Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Inverno e a Aldeia 9

(Clicar no play e começar a leitura, please...)



Aldeia de S. Vicente da Lua, 24 de Dezembro de 1952
A quem aprouver.
Hoje tentei abalar daqui outra vez. Os filhos da puta ficam-se no cerco a este buraco onde estou enfiado. Cabrões. Já não boto apeguilhos ao bucho há dois dias. Não tenho dúvidas que estes caralhos, estes meio-sangue de merda vão tentar sair daqui para tomar outra terra qualquer.
Consegui ir até à aldeia. O fedor... pedaços de homem e mulher enontram-se espalhados pelos cantos, meio comidos meio por comer. Os gajos cagam onde comem. Entrei na casa do Ernesto Mouco, ele é costumeiro de ter o fumeiro atado na cozinha. Lá estavam os chouriços! Eles não comem a nossa comida. Nós somos o mata-bicho deles! Quando ia a abalar estava lá um. Estranhei estar sozinho, costumam andar em bando como os ciganos. Covardes! Era um meio-sangue dos pequenos, um meia-leca de merda que me mostrou os dentes serrados, sujos de terra. Ainda andava curvado como um macaco. Atirou-se à minha perna e levou um pontapé bem em cheio no focinho! Já não me apoquentam os pequenos. São ainda crias a aprender a lutar. A merda toda é que uma cria nunca anda longe da mãe...
Ouvi o grito na rua de trás. Parecia alguém a riscar um quadro de ardósia. MERDA! MERDA! MERDA! Pisei o meia-leca, não tive tempo de o matar e corri pela vida! Só se pode correr, em pelejando com os grandes. Apareceu num pincho na esquina da rua e consegui ver. Estão sempre a escorrer cuspo os filhos da puta esfaimados. Este corria como um louco e conseguia sentir o seu bafo merdoso na minha espinha. Saquei do meu bordão de atiçar o gado e, sem parar de correr, balancei-o para trás e espetei-lho com ele nas trombas! Nem soube o que o atingiu!! Ficou no chão, a espernear que nem um bezerro acabado de nascer. Mas fui apanhado à traição por outro, que se atirou para cima de mim. FODA-SE, não sei de onde ele saltou mas a minha sorte foi que rebolámos pelo chão e ele largou-me. Ainda sinto a sua sua carne rançosa na minha mão, como se fosse carne podre a criar aquele bafio, aquela ranha viscosa que surge antes dos murcões começarem a crescer. Agarrei numa pá que me apareceu e bati-lhe com toda a minha força! Não devo ter acertado em cheio porque se levantou e voltou a perseguir-me.
Não há mais nada a fazer. Corri e fugi deles todos com a pá a bater neles e nas paredes, nos grandes e nos pequenos, nem sei quantos eram mas eram muitos. Não sei como se matam os grandes e não consigo matar os pequenos porque nunca andam sozinhos. Enfiei-me no meu buraco outra vez. Consegui trazer dois chouriços que não sei até quando me aguentam... O meu coração bate na minha garganta. Não sei até quando vou viver, mas sei que estes cabrões não me comem sem eu dar luta. Filhos de um corno manso hão-de morrer de caganeira se me comerem.
No meio dos que me atacaram consegui ainda ver as feições da Maria das Dores, do Zé Pastor e do Ernesto Mouco.

7 comentários:

Nuvem disse...

2 capítulos num só dia... que luxi!!!
Ainda por cima com esta qualidade :)
Muito, muito bom Miguel... elevas a história para um outro patamar... faz-me lembrar um filme de terror que vi quando era criança ;)
beijinhos

Ana. disse...

Bolas!!
Estou completamente siderada nesta história! E a música é fenomenal para este texto!
Muito, muito, muito bom!

Kudos, Miguel!

;)

Melissinha disse...

:D vais conseguir dormir depois disso??? :D
Muito fixe, só não oiço a música - mas conheço - porque tenho aqui o bebé.
(Uhuuu isto empolga-me!)

Miguel disse...

Ontem andava na minha corridinha e estava a ouvir esta música no iPod e pensei: "isto tem mesmo ritmo de perseguição, claustrofobia" e lembrei-me logo que tinha que escrever um texto onde ela se encaixaisse!! Mesmo assim o texto não saiu exactamente como eu queria...
:(

fiel leitora disse...

É impressão minha ou esta história está a ficar um excelente argumento para um filme?

Ana C. disse...

Miguel se eu ouvisse esta música enquanto fazia jogging acredita que ninguém me apanhava. Acho que não parava de fugir e borrar-me ao mesmo tempo...
A história está medoooonha como se quer :)

marta disse...

"Agarrei numa pá que me apareceu"!!! Brutal!

http://linhas-de-desorientacao.blogspot.com/
Vai lá espreitar =)