Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor - Choque

António apercebeu-se que a sua camisa ficara molhada pelas lágrimas de Helena. Era como ter um bocadinho dela junto a si. Passou a mão pela superfície molhada do tecido e olhou Helena e Rodrigo através do vidro. Viu-a acariciar-lhe os cabelos, passar-lhe uma mão pelo rosto, falar-lhe. O olhar do marido era vazio. Olhava-a num misto de culpa e consternação. Quem o olhasse poderia tomá-lo por uma criança perdida, em busca de algum sinal que pudesse orientá-lo.
António sabia que um longo caminho de recuperação esperava por ele. Um caminho nem sempre cheio de sucessos, mas que com o estímulo e dedicação certos, tinha tudo para ser vencido. Pousou uma mão sobre o vidro impessoal que o separava da sala de recobro e ficou ali a ver a imagem daquele casal. A esperança de conseguir um dia ficar com aquela mulher nunca o abandonaria, apesar de tudo, ele era um homem fiel àquilo em que acreditava.
Passaram oito meses. A barriga de Helena assumia já o volume de quem está prestes a conhecer um filho e Rodrigo fizera progressos extraordinários. Coordenava já os seus movimentos, construía frases a um ritmo normal e a sua memória regressava mais um bocadinho todos os dias.
Almoçava com Helena numa esplanada quando as seguintes palavras decidiram brotar da sua boca sem consentimento:
- Eu não merecia nem metade da tua dedicação.
- Como assim não merecias? Na saúde e na doença, diz-te alguma coisa?
- Diz-me que fui um estupor. Que te negligenciei, que deixei que me seduzissem, quando tenho a mulher mais fantástica do mundo ao meu lado.
Helena franze a testa, duas pequenas rugas, que ele conhece de cor, vincam-lhe aquela parte do rosto.
- O António explicou-nos vezes sem conta que a tua agressividade foi provocada pelo tumor. A culpa não foi tua…
- Eu traí-te Helena. Da forma mais miserável possível…
Helena engole em seco, no fundo de si, pensa que ouviu mal.
- Não olhes assim para mim. Todos os dias me lembro mais um bocadinho e à minha lembrança vem-me a Diana na nossa cama, na nossa casa. Eu traí-te mais do que uma vez! Não me perguntes como é que as coisas chegaram a esse ponto, pois não me lembro de ter uma relação para além do escritório com ela. Não sei o que aconteceu, como é que caímos nos braços um do outro, mas a verdade é que tive outra mulher e pior do que isso. Gostei.
Helena não chora. Recusa-se a deixar que a emoção leve a melhor. Sempre disse a Rodrigo que jamais lhe perdoaria uma traição, mas agora que ouvia aquilo, a perspectiva de o perder parecia dolorosa demais.
- Como é que foste capaz?!! Na nossa casa??? Como é que me fizeste isso, eu confiava em ti! Eu fiz tudo por ti…
Rodrigo tenta alcançar a mão dela em vão. Helena já se levanta, fora de si.
- Eu não sei o que é que me deu, ou porque é que as coisas aconteceram! Eu amo-te Helena! O que fizeste por mim…
- Devia ter sido a Diana a cuidar de ti, a limpar-te a baba, a ensinar-te a falar, a caminhar. Porque é que não a chamaste?! Tu és a maior decepção da minha vida! Nunca, ouviste bem, nunca vou conseguir esquecer!
Rodrigo olha Helena com lágrimas nos olhos. Não tem reposta, pois sabe que Helena está coberta de razão.
- O que é que eu posso fazer para me perdoares?
- Todas as coisas baixas que me disseste, que eu não me produzia para ti, que não saíamos! Não foi porra de tumor coisa nenhuma. Foste tu, tu! Comparada com aquela Diana, é claro que sou um pãozinho sem sal.
Rodrigo quer falar, mas tudo o que possa dizer vai soar a desculpa esfarrapada.
- Não saias da minha vida Helena.
- Olha para mim. Já saí!
Helena afasta-se a passos largos e à medida que a distância entre ela e a mesa daquela esplanada se alarga, as contracções que vem sentindo desde manhã tornam-se mais intensas, até a impedirem de andar. Ofegante encosta-se a um velho muro e pega no seu telemóvel. Só há uma pessoa a quem pode pedir ajuda naquele momento. Uma pessoa que os acompanhou durante estes meses como um verdadeiro amigo, apesar de sentir por ela muito mais do que uma amizade.
- António é a Helena. Eu sei que só te ligo nestas alturas, mas achas que podes vir ter comigo? – A voz dela é calma, mas bem lá no fundo desesperada.
- O que é que aconteceu Helena?
- Vou deixar o Rodrigo e acho que vou ter o bebé…

7 comentários:

Miguel C. disse...

Eh pá!! Como é que se passa da aparente felicidade na primeira metade do episódio para a desilusão total no resto??!?!?
Tu e as tuas "batatas quentes" menina Ana...
Como é que eu desembrulho isto agora???
O Rodrigo arrependido, a Helena fula e quase a parir, o António a esfregar as mãos de contente e ainda a Diana...
Xiiiiiiii...

Ana C. disse...

A vida às vezes é assim, passamos do amor ao ódio num ápice e o nosso mundo dá uma volta ao contrário. E agora? Bem, agora parece que a bola está do teu lado ;)

Carla disse...

O Rodrigo não presta e ponto. (Agora que o homem se safou e está bem de saúde, posso continuar a dizer mal dele...ihih)
Já vai tarde para arrependimentos.
E foi preciso uma mulher para pôr a Helena a mostrar as garras que já se fazia tarde. Gostei!

Ana C. disse...

Carla faz-me um favor se vires o Rodrigo por aí, não o desfaças. O homem ainda tem muito para viver e quem sabe a Helena ainda não o pode perdoar?

Miguel C. disse...

Realmente o Rodrigo é um crápula!!

Mariana disse...

Gostei do blogue:)

Boa semana

bj

Ana C. disse...

Mariana não fujas, volta sempre!