Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Inverno e a Aldeia 2

(Documento nº 66, caixa 5, Status: em análise)
Querido Diário:
Sinto-me triste. Uma tristeza profunda que não vem de dentro. Não é como as outras tristezas que já senti antes. É uma tristeza que vem de fora. É como se a tristeza fosse transportada por este estranho nevoeiro que envolveu toda a aldeia.
Hoje na escola proíbi os meninos de sair para o recreio. Ficámos todos dentro da sala, mas ninguém falou ou brincou. O silêncio pareceu-nos tão pesado que ninguém sequer se levantou do seu lugar. No corredor ouvia-se a discussão exaltada entre o Padre, o guarda Abel e a menina Cidinha. Os seus gritos chegavam-nos aumentados e distorcidos pelas paredes de pedra fria. A menina Cidinha saiu para a rua a chorar. Vimo-la através das janelas. Correu para fora dos portões da escola e desapareceu, envolvida pela névoa. O padre Alberto saiu logo depois dela mas travou a fundo junto aos portões. Parecia que tinha batido contra uma parede. Regressou lentamente para dentro. Nunca virou as costas aos portões.
Continuo a ser olhada com desconfiança desde que cheguei. Parece que me culpam pelo abandono da antiga professora. Os pais não me falam, o padre não me consulta, as velhas beatas segredam à minha passagem. Apenas uma pessoa sorri para mim. Um homem com aspecto doce mas com a pele escura pelo sol que apanha nas eiras. Parece que todos discutem na aldeia. No caminho para casa notei a melancolia que paira sobre este lugar. As luzes estão apagadas em quase todas as casas. As portas fechadas e os crucifixos pregados da parte de fora. Nunca tinha visto tantas cruzes em tantas portas. Algumas delas estavam meio abertas mas não sei se alguém tinha entrado ou tinha saído. Ouvi alguns homens a berrar com as suas mulheres, com os seus filhos. Não querem que saiam de casa. Alguns deles não vão há escola há dias. Dizem que foi comigo que chegou o nevoeiro.
Os cães pararam de ladrar. Os cães ladram sempre durante a noite. Ao desafio. Se um começa logo outro o acompanha e depois outro e outro. Fico sempre contente por os ouvir ladrar. Consigo imaginar o som dos cães a viajar pelas ruas da aldeia. Mas também isso acabou.
Das traseiras da escola vi três sombras que se deslocavam no bosque. As árvores escondiam-nos porque parecia que eles apareciam num lugar para depois desaparecer e voltar a surgir num local diferente. Acho que foram eles que fizeram calar todos os cães.
Releio o que escrevi. Acho que esta solidão a que estou votada, a forma fria como as gentes me tratam desde que cheguei estão a fazer-me ver coisas...

6 comentários:

Melissinha disse...

EXCELEEEEEENTE!!!!
Nem vou dizer mais nada para não quebrar o clima.

Miguel disse...

Li o post (não costumo reler o que escrevo) e fiquei... triste. Que sombrio pá...

Ana. disse...

Tá nada sombrio! Ou por outra, até está, mas em bom!
Muito bom!

Esta história promete!
Palminhas para os meninos.
;)

Melissinha disse...

sombrio é bom.

Nuvem disse...

Estou a gostar...
Muito!!!
Que grandes escritores que são.
Mal posso aguardar pela continuação - ainda por cima quando gosto da leitura não sou capaz de parar...

Ana C. disse...

Sombrio é defintivamente bom neste caso. Estou a entrar no clima...
Parabéns!