Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

terça-feira, 24 de março de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Decepção

Helena saiu do prédio com o olhar toldado pelas lágrimas. A decepção que crescia bem dentro de si era quase sufocante.
Quem era aquele homem que deixara para trás? Um homem outrora carinhoso, dedicado, sensível que não passava agora de um estranho.
Sabia que a vida deles estagnara um pouco, que já não se consumiam um ao outro como antigamente, que algures entre a vida doméstica e o dia a dia, o romantismo se havia perdido. Mas valia a pena lutar por eles, por aquilo que tinham. Helena não era uma desistente. Por isso não entendia este encolher de ombros de Rodrigo, esta frieza que lhe congelara o coração.
Já não a achava a mulher mais bonita do mundo, já não a ouvia com aquela atenção desmesurada, já não a fazia sentir-se especial. E ainda lhe vinha pedir contas do estado das coisas?
Sem forças para continuar a caminhar sentou-se na berma de um passeio e escondeu o rosto entre os braços. Talvez assim conseguisse pensar, raciocinar no meio daquele turbilhão que sentia. Só queria uma resposta, um qualquer entendimento que a resgatasse, pois afundava-se lentamente.
Sentiu uma mão no seu ombro e uma voz que já havia esquecido:
- Helena, és tu?
Helena limpou as lágrimas com as costas da mão. Sentia-se tremer, com a pressa de sair esquecera-se de vestir um casaco. A respiração dele provocava uma névoa à sua volta, mas Helena viu imediatamente António, reconheceria aquele homem no meio de uma multidão. O seu primeiro namorado.
- António?
António baixou-se ao nível dela e afastou-lhe o cabelo do rosto. Depois tirou o seu próprio casaco e colocou-o nos ombros de Helena.
- O que é que estás a fazer aqui? Moras perto? Posso-te ajudar?
- É tão típico meu. Encontrar o meu primeiro namorado nestas figuras. Em vez de te mostrar que estou bem e maravilhosa, olha para mim. Um farrapo.
António senta-se ao lado dela e ajeita-lhe o casaco, apertando-a contra si.
- Não digas isso, estás na mesma. Exactamente como na faculdade. Não mudaste nada.
Helena sorri, nem tenta evitar as lágrimas que insistem em cair.
- Acabei de descobrir que estou grávida e quando decido contar ao meu marido ele age como um perfeito desconhecido. Sabes quando tens a sensação que alguém te quer deixar e faz de tudo para que sejas tu a deixá-lo?
António anui com um sorriso triste.
- Estás esquecida de como é que as coisas entre nós terminaram? Conheceste o Rodrigo e deixaste-me a remendar os bocadinhos de mim sem sequer olhares para trás.
- E hoje apareces-me aqui, num dos piores dias da minha vida.
- Disseste ao Rodrigo que estavas grávida?
- Não, ele tratou-me como lixo. Eu já nem sei se quero ter este bebé, eu já não sei nada António, nada.
Helena encosta a cabeça a António e deixa que os braços dele a envolvam. Os dois ficam ali, sentados na berma do passeio, como dois velhos amigos que finalmente se reencontraram após um longo período longe um do outro. Helena deixa a voz de António ecoar na noite, enquanto ele lhe diz:
- Vai ficar tudo bem Lena,tudo bem...

2 comentários:

Miguel C. disse...

AH, AH,Ah!! Sabes que eu tinha imaginado este episódio com os mesmos aspectos: Helena reencontra um velho conhecido e está grávida!!!
Não o teria escrito doutra forma.

Carla disse...

Boa!
Não é um qualquer Rodrigo que dá cabo de uma Helena.