Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

o Inverno e a Aldeia 3

Documento nº 25/ Caixa 3 / Tipologia: Correspondência Pessoal Vigário Alberto/ Em análise

Aldeia de S. Vicente da Lua, 2 de Julho de 1952

Mais do que Bispo, meu Caro amigo Pedro:

É com as mãos trémulas pela crescente falta de fé e vergadas pela dor que lhe redijo o que penso ser a minha última missiva. A gélida temperatura que se instalou na aldeia nestes meses de verão impede-me de continuar a escrever-lhe, pois com o gelo veio também a artrite não apenas nos meus frágeis ossos, mas acima de tudo na minha empobrecida alma.
Enquanto os gemidos da noite e do vento (assim quero acreditar) gritam lá fora este seu amigo não dorme, caminha de batina pela capela, cai de joelhos defronte do altar, apela sem agravo a todos os santos redentores. Porquê meu Deus, porque é que não consigo chamar o rebanho à igreja nem como refúgio do frio que se faz sentir? Porque é que a palavra do Senhor deixou de fazer sentido aos habitantes da aldeia? Eles que me enchiam a capela todos os dias do mais puro dos fervores?
Porque é que sinto que já não sou bem-vindo nas suas casas, nas suas vidas? E acima de tudo porquê este vacilar interior que me atormenta, este fogo numa alma que se quer humilde?
À noite tudo surge para me roubar a pouca sanidade que resta. Escuto gemidos, preces longínquas em sânscrito, vejo sombras. Sei que tudo não passa de uma interminável provação de fé, mas porquê a mim?
Continuo a colocar noite após noite os crucifixos sobre as portas das habitações, tal como me aconselhou, mas basta um par de dias para que retornem à proveniência. Contei-lhe já como as cruzes de Cristo reaparecem na capela pregadas ao contrário sobre o altar…
Quero ser mais forte que tudo isto, Deus sabe que tenho tentado ver as coisas sob o seu olhar, mas sinto-me no final de um longo caminho infrutífero e sinto que Ele está na sombra à espera para me levar a qualquer momento...
Aguardo impacientemente ordens suas meu amigo, pois se nenhuma orientação me der, estou em crer que me perderei irremediavelmente.

O seu servo e amigo
Alberto

Sobre a folha de papel encontrados vestígios de uma substância de cor avermelhada que se repete sobre a entrada número 2 desta sequência. Aguarda análise do laboratório.

8 comentários:

Nuvem disse...

parabéns Ana C.
estou a adorar...
mais
mais
mais :)

Ana. disse...

Vigário Alberto?!!
Boa! Vamos ver o que diz Miguelito da escolha!

Ana, isto está impecavelmente escrito. Imaculado será mais o termo!

Esta história (ainda tão curta) está a trazer o melhor dos três autores! Não tenho dúvidas!

;)



Mel, cheira-me que a bola é tua!!
...

Melissinha disse...

A bola vai ficar a pairar um bocadinho!
E concordo, acho que é um formato que pode trazer ao de cima o melhor que há em todos!

Miguel disse...

É caso para dizer: Ó MEU DEUS!!!
Esta história está cada vez mais sombria. E gélida... brrrrrr!

PS: as palavras "vigário" e "Alberto" escritas consecutivamente causam-me arrepios!

Ana C. disse...

vigário Alberto Vigário Alberto Vigário Alberto Vigário Alberto Vigário Alberto Vigário Alberto
Quem é amiga?

Ana C. disse...

Nuvem muito obrigada :)

Ana C. disse...

Ana. Imaculado? Ora muito obrigada assim até me apetece rezar uma Avé Maria :)

Miguel disse...

Obrigado... amiga...