Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

domingo, 25 de outubro de 2009

O Inverno e a Aldeia 11

Floresta S. Vicente da Lua, Janeiro 1953

A quem interessar
Continuo vivo e na floresta. Tal como eu uma mão cheia de habitantes da aldeia conseguiu fugir, tenho a certeza disso, apesar de nenhum deles se querer mostrar, pois vivemos como ratos enfiados em buracos escuros e sujos.
Aprendi a lutar com tudo o que apanho, desde paus, a pedras, às minhas próprias unhas que deixei crescer para lhes cravar os olhos, assim ficam sem ver até se recomporem. Os gajos saram qualquer tipo de ferida. Quando a gente pensa que os esventrou cicatrizam com uma limpeza que assusta.
tenho tentado fabricar armas com o que a natureza me dá, mas aqueles cornos não morrem assim. O máximo que tenho conseguido é atordoá-los, ganhar tempo para a fuga. Mas até na fuga eles me fodem, se corro lento demais eles saem da espécie de desmaio e apanham-me, se corro muito depressa posso cair e por aqui já aprendi que quando caímos morremos. tenho fugido como um animal selvagem, fintando, trocando-lhes as voltas em ziguezagues.
Sei que tenho que ser forte por ela, pois apesar de me ter abandonado, acabará por voltar, se é que já não voltou e se esconde tal como eu num destes buracos sujos. Tenho dias em que só quero morrer pelas minhas mãos, outros dias em que acordo com ganas de dar cabo deles todos, se ao menos soubesse como...
Já percebi que eles farejam medo, que nos lêem dentro da cabeça, sabem para onde vamos e nos moem tanto o corpo como a alma, esta parte disse-me o vigário. Os gajos não gostam do vigário, não lhe tocam, têm-lhe asco. Ele não quis fugir, ficou na capela. Pensa que a malta que lá ficou tem que ser salva, só não percebeu é que todos os que ficaram estão fodidos. Foram mordidos e em breve se vão transformar também.
Se ao menos eu conseguisse chegar ao padre. Se eles lhe têm nojo o homem é de serventia para os que como eu fugiram. Já tentei reunir mais homens para voltarmos à aldeia, mas nenhum tem tomates, nenhum dá as caras. Eles sabem que só quando estamos escondidos nos buracos é que não nos sentem. Por isso sair só para arranjar o que comer e mesmo assim o risco é muito.
Sempre que saio para caçar tento estudá-los melhor. Hoje sei que vou descobrir um bocadinho mais. Só não posso sentir medo, medo não, nunca. O medo é que o eles cheiram primeiro.
Já escureceu e de noite é menos perigoso, eles não enxergam bem, só cheiram, cheiram o medo. Mas eu não posso ter medo, não agora que precisam de mim...


Caixa número 30 /Documentos por identificar. Prioridade: Máxima.

Nota: A aguardar análise de laboratório forense.

4 comentários:

Miguel disse...

Palminhas, palminhas!! Gostei do vernáculo espalhado pelo texto!!! Mesmo assim a tua escrita é limpinha, como sempre! Ficámos a saber algumas coisas mais sobre os bicharocos e, a partir de agora é sempre a descer até aos infernos... MUAAAAA AH AH AH!!

Ana. disse...

Será que encontrámos o nosso herói?!

Achei deliciosa esta sistematização do que já sabemos sobre "aqueles cornos" (amo a expressão, amplamente utilizada no registo popular ribatejano!!)
E o detalhe do vigário como potencial aliado é excelente!

O resto o Miguel já disse, está limpinho!

Muito bem, Anita!

Nuvem disse...

Muito bem Ana.
Uma melhor descrição, que as pessoas mordidas se transformam... tudo muito bom!!!
Mal espero pela continuação :)

Melissinha disse...

haha aqui a pató atrasada chegou agora e está a adorar. ADORAAAR.