Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

o Inverno e a Aldeia 6

Actualidade Sede da Polícia Judicária - Lisboa
Alguns recortes de jornal, cartas rasgadas unidas como um puzzle caseiro, desenhos infantis com um tom demasiado macabro, relatórios de análises de ADN, relatórios periciais, fotografias de famílias inteiras que pareciam devolver o olhar a quem as fitava e dezenas de pequenos objectos não identificáveis por um observador desatento repousavam num enorme quadro de cortiça presas meticulosamente, obedecendo a uma ordem que só o Inspector entendia.
Apagou o último cigarro do maço e passou as mãos pelos cabelos salpicados de cinzento. Levantou-se sentindo as pernas pegajosas pelo calor que se fazia sentir no gabinete e deu um pontapé na inútil ventoinha que se limitava a espalhar ondas de calor em seu redor.
- Nem que seja a última merda que faça na minha vida, eu vou conseguir descobrir-te, viva ou morta! Porra para isto tudo! Nada bate certo!
Desta vez o pontapé saiu na direcção da sua própria cadeira que se limitou a girar em torno de si própria enquanto gemia baixinho, gozando com ele. Tudo parecia zombar de si, até o próprio gabinete, claustrofóbico de luzes fluorescentes que acendiam e apagavam consoante o seu estado de espírito.
Desapertou o colarinho suado e apoiou-se no imenso placar fitando cada uma das pessoas retratadas nas imagens, buscando nos seus olhares vazios a resposta.
Retirou do bolso a carta que não chegara a etiquetar como prova e segurou-a na palma da mão quente e poderosa. Podia sentir as pontas dos dedos de quem a escrevera a percorrerem o contorno dos seus finos lábios.
O seu estado de transe foi interrompido por um estrondo seguido da mais completa escuridão. Mas ele nem pestanejou, estava mais do que acostumado às nuances das luzes naquele gabinete. Limitou-se a recitar interiormente o conteúdo da carta que sabia de cor.

Documento não anexado ao rol de provas. Categoria: Correspondência Pessoal.

Aldeia de S Vicente da Lua, 10 de Agosto de 1974

Júlio rogo-te que não regresses.
Se tens ainda no teu coração algum amor por mim fica na cidade, não me procures mais.
Eu não sou a mesma Joana que deixaste. Dentro de mim cresce alguma coisa que não consigo mais controlar, agora tenho a certeza disso. Só pode ser Ele que veio para nos buscar a todos, a cada um de nós. O Vigário tem colocado cruzes sobre as nossas casas quase todas as noites, mas de nada nos valem. Estamos irremediavelmente tomados.
Temo o nosso reencontro, pois o amor que julgas nutrir por mim esfumar-se-á assim que pisares a Aldeia, assim que vires no que me transformei.
Não desejo voltar a tocar-te, a olhar-te, a falar-te, pois assim como o nosso caso começou, como um fogo terminou com a mesma rapidez.
Se tornares à terra não te perdoarei e tudo o que tivemos deixará de ser uma boa recordação.

Joana


Um grito gutural fez com que os vidros das janelas estremecessem à beira do colapso e as luzes reacenderam-se como que por magia. Só passados uns segundos é que percebeu que aquele rosnar cavernoso saira de dentro da sua própria boca. Ele jamais voltaria a ter paz...

6 comentários:

Miguel disse...

WOW!!! Isto está a ficar muuuito interessante...
Quando é a minha vez, quando é, quando é???

Melissinha disse...

ó pá excelente.
Eu só volto a escrever na 2a, por isso, Miguel, força.
(Isto está muito bom...)

Nuvem disse...

bom, muito bom
parafraseando o Miguel... wowwwwwwwwwww
mal posso esperar pelas continuações :)

Ana. disse...

Cool!
Tadinho do Júlio!

Eu continuo a achar que um dia fazem uma compilação destas histórias, acertam umas virgulas e editam um livro!!

;)

Melissinha disse...

"Acertam umas vírgulas"

Qualquer dia passo aqui a esfregona, ó colega de profissão!

Ana. disse...

Tens razão, Mel, falha minha!
;)