Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um Estranho Caso de Amor: alívio

"INEM, bom dia."
"O meu nome é António Gentil, sou neurocirurgião, estou no nº 2, 5ºdto da Rua da Felicidade. Tenho um homem, cerca de 30 anos, inconsciente, ventila e tem pulso. Apresenta um desvio da comissura labial, pupilas reactivas mas assimétricas. Solicito o envio de uma equipa médica e que contacte o Hospital Central que chegarei com este doente. Que tenham tudo preparado!!"
"Compreendido. Vou iniciar os procedimentos."
António desligou. Olhou para Helena que estava imóvel de olhar vazio junto à porta. Dirigiu novamente a sua atenção para Rodrigo. "Não tem nada bom aspecto" pensou "Apesar de seres um crápula da maior espécie, de teres feito sofrer Helena, não posso deixar-te morrer. Ela iria ficar destroçada". Amaldiçoou a sua sorte. Sabia que, depois disto Helena iria dar-lhe mais uma oportunidade. Ela nunca o iria abandonar se ele precisasse. E ele precisava de largar esses pensamentos e concentrar-se. Ele era médico e aquele o seu doente. A equipa médica chegou rapidamente. Invadiram a casa com os seus aparelhos, ajoelharam-se junto a Rodrigo e colocaram-lhe um soro, os eléctrodos no peito, um tubo pela boca, outro pelo nariz, uma algália. Helena colou-se à parede como se pretendesse fundir-se nela. Observou Rodrigo a passar na maca, desfigurado, cheio de tubos e fios e surpreendeu-se com ela própria. Não chorou. Recompôs-se. Tinha que ser forte.
Rodrigo acordou no hospital. Não reconheceu aquele tecto branco. Ouvia uns sons agudos, rítmicos e fios por todo o corpo. Contudo, sentia-se incompleto, dividido, fracturado. Através dos vidros, viu Helena falando com um médico que, apercebeu-se depois, era António. "Estou tramado com este gajo" pensou, e chamou Helena. Ela voltou-se e entrou no quarto, um sorriso doce, um afago terno na face, a presença serena. "Desculpa Helena... fui um parvo. Amo-te. Estive com outra mulher, espero que me perdoes..." o olhar de Helena não demonstrava revolta, antes confusão com um toque de desespero. "Tem calma Rodrigo, não te percebo, fala mais devagar"
"Como não me percebes? Estou calmo e a falar devagar..." até que ouviu a sua voz...
"Papapapapapapappppppaaa"
"Mas o que é isto.... não consigo falar..."
"Papapapapappapapapappp"
"Tem calma Rodrigo" Helena derramava uma lágrima
"Calma? Calma? Mas..." tentou levantar a mão direita para agarrar Helena mas a mão não lhe obedeceu. Apercebeu-se que não sentia a metade direita do corpo. Pânico!
"Papapapappapapapappapapapapappp"
"Socorro, Helena tens de me ajudar! António!! Ajuda-me... por favor...."
António administrou-lhe um calmante e explicou "Rodrigo, tiveste um AVC, provavelmente por obstrução de uma das veias do cérebro. Neste momento não consegues verbalizar os teus pensamentos. Chama-se a isso disartria. Também tens todo o lado direito do teu corpo paralisado. Não vais conseguir mexer. Dentro de algumas horas vou operar-te. esperemos que estes factores sejam reversíveis. Entretanto tens de manter-te calmo."
"CALMO? CALMO? COMO ESPERAS QUE ME MANTENHA CALMO??!??!?!? Estou preso dentro do meu próprio corpo..."
"Papapapapapapppappappapappp?!?!??!"
Os exames revelaram um tumor no cérebro de Rodrigo. "Um tumor?!!?!" exclamou Helena "Mas... como é possível?"
"Não notaste nada estranho no Rodrigo?"
"Além de se ter tornado num perfeito idiota??!?! Só umas dores de cabeça. Mas sempre atribuímos isso ao excesso de trabalho."
António engoliu em seco antes de falar "Sabes que a agressividade dele pode ter sido um sintoma importante da sua doença?" Helena petrificou. "O tumor está a comprimir todo a parte do cérebro que controla as emoções... a não ser que ele sempre tenha tido essas atitudes." Helena abriu o seu maior sorriso e abraçou António "Claro que não!!! Ele sempre foi um querido!! Quer dizer que, quando lhe tirares o tumor, ele voltará a ser o mesmo de sempre??"
"Bom... tudo indica que sim...."
"Oh António.... obrigado!!"
Entretanto Rodrigo dormia no quarto. Sentiu uma presença no quarto que o beijou no lado direito da face. Não sentiu nada. Diana aproximou-se vagarosamente. "Coitadinho do meu menino... tem dói-dói? Sei que estás... digamos que apenas a metade das tuas capacidades!!!" riu-se da sua própria piada. "Por mais que sempre tenha fantasiado o sexo contigo num quarto de hospital, estás demasiado em baixo. Não me irias dar prazer. Talvez quando fizeres uma entorse num dos teus jogos de futebol?" Rodrigo sabia que ela não o iria compreender e, por isso não falou, mas pensou com toda a sua força "Cabra... nunca mais te quero ver!"
"Não penses que te livras de mim assim, querido" Diana parecia ter-lhe lido os pensamentos.
Diana saiu. Um enfermeiro entrou e disse-lhe que iria já para a cirurgia.
As luzes eternamente ligadas do corredor voavam por cima dele. O bloco operatório era frio. Reconheceu ou olhos de António atrás da máscara verde. Alguém lhe colocou uma máscara de gases e lhe pediu para contar até dez "1... 2... 3... 4... 5.... 6...". Adormeceu.
António saiu do bloco com um sorriso nos lábios "Correu tudo bem!! Não havia estruturas vitais envolvidas!! A face desfigurada dele retomou a sua posição original!! Vai ficar tudo bem!"
Helena chorava mas eram de alegria as lágrimas que lhe rolavam pela face.

10 comentários:

Sílvia disse...

Pronto apesar de para já o Rodrigo ainda ser uma besta ganhou uns pontinhos na minha consideração porque ninguem merece ter um tumor...

Vamos ver, vamos ver xD

bjo***

Miguel C. disse...

Atenção Sílvia!! A agressividade recente do Rodrigo pode estar relacionada com o tumor. Ou será Diana que lhe está a dar a volta à mioleira???

Ana C. disse...

Estou rendida...
Consegui abstrair-me do facto de também contribuir para esta história. Pelo período de tempo em que li o desenrolar das coisas, a história era simplesmente um texto que me prendeu do princípio ao fim. Pena não ter sido maior...
Rua da Felicidade? Ah Ah

Miguel C. disse...

Ana, o nome da rua será um prenúncio ou uma ironia??
Quanto ao tamanho do texto: por vezes também acho que são curtos. Contudo, a maneira de os alongar seria pormenorizar as descrições das personagens, das emoções, dos sítios e isso por vezes prejudica o ritmo da história. Não concordas?

Sílvia disse...

Miguel eu sei mas diga-se que a Diana também nao parece ser uma mulher nada facil e pode estar a dar-lhe a volta a cabeça loool

Ana C. disse...

Miguel eu penso que estando a escrever para um blog e se quisermos manter um certo ritmo, não nos podemos esticar mesmo. Acho que tem fluído muito bem. Eu é que estou a gostar tanto que queria que continuasse, só isso.

L. disse...

Bom dia! Não podia concordar mais com a Ana.
Quando se segue o próximo? :P

Carla disse...

Quer dizer, andei eu aqui uma semana inteira a chamar nomes ao Rodrigo e agora fiquei com um problema de consciência do caraças :( Até quis bater no homem ...ahaha

Não bastasse ainda tive de engolir o dicionário ao pequeno almoço para descortinar aqueles termos técnicos de desvio de comissuras e pupilas tortas e coisas tais...

PS-Nunca liguei a blogs, só há muito pouco e quase por acaso fui espreitando. Admiro a escrita bem construída, humorada e descomprometida.
Estão ambos de Parabéns porque sente-se que o fazem com o prazer de se divertirem e de divertir quem vos segue. É um saber partilhar, muito agradável de seguir :) Obrigada.

Miguel C. disse...

Carla, e eu simplifiquei pois os termos correctos são pupilas anisocóricas, disartria, hemiparésia à direita... LOL
Fico sempre contente com os vossos comentários!!
Obrigado a todas!

AnaMoreira disse...

Eu logo vi que o Rodrigo tinha de ter qualquer problema :) Mas e agora o António e as suas teorias da atracção e outras que tais? Hum, tou curiosa..eheh..vou ler o resto! Parabéns aos autores =)