoa.
O que sei é que há muita gente por aí contentada e não é só no casamento...

Ana C. disse...

Mariinha concordo com tudo o que disseste. Sabes que conheço muitas pessoas tão habituadas à infelicidade que não sabem lidar com um bom sentimento? Preferem a segurança de uma vida infeliz ao desconhecido de uma vida mais clara.