Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

sexta-feira, 27 de março de 2009

10 m2

"Aguarde aqui.". A sala era pequena e fria. Uma pequena mesa com revistas antigas. Dois cadeirões de veludo verdes. As paredes brancas, despidas, com manchas amareladas de humidades antigas e entranhadas. O lambrim de 1,20 m estava gasto, partido em alguns lugares revelando o cimento despido e bolorento. O rodapé revelava buracos irregulares na madeira corroída pelas térmitas, túneis de acesso ao submundo dos ratos e insectos.
Sentou-se a medo. Sentiu as molas do sofá quando se sentou e ouviu-as ranger, cedendo ao seu peso. Pegou numa revista e viu uma foto do Goucha ainda com bigode e com um aspecto sóbrio. Estava à espera de uma reunião importante com o Director da empresa onde trabalhava. Sentia um tremor constante no corpo que o obrigava a constantemente mudar de posição. Sacou do telemóvel e pesquisou em todos os itens do menu até se cansar. Passaram 5 minutos. Levantou-se e percorreu a sala em todo o seu comprimento. Olhou pela janela. Estava num rés-do-chão que dava para as traseiras do prédio. Contentores do lixo, móveis velhos e partidos, um gato. Ensaiou o discurso que convenceria o Director a promovê-lo. Era essencial que assim fosse. Precisava do dinheiro. A casa, os miúdos, os carros. Passou as mãos pelo beiral do lambrim. Pó seco e antigo entrou-lhe pelo nariz. Detestava pó, estava agora com dor de cabeça. A porta de entrada, fechada, tinha um vidro fusco que apenas lhe permitia ver vultos. Sobressaltava-se quando ouvia passos no enorme corredor vazio lá fora e decepcionava-se quando o vulto passava, apressado pela porta, sem se deter. Passaram 20 minutos.
O relógio parecia zombar da sua impaciência. O grande ponteiro dos segundos, sempre irrequieto no horário de trabalho curto para as tarefas a desempenhar, estava agora apático, sonolento. Arrependeu-se de ter deixado a "Visão" daquela semana no carro. Poderia lá ir buscá-la mas tinha sido avisado da falta de tempo do Sr. Director, da sua intolerância aos atrasos. Não queria arriscar ser chamado durante aqueles minutos de ausência. Ficou. Fixou as formas retorcidas da base da mesinha, em ferro forjado. Desenhou-as com a mente e confirmou em seguida o seu sucesso. As mancha de humidade na parede eram agora manchas de Rorschach. Viu um lobo, um punhal, uma bala, uma caveira. Passaram 2 horas.
Ouvia o seu coração ribombar, os dentes a ranger, a respiração a acelerar, os pêlos a eriçar, os ratos a correr nas paredes, os insectos a roer a madeira. As manchas de humidade cresceram. Um punhal, uma bala, uma caveira. Cocou a cabeça despenteando os cabelos. O discurso ensaiado estava confuso, palavras soltas, vagas, incoerentes. A mente vazia. Passaram 5 horas.
Um vulto trespassou o vidro frio da porta "Acompanhe-me". As pernas torpes, dormentes, bambas. Cambaleou, seguiu e endireitou-se. O coração disparou. Entrou no gabinete. "Não tenho muito tempo, seja breve." Engoliu em seco, a voz secou. "Desembuche homem!", a língua gelou. "Se não tem nada a dizer, homem, saia." Não saiu. "Está parvo? Quer ser despedido?!??!!" Não respondeu.
Um punhal, uma bala, uma caveira.

9 comentários:

Ana C. disse...

Ó Miguel mas isto está muito bom mesmo. O que é que andaste a fazer que estás tão inspirado? O que quer que tenha sido, continua a fazê-lo.
Parabéns a ti e a quem teve a ideia de criar este blog ( e não é que fui eu?) pois acho que te está a dar asas para voares.

Miguel C. disse...

Olha, não sei!!! Mas se continuas com os elogios ainda vou acreditar que sou mesmo algo de jeito nisto da escrita!!!
Este texto ocorreu-me esta semana, durante uma espera para uma reunião. Esperei cerca de 4 horas e já estava a passar-me! Estive sozinho numa pequena sala de espera despida e fria e perguntei-me o que a espera e a ansiedade poderiam causar numa pessoa. Saiu isto!!
A minha reunião correu... bem, ainda não vi os resultados mas estou esperançado que valeu o esforço.

Miguel C. disse...

Ah... sim, parabéns a ti pela excelente ideia e obrigado pelo convite. Sinto-me verdadeiramente honrado.

Banita disse...

Está visto que as secas à espera de reuniões são proveitosas!
Parabéns à Ana pela ideia e ao Miguel e à Ana pelos textos que são sempre muito bons!

Miguel C. disse...

Adoro isto!! É só massagens ao ego!!!

Ana C. disse...

Tens razão Miguel, há que deitar-te um bocadinho abaixo no post seguinte. Isto um gajo não pode ficar muito convencido.

Miguel C. disse...

Pois é Ana!! Haverá coisa mais parva que um gajo com a mania que é o maior?
Mas não exageres por favor...
;)
LOL

MARIINHA disse...

Miguel tive uns dias sem vir espreitar, mas hoje cheguei aqui e adorei este texto. Acho que está muito bem escrito. A longa espera e o desespero fez o nosso homem passar-se, acho que há aqui alguma loucura.Parabéns! Bjs

L. disse...

WOW oh Miguel!!!! Fiquei presa ao ecra até ler o post todo de seguida. FANTÁSTICO!!!

ahhh mas a Ana tem razão, para o próximo temos de ser menos generosas nos comentários :P