Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O Palpitar da Paixão

Gina olhou-se mais uma vez ao espelho e com a mão trémula limpou as lágrimas que rolavam pela face sem permissão.
Sabia que o tempo se limitara a acariciar a sua pele, investindo-a de pequenas, quase imperceptíveis rugas que mal faziam história, mas mesmo assim sentia-se a mulher mais antiga do mundo.
O final do seu casamento com um homem que nunca a amara de verdade, seguido de um divórcio tumultuoso, em que ele arranjara forma de ficar com os dois filhos menores e de a deixar sem nada, investira-a de uma força que não sabia possuir. De dentro de si nasceu uma verdadeira leoa, disposta a lutar com unhas e dentes pelas suas crias, nem que para isso fosse preciso virar a sua vida do avesso.
E fora precisamente isso que fizera. Apesar de ser uma mulher culta e sensível não teve qualquer problema em candidatar-se àquele lugar de governanta na célebre Mansão de Netherfield.
O seu proprietário, um viúvo austero e solitário, que nunca recuperara totalmente da trágica morte da sua esposa, era conhecido pelos seus ataques de ira para com o pessoal de serviço. Mas nem isso, nem o facto de ser a sétima governanta a candidatar-se no espaço de um ano, a dissuadiram da entrevista a que estava prestes a submeter-se.
Disfarçou as lágrimas o melhor que conseguiu. Prendeu o seu longo cabelo loiro com um grosso elástico. Deteve-se cautelosamente na escolha da roupa a usar, pois não poderia mostrar de mais, nem de menos. Sabia que tinha que ser sensata, agora mais do que nunca. Precisava daquele trabalho, de recuperar os filhos, de dar a volta por cima da sua própria vida. Não podia falhar logo na primeira etapa. A entrevista tinha que ser perfeita. Por isso revelaria apenas o estritamente necessário.
Apesar de possuir umas pernas bem torneadas, deixaria apenas adivinhar os seus contornos sob a saia comprida. Os seus seios, firmes e generosos, surgiriam escondidos debaixo de um tímido decote.
Teria que encarnar a governanta perfeita. A mulher capaz de gerir uma casa de tradição sem pestanejar. Capaz de engolir um insulto sem perder a pose. Teria que ser alguém que não era de todo e isso era o que a deixava mais nervosa.
Foi com o coração em sobressalto que passou os portões da imponente propriedade. Olhou em volta e percebeu que estava perante uma paisagem de cortar a respiração, a imensidão de verde, salpicada de quando em vez por um contorno de céu, deixou-a deslumbrada e pensou que quem quer que vivesse ali não poderia ser uma pessoa tão gelada quanto a pintavam.
Seguiu a pé pelo caminho empoeirado que conduzia à mansão, ajeitou mais uma vez o cabelo um pouco desalinhado e respirou fundo, projectando o peito bem para fora, desenhando uma curva que se confundia com a bucólica paisagem.
- Onde é que pensa que vai?!
Gina olhou na direcção daquela voz rouca e viril que arrepiou cada recanto da sua pele e não queria acreditar no que os seus olhos viam...

Nota de Rodapé: Meninos e Meninas isto não sou eu. Foi a Corin que encarnou em mim, por favor, nada de confusões...

Homenagem Inspiradora




Para irmos sentindo o ambiente que se segue, aqui ficam umas fotografias de algumas obras primas desse mito do romance de gaja desesperada, Corin Tellado.
Uma das memórias mais vívidas que tenho da minha infância é a imagem da minha bisavó Irene sentada num sofá, solitária, segurando numa mão um cigarro que levava aos lábios sempre pintados de vermelho e na outra um destes livrinhos onde se perdia horas seguidas, sonhando no que poderia ter sido a sua vida e suspirando.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Do outro lado da mira: Ne te laisse pas influencer par la première image.

João saiu calmamente do restaurante. Estava confuso e ele detestava isso. Toda a sua vida tinha sido simples como um disparo. Avistava o alvo, encurralava-o e puxava o gatilho. O seu coração acelerava, sentia a urgência do tempo a passar. "Vinte e quatro horas", pensou, "tenho 24 horas para descobrir como vou salvar Leonor, apanhar o quadro e, mesmo assim, evitar matar Ana." Sentia que aquela mulher era inocente no meio de toda a história, um peão manietado por alguém. "Sérgio Andrade". Calmamente, desceu a Av. Champs Elysées enquanto colocava as ideias em ordem. "Preciso do quadro para salvar Leonor, mas se o entregar a Sérgio o Banco mata-me. Ana foi bem clara quanto ao valor que o quadro tem para ela, por isso não o vai entregar sem luta. Mas porquê? E a vigia, a quem respondia ela? E quem é Mel?" Demasiadas perguntas, pouco tempo para responder. João tomou uma decisão " Vou fazer como sempre: sigo o meu instinto. Disparo primeiro, pergunto depois!"


Entrou no quarto de arma em punho e uma mulher igual a Ana esperava por ele. "Olá Mel!" disse com um sorriso para logo disparar um tiro certeiro no seu peito. Ela caiu, uma máscara de desespero cobriu a cara que antes ostentava um ar superior e arrogante. Agarrou o quadro e dirigiu-se à mulher, agónica e a tremer de frio. "Diz-me para quem trabalhas e poupar-te-ei a horas de sofrimento..."

"Eles sabem que o Sérgio tem a tua mulher..." respondeu com uma voz quase inaudível "o quadro, querem o quadro..."

"Eles?? Quem? QUEM?"

"O Banco."

João disparou um tiro certeiro na testa de Mel.

"O Banco? Mas como?.... MERDA!!" Vasculhou o corpo da mulher que jazia morta em frente a ele. Pesquisou a sua face, afastou o cabelo e descobriu. Uma pequena linha de sutura denunciava-a. Mexeu-lhe na face e esta mexeu, como se se soltasse dos ossos. "Disfarçaram esta agente para se parecer com Ana. Queriam estar certos que eu lhes levava o quadro..." Já não se tratava apenas de uma missão normal, era um teste de lealdade ao Banco. Saiu com o quadro embrulhado num lençol e pensava em Ana. O que lhe teria acontecido? Sentia-se aliviado pois uma das exigências de Sérgio foi deixar Ana em paz. Mas o seu instinto dizia-lhe que ainda a iria encontrar. O telefone tocou. A mesma voz sensual e feminina que lhe ordenou a missão. "João, meu querido! Tens um avião á espera para regressares a Lisboa. Ah, e trás o quadro sim?"

"Mas, Leonor..."

"Sabias que este era um trabalho perigoso. Nunca devias ter-te envolvido." Desligou.

Mais uma chamada. Leonor. "Olá meu velho! Tens 12 horas para entregar o quadro. Lisboa, no parque de estacionamento por baixo da Vasco da Gama." Mas como estavam ambos os interessados tão bem informados acerca dos seus movimentos?? Olhou em redor e viu-a. A vigia jogava nos dois campos. Ela acenou-lhe e desapareceu nas ruas escuras de Paris.

Nas quase três horas de viagem entre Paris e Lisboa, João considerou todas as suas hipóteses. Sabia que, mal pusesse pé na pista de aterragem estaria a ser vigiado pelo banco, Lisboa pertencia-lhes, eles eram intocáveis. Mas Leonor. Apesar de já não sentir nada por ela, devia-lhe respeito. Não podia simplesmente deixá-la morrer. Mas, mesmo que conseguisse resgatar Leonor e manter o quadro na sua posse, mesmo que entregasse o quadro ao Banco depois de salvar Leonor, eles nunca iriam permitir que voltasse à organização. E ninguém sai do Banco. Vivo, pelo menos. Em Lisboa a sua chefe aguardava-o. Uma mulher madura, nos seus cinquenta, mas muito bonita e elegante. Entrou no carro. "João. O quadro?" Ele olhou para trás e ela viu o motorista colocar o quadro na mala do carro. "Muito bem. E Leonor?" João saiu do carro sem dizer uma palavra.

A noite cobriu Lisboa. O parque designado por Sérgio era convenientemente afastado e pouco iluminado. Uma carrinha preta estava parada ao fundo do parque. Dois homens saíram da carrinha quando João se aproximou. Armas apontadas, caras tapadas "O quadro?" perguntaram.

"Onde está Leonor?" A porta traseira da carrinha abriu-se e um terceiro homem arrastou para fora uma mulher com a cabeça coberta. Reconheceu o vestido e a pulseira de Leonor.

"O QUADRO??"

"Calma, calma... cá está." retirou uma tela cuidadosamente enrolada de dentro do casaco. Quando matou Mel reparou numa reprodução exacta do Modigliani pousada em cima de uma mesa. Devia fazer parte de um qualquer plano de fuga de Ana. Agora esperava que o pudesse ajudar.

"E a Ana? Morta? Não fazia parte do acordo..."

"Não sei da Ana! Tanto quanto posso imaginar foi eliminada por outro agente do banco... não tenho nada a ver com isso."

"Muito bem... façamos então o nosso negócio."

"Sérgio Andrade... ao telefone não o imaginei um cobarde! A esconder a cara... Mostra-te!"

"EU SOU SÉRGIO ANDRADE!!" uma voz feminina ecoou entre os pilares da Ponte e saiu das sombras.

"Quem? LEONOR....? Mas... como...." João nunca se tinha sentido tão surpreendido e tão perdido. "TU!?!?"

"Meu amor... sempre me julgaste uma mulher fútil, desligada, um pouco burra até. E tinhas a tua razão, afinal eu nunca quis ver quem tu eras. UM MENTIROSO!! Com quantas mulheres já estiveste depois de mim? QUANTAS JOÃO? Dei-te tudo de mim, aguentei as tuas "viagens de negócios" como chamas ás tuas aventuras. E depois aquela foto. Aquela mulher, aqueles olhos, aquele olhar. Sabia que nunca podia competir com aquilo!! Eu, a tua mulher usada e chata, a quem tu rejeitas chamadas e carinho. Aquela que tu FODES quando chegas a casa frustrado do trabalho!! Eu sou o caixote do lixo das tuas frustrações... olha o que me fizeste..."

Então era isso. Leonor estava tomada pelos ciúmes "Leonor, eu... estás louca."
"CALA-TE!" deu um sinal ao homem que segurava a mulher misteriosa e este revelou-lhe a face: Ana!
"Agora, meu cobarde, QUERO QUE A MATES!!! MATA-A JÁ OU MORREM OS DOIS!"
João tentou ganhar tempo. Mais uma vez estava certo, Ana era uma vítima.
"Mas como? Como descobriste? Quem são estes homens?"
"Quando vi a foto desta PUTA na tua secretária decidi que bastava. Estava farta das tuas mentiras. Estes homens? Não é difícil encontrar quem esteja disposto a matar por uma boa quantia. Que vai sair da tua conta, já agora!! Depois eles encarregaram-se de encontrar quem te seguisse em Paris e raptaram esta desgraçada. E cá estamos nós."
"Amadores." Pensou João "Uma cambada de amadores..."
"DISPARA!" gritou Leonor.
João disparou. Um tiro certeiro no pescoço de Leonor acabou com ela, seguido quase simultâneamente por um tiro na cabeça do raptor de Ana. Os dois outros homens largaram as armas e fugiram, apavorados. Ana chorava compulsivamente e João abraçou-a.
"Desculpe, desculpe João... eles ameaçaram matar-me..." o choro tomou conta dela.
João aproximou-se do corpo de Leonor, baixou-se e acariciou-lhe a face "Não me deste escolha."
Pegou em Ana e desapareceu. O telefone tocou "João, seu malandreco!!" era a sua chefe "a missão está concluída, o cliente ficou satisfeito com o seu novo Modigliani! Viu as fotos da "Ana" que mataste em Paris nos jornais e ficou deliciado!! Estás livre por agora. E a Ana?"
"Está comigo."
"Leonor?"
"Morta."
"E o que vais fazer com o quadro?"
"O quadro?"
"João, a besta que pagou esta missão não quis saber do quadro. Pendurou-o numa parede de uma das suas mansões e nunca vai olhar para ele. Mas eu sei que me entregaste uma réplica... o que vais fazer com ele?"
"Devolvê-lo à sua legítima dona."
FIM!!!
PARABÉNS ANA!!!!



terça-feira, 14 de julho de 2009

Do outro lado da Mira - A Vigia

Sentia-se completamente perdido, não sabia por onde escapar de todo aquele filme que mais parecia de bollywood do que de outra coisa, tinha tudo para ser um filme europeu mas faltava-lhe algo mas que não compreendia o que era.
Estava preso na sala "Privée" do restaurante, deu voltas e voltas para perceber por onde poderia escapar, talvez existisse uma saída secreta como já tinha encontrado em outros restaurantes do género. Mas sabia que no "Le Boudoir" isso não acontecia, ele conhecia muito bem o Restaurante e aquele sempre foi um local que fez questão de manter afastado das suas missões, por ser um dos seus preferidos e escolheu-o para ser o seu porto seguro quando ia a Paris.
Acabou por perder a noção do tempo, talvez já tivessem passado algumas horas...começava a ficar impaciente.
Quando se levantou para ir buscar um copo de agua de uma das garrafas da mesa, ouviu passos no corredor, eram de saltos altos. Sabia que não eram as as irmãs Casaco, pois nenhuma delas usava um salto tão barulhento. Por momentos ficou apreensivo, queria sair dali mas tinha algum receio pela segurança de Leonor.
Segundo depois a fechadura da porta destrancou-se, João não sabia muito bem o que fazer, encostou-se a uma das paredes em pé e esperou que lhe dessem ordens.
- Olá João, acho que já basta de estar aqui preso...
- Quem é você?
-Isso não importa, o que sei é que na verdade não sei de que lado estou, se por um lado me deram ordens para o vigiar e controlar os seus passos, por outro senti-me na obrigação de o avisar que a sua esposa corre perigo. Eles impuseram um limite para esta missão ficar concluída, mas não lhe quiseram dar esse limite a si para não o pressionar.
- Nas minhas missões não costumam existir estes jogo de gato e rato, sou pago para fazer o serviço e nada mais. Mas esta história está a sair de todos os limites, primeiro colocam a Leonor como escudo e depois existem regras do jogo que estão claramente a ser escondidas?
- Por isso é que decidi arriscar e vir até aqui para lhe dizer que terá que resolver o caso em menos de 24 horas, pois caso contrario...não preciso dizer.
- Mas diga-me quem é o manda chuva? Para quem estamos a trabalhar? Preciso saber com quem estou a lidar!
- João, sinceramente nem eu sei, tal como lhe disse fui contratada para ser a sua sombra e comunicar-lhes todos os seus passos, quanto ao resto nada sei. Fui contratada para o seguir a partir do aeroporto e até aqui disseram-me muito pouco sobre si, apenas sei o objectivo da missão, nada mais.
- Preciso sair daqui, tenho que encontrar a Ana que me trancou aqui...
- Não será difícil encontra-la, ela está no "Napoleon", precisamente no seu quarto à sua espera...
- Não estou a perceber este jogo do gato e do rato...ela em vez de fugir de mim, está a fazer precisamente o contrario.
- Talvez o João ainda não tenha visto o jogo de outros ângulos...há regras que ainda não percebeu e isso faz com que tudo isto lhe pareça estranho.
O telemóvel dela tocou, afastou-se da sala e foi para o corredor falar, João aproveitou para a seguir, pois sabia que só podia ser o manda chuva. « Oui C'est Moi! está tudo a correr como o planeado, ele esteve preso numa das salas do "Le Boudoir" e tal como era previsto vai agora ter com a Mel, não ele ainda não descobriu, julga que são irmãs...nada mais...» João ouviu a conversa e voltou para o local onde tinha ficado antes do telefone tocar, estranhou toda aquela conversa da suposta vigia de serviço...e sem que esta contasse tinha ouvido a conversa, sabia que uma das Anas se chamava Mel, estranhou toda aquela história...queria sair dali o mais rápido possível. Tinha que encontrar uma explicação para todo aquela missão que começava a não fazer sentido nenhum.
Mas não podia sair assim, pois iria parecer que ele estava a fugir da pessoa que lhe tinha aberto a porta. Sabia que tinha que lhe passar a ideia de que confiava nela, pois já tinha percebido que também ela estava em jogo.
- Ahhh! Peço desculpa tive que atender, era do Hotel parece que tenho que mudar de piso, acho que houve uma inundação no piso onde estou... - Mentiu descaradamente.
- Não tem problema, preciso é ir embora para conseguir apanhar a Ana no meu quarto. - Informou João.
- Vá, e tente descobrir algo...precisamos finalizar a missão o mais rápido possível.
- Não se preocupe que ainda hoje terá noticias minhas.

domingo, 12 de julho de 2009

Do outro lado da Mira - O dia da caça

- Já percebi. É um ataque de riso nervoso. O seu corpo podia ter respondido com choro convulsivo, mas pelos vistos...
Mas João não conseguia parar de rir. Tentava começar uma frase, mas falhava.
- Pelos vistos você é o do tipo irónico – Ana estava cada vez mais impaciente.
- Não, não, não, - disse João, a limpar as lágrimas histéricas e a tentar retomar algum fôlego – diga-me só uma coisa...
Mas não completava. Gargalhava como um louco. Ana revirava os olhos. João vai conseguindo controlar-se.
- Você tem um quadro de uma mamma italiana que aparentemente vale a vida da minha mulher, que está nas mãos de um tipo qualquer saltado do túnel do tempo. Até aqui tudo bem, se não fosse o...
Mais gargalhada. Mais revirar de olhos.
- ... O facto de você ter um CC e um BCC!
Ana levanta-se já completamente impaciente.
- Podia por favor recobrar a sua compostura?
João levanta-se instantaneamente, pondo-se de frente para ela.
- Posso recobrar toda a compostura do mundo, Dra. Copy/Paste, se você se dignar a dizer-me, por amor de Deus, desde quando Tarantino trabalha para os Apanhados, porque esta merda já me está a dar A VOLTA AOS MIOLOS!
João já está aos berros.
- POR CAUSA DO QUADRO DUMA PUTA DUMA VELHA!
Ana encolhe-se com o último berro.
- Sem ofensa à sua bisavó, é claro.
Há um momento de silêncio em que João volta a sentar-se.
- Posso fazer-lhe uma pergunta?
João assente. Não deve haver nada que ela não saiba.
- Quem o enviou para me matar?

- Não sei.
- E quem está a proteger-me?
- Diga-me você.
Ana levanta-se, está claramente nervosa. Saca de um maço de tabaco da mala, oferece um cigarro a João que aceita prontamente.
- Pode não acreditar, mas estou tão às aranhas quando você. A mim também não me dizem nada.
Ana estaca. Descaiu-se. Abre-se um leve sorriso nos lábios de João.
- Você...
Ana cerra os olhos. Dá uma passa nervosa no cigarro. João levanta-se, aborda-a por trás.
- Você está numa missão também.
João encosta-se a ela, respira na sua nuca.
- Quem é o seu alvo, Ana Casaco?
- Não é tão simples quanto parece.
Já falou. Mas que merda, o que aconteceu ao seu profissionalismo?
Vira-se.
- Não estamos exactamente no mesmo meio, João. Mas pode acreditar numa coisa...
A sua voz é rouca, quente.
- Para mim, a única coisa que importa é o quadro. Mais nada. Para proteger o quadro, não olharei a meios.
Agarra na mala, amarra um lenço sobre os cabelos e põe os óculos à Jackie Kennedy. João sabe que não é o momento de tentar escapar. Os anos naquele ramo ensinaram-lhe que um dia é da caça, outro do caçador.
- Você vai ter de ficar aqui, agora. Mas vai ter notícias minhas em breve. Se se portar bem, posso ver se descubro alguma coisa sobre o meu protector e... a sua mulher.
Leonor. Claro. O Chanel nº 5, a voz rouca e toda aquela história louca de Ana o tinha envolvido de tal forma que a sua mulher tinha passado para o fim da fila.
- Se não puder vir, mando alguém em meu nome.
- Uma das suas irmãs?
Ana já está à porta.
- Irmãs?
- Sim, as duas mulheres ontem... no restaurante?
Ana sorri um meio sorriso misterioso, sem nunca levantar os óculos.
- Ne te laisse pas influencier par la première image. Jamais.
Bate a porta. João ouve três fechaduras a serem encerradas. Está sozinho com Francesca.

sábado, 11 de julho de 2009

TOCA A MEXER MELISSA PREGUIÇA

Ó Corin Tellado de algibeira então a nossa história?
A nossa próxima tem que ser um romance piroso-romântico-erotico-escaldante.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Do Outro Lado da Mira - Na Escuridão de um Olhar

Enquanto os lábios de “Marie” exploravam o interior da sua boca, pequenos alertas começaram a soar dentro de si. Os velhos sinais que sempre o haviam protegido em cenário de guerra e tantas vezes nas suas missões enquanto assassino a soldo, soavam agora mais fortes do que nunca, retesando-lhe os músculos, colocando-o num estado de hiper vigilância e num impulso que não conseguiu conter, afastou de si a mulher que tentava seduzi-lo, levantando-se com uma violência tal que a projectou a ela e à própria mesa pelos ares. Mas estranhamente não ouviu o ruído das garrafas a quebrarem-se, nem tão pouco sentiu o cheiro do vinho derramado.
O olhar turvo, a boca seca, a cabeça tonta indicavam-lhe que não estava no controle da situação e isso tirava-o do sério. Queria correr dali para fora, mas as pernas estavam presas, queria gritar, mas apenas um leve murmúrio se soltava da garganta enfraquecida. Esfregou os olhos raiados de sangue e quando voltou a abri-los já não estava lá ninguém. Encontrava-se sozinho na sala privada do restaurante. A mesa não estava caída no chão, não havia garrafas entornadas, nem o ruído das vozes femininas povoava o ar em seu redor, cada vez mais escasso. Sentia-se sufocar.
Queria juntar as peças do puzzle, raciocinar com clareza, mas antes de conseguir perceber o que lhe estava a acontecer caiu sem sentidos, inanimado no chão pegajoso do restaurante. O seu cérebro gritava ordens de comando ao corpo entorpecido, mas os músculos não lhe obedeciam.
Ouviu uma voz feminina suave que cuspia ordens de maneira firme e segura e sentiu quatro mãos que pegavam no seu corpo inerte, elevando-o no ar. O frio da rua penetrou nos seus pulmões como uma facada e o motor de um carro em funcionamento disse-lhe que alguém aguardava por eles. O som seco de uma mala a fechar catapultou-o para o que julgou ser a sua própria morte. Então morrer era assim? Mas que voz era aquela que continuava a escutar? Que ruído de fundo, que mãos lhe tocavam agora? Só podia ser uma qualquer entidade divina encarregue de o transportar nos braços até ao juízo final.

O som de uma peça para piano de Mozart puxou-o do sono profundo em que havia caído e quando conseguiu finalmente descerrar o olhar e despertar do que lhe parecera o seu próprio fim, uma mulher fitava-o. Cabelos cor de mel, olhar perdido no fundo da alma. Um olhar escuro, cheio de todos os mistérios femininos do mundo. Num flash cada vez mais consciente sentiu a mão de Ana no avião quando passou por ele e reviu na sua mente tudo o que tinha acontecido. O seu olhar demasiado treinado para se deixar enganar lembrou então a subtileza com que o alvo do seu próximo crime passara a mão sobre o seu copo de Whisky pousado na mesinha de refeição.
Mas antes de poder alinhavar as suas próprias conclusões olhou de volta o olhar que o fitava vindo de uma simples pintura e percebeu que estava na presença do famoso Modigliani. A mulher retratada pelo pintor que morrera na miséria estava no mesmo compartimento que ele, desafiando-o, tentando-o, mas ao mesmo tempo, enchendo-o da mais profunda paz. Quem quer que fosse aquela mulher ali pintada valia a pena lutar por ela, disso não restava a menor dúvida.
- A minha bisavó Francesca e antes que me pergunte sim. Fui eu que o dopei no avião.
João virou-se naquela cama improvisada sobre um sofá de veludo e ali estava ela mais uma vez, a mulher que teria que assassinar. Bonita, quase etérea, num olhar em tudo tão semelhante ao do quadro.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Do outro lado da mira: ménage à trois.

João entrou no restaurante que se aprontava para fechar. "Escusez moi monsieur, on ferme... Ah, Senhor João, não me tinha apercebido de quem se tratava! Entre por favor." Paris tem o bom e o mau de se poder encontrar um português em cada esquina. O restaurante estava vazio. Ter-se-ia enganado no restaurante? "Desculpe" perguntou ao empregado enquanto este preparava a mesa "reparei que entrou antes de mim uma mulher, alta, morena, olhos verdes. Não pude deixar de reparar nela...", "Sim!" respondeu o empregado com um sorriso "as gémeas Casaco! São três exactamente iguais e, perdoe-me a franqueza, é o pecado elevado ao cubo!". João não pode deixar de sorrir com a analogia matemática do empregado. "Estão numa sala privada, aqui ao lado. Mas infelizmente temos ordens para não as incomodar. Encontram-se aqui uma vez por semana, ora ao almoço e, por vezes como hoje, pedem que sirvamos o jantar."
João sentiu todo o seu corpo a ficar tenso, pronto para a acção. Se estavam ali as três tinha de encontrar uma maneira de se aproximar delas. Levantou-se e percorreu o restaurante até encontrar a porta que procurava. A placa não deixava dúvidas "Privée",a ao a empurrar encontrou-se na zona de trabalho do restaurante. Percorreu o corredor escuro e deserto tentando aperceber-se de alguma actividade, alguma conversa por trás das sucessivas portas que surgiam ao longo do corredor. Parou ao ouvir risos. Abrandou o passo e a respiração e encontrou a porta que queria. Por segundos, pensou nas suas hipóteses: matar as três e tentar ocultar o facto a Sérgio Andrade até conseguir libertar Leonor ou tentar aproximar-se das Anas e ganhar tempo para tentar sair desta situação. Inspirou fundo e abriu a porta. As três Anas estavam inesperadamente descontraídas! Descalças, com os seus sapatos de salto alto espalhados pelo chão, as camisas desabotoadas, os cabelos presos com as esferográficas "Montblanc". Uma delas massajava os pés da outra enquanto a terceira fumava descontraidamente um cigarro. Sobre a mesa estavam três pratos de moelas e algumas garrafas de "Casal Garcia"! Tratavam-se de portuguesas, seguramente! Apenas após alguns segundos se aperceberam da presença de João que se sentiu esmagado pelos olhares penetrantes daquelas belas mulheres, um intenso raio verde que lhe fez estremecer as entranhas. Gaguejou inconscientemente "Ehhh... Je cherche le toilette... pardon..." Uma das Anas repondeu, com um ar divertido "Estes avecs, sempre um bocado perdidos... Le toilette c'estbas, au fond.". Era a vez de João reprimir um sorriso "Perdoe-me senhora, mas nem só os franceses se perdem! O meu nome é João." As três Anas explodiram numa gargalhada irreprimível e convidaram João para se juntar a elas. João tremia de excitação e sentimento de sucesso.
Chamaram o empregado e pediram mais vinho. Disseram-lhe que se iriam demorar e que não queriam ser incomodadas. João apresentou-se como um banqueiro em viagem de negócios a Paris e elas revelaram que eram empresárias no ramo da transacção de obras de arte. João estava atento e tentava gravar cada pormenor da personalidade de cada uma. Como todas respondiam pelo nome de Ana tentou catalogar cada uma delas pela sua maneira de ser e estar. Uma delas tinha um olhar sensual, penetrante e poderoso. Dela emanava uma sexualidade mal contida e que dava a impressão de poder soltar-se a qualquer momento. Olhava frequentemente para ele com aqueles olhos verdes bem colados à sobrancelha e tocava frequentemente nas mãos e braços de João. Memorizou-a como Emanuelle. A segunda Ana era expansiva, divertida, simpática. Ria-se muito e alto e falava sobre tudo. Parecia estar magnetizada por Emanuelle e trocava olhares sugestivos com ela muito frequentemente. João baptizou-a como Marie. A terceira Ana era a mais reservada. Falava apenas o suficiente e quando interpelada. Parecia estar na defensiva com ele e perscrutava-os a todos com olhares demorados e inquisidores. Passou a ser a Soléne.
As horas escorreram e com elas o vinho. João tentava descobrir a mancha de cabelo que lhe desvendaria a verdadeira Ana Casaco, aquela que era o centro da sua missão. Sem sucesso. Emanuelle estava cada vez mais entusiasmada com o seu novo amigo. Obrigara-o a tirar o casaco e a desapertar a gravata, e os sapatos tinham sido atirados para um canto. "Fazemos isto uma vez por semana, para descontrair do mundo profissional! Mas nunca tínhamos tido um homem nas nossas pequenas festas privadas...". Acariciando o peito de João com as costas de uma das mãos enquanto acariciava os próprios lábios com a outra, Emanuelle aproximou-se de João. Sem aviso puxou pela gravata e beijou-o sofregamente. Marie, a cúmplice, encarregou-se de tirar a camisa de João rasgando-a e logo começou a lamber-lhe o peito. João lutava para não se desconcentrar mas isso era cada vez mais difícil. Já tinha seduzido mulheres para cumprir várias missões mas nunca isso lhe tinha dado prazer. Desta vez o prazer percorria-lhe o corpo, ondas de prazer espalhavam-se a partir de cada toque dos lábios daquelas mulheres. Estava perdido no meio dos jogos daquelas duas amazonas com o cio. Ainda viu o vulto de Soléne a fechar a porta mas desistiu de se manter alerta quando Marie lhe desabotoou as calças e o envolveu num quente e profundo beijo.

TOCA A ANDAR!

MIGUEL NÃO NOS FAÇAS ESPERAR MUITO POR FAVORES :)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Do outro lado da mira - "Napoleon"



Pela primeira vez João tinha dúvidas no seguimento da sua missão, a vida de Leonor estava em risco mas também não queria deixar de desvendar todo este mistério. Três Anas é algo que nunca lhe tinha acontecido.
Apanhou um táxi e pediu para o deixarem no Hotel "Napoleon", era o hotel onde ficava sempre que vinha a Paris, a secretaria do banco tinha sempre o cuidado de o instalar na melhor suite e a sua chegada era sempre muito discreta. Sabia que tinha que ser discreto, por isso optava sempre por ficar no "Napoleon", no caso de alguém do banco tentar falar com ele, sabiam que era ali que ficava sempre. Não queria levantar suspeitas.
Quando terminou de fazer o check-in a recepcionista informou-o que tinha um envelope para ele no seu quarto, que tinha sido deixado logo de manhã.
Estranhou já ter algo à sua espera no hotel, ele próprio só sabia que vinham à algumas horas atrás. Foi encaminhado pelo empregado até à suite 44, e pousou a sua pequena mala em cima da cama. Abriu a janela que dava para o o Arco do Triunfo e sem se sentar abriu o envelope.
Várias fotografias, uma breve apresentação sobre a vida profissional de Ana, os seus gostos literários e musicais. Para ele as três fotografias mais importantes eram as das três irmãs. Por trás de cada uma delas, estava uma breve discrição dos seus feitios, dos seus tiques e também algumas diferenças físicas que eram bem visíveis, o que para ele acabava por ser uma grande ajuda. Descobriu que de todas elas Ana era a única que tinha uma mescla de cabelo louro junto à orelha direita. Era uma mescla muito pequena que nem sempre era visível, principalmente quando ela andava com o cabelo apanhado.
Descobriu através do envelope que lhe tinha sido deixado onde é que estavam hospedadas e começou por programar o seu dia para as começar a seguir.
As horas foram passando e quando deu por isso a tarde já tinha passado, escondeu as fotografias e os documentos dentro do cofre e foi até ao "Le Boudoir" o seu restaurante preferido de Paris.
Chamou o elevador e poucos segundos depois as portas abriram-se. Entrou e tentou disfarçar a sua admiração. Ali ao seu lado estava uma das Anas, não conseguiu distinguir qual delas era, olhou atentamente para o cabelo mas nada da tal mescla, ouviu com atenção a conversa que esta estava a ter ao telefone. « Sim, vou ter contigo ao "Le Boudoir" mas olha que eu acho que eles só servem refeições ao almoço...está combinado...até já então».
João ficou espantado, sem saber ela iria jantar ao mesmo restaurante que ele, era a oportunidade que ele teria para descobrir mais sobre elas e criar a oportunidade ideal para finalizar a missão.

Do outro lado da mira - no aeroporto

João aperta o passo em ziguezague, fintando aquela gentinha anónima de aeroporto. Foda-se para isto, pensa, posso estar em Banguecoque ou em La Paz, gentalha de aeroporto é tudo a mesma coisa, carinhas bovinas a olhar painéis. Não se deixa irritar muito desta vez, ora porque o Xanax que usou para acalmar a taquicardia ainda canta, ora porque não pode perder o rasto à morena que o interpelou no voo. É incrivelmente parecida com o seu alvo, mas como seria isso possível? Acorda, João, Não seria. Merda do ar dos aviões, até alucinações dão.
O telemóvel toca. Leonor. Leonor e os seus timings perfeitos.
- Leonor, estou a caminho de uma reunião importante, podias deixar isso para...
- A Leonor está bem.
João não reconhece a voz àquele homem, mas sabe exactamente quem é.
Sérgio Andrade. Seja esse o nome de uma pessoa ou uma organização.
- Vai-me dizer o que devo fazer para ela continuar bem, não é?
- O mesmo humor de sempre, João.
Ok, já estamos a fazer progressos. É alguém do passado.
- A mulher do avião? Esquece-a.
- Então é mesmo a tal...
- É mesmo a tal de quem a vida da tua mulher depende. É a tal que te tem pelos tomates, portanto. Esquece-a.
João olha para um lado, olha para o outro. Não sabe da mulher do avião.
- Não será difícil, já a perdi.
- Os vossos caminhos vão voltar-se a cruzar. E tu, João, vais-te desviar dela.
João tem um ar de riso. Claro que não era só um quadro.
- Como é que sei que não clonaram o telefone da Leonor? Quero uma prova!
- Sempre soubeste identificar bluffs, João.
João suspira. É verdade.
- Quando tivermos o Modigliani, terás a tua mulher.
Desligam.
O quadro, outra vez. Seja o que for, aquela mulher e aquele quadro parecem ser duas faces da mesma moeda. Do mesmo conceito.
E, de repente, Ana reaparece. Tem agora uma maleta preta e dirige-se à porta de saída. João caminha em passos firmes sem desviar o olhar. Ela passa a porta giratória. Segundos depois, ele também. Quase tropeça num mendigo que está ali sentado com um pratinho de moedas.
E lá, encostada ao Mercedes preto, está outra Ana. Vestida exactamente com o mesmo tailleur escuro.
João esfrega os olhos.
A Ana do avião cumprimenta a outra com um beijo demorado nos lábios. A porta do condutor abre-se e sai de lá outra mulher.
Outra Ana. Idêntica.
Trigémeas.
Depois dos cumprimentos rápidos, entram as três no carro e partem.
João está atónito.
Qual delas será o seu alvo? Se falhar, é banido do "Banco". Se for bem sucedido, perde Leonor.
Precisa de beber um café para aplacar o efeito do Xanax e pensar em tudo isso. Ao passar pela porta giratória, sente uma mão a agarrar-lhe o tornozelo. É o mendigo.
- Quoi qu’il arrive... Ne te laisse pas influencer par la première image.
João olha-o. Mas que diabo...
- Quelle image?
- Pense deux fois.
O mendigo larga-o. Pela primeira vez em anos de profissão, João sente-se encurralado.

E a equipa continua a aumentar!!

Na verdade são 2 novos membros!! As boas vindas à Clementine...

domingo, 5 de julho de 2009

Novo Membro na Equipa

A partir de hoje temos mais um membro nesta equipa blogonoveleira.
A Melissa, minha colega de trabalho e amiga vai-se juntar nesta viagem um bocadinho alucinada iniciada por dois perfeitos desconhecidos que se juntaram por empatia de escrita.
Tenho a certeza que vamos ficar surpreendidos com a contribuição de mais uma alminha iluminada (até parece que é um blogue erudito).
Miguel, como é que é? E se deixássemos a Melissa dar um pézinho de dança já "No outro lado da mira?". A ver se o blogue não anda tanto tempo parado.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Do Outro Lado da Mira - Insegurança


À medida que o avião deixava para trás Lisboa, juntamente com a sua vida incógnita na capital. João começou finalmente a descomprimir, como se a altitude de alguma forma o ajudasse a deixar em terra todos os sentimentos de culpa que começavam lentamente a assaltá-lo.
Tirou a fotografia de Ana do envelope de papel pardo e olhou mais uma vez a mulher morena, de olhar esverdeado e fundo, que parecia falar com ele através da imagem.
Pela pesquisa rápida que fizera, o tal quadro de Modigliani que se encontrava na sua posse havia estado exposto na National Galery of Art em Washington D.C.
Fora gentilmente cedido por ela a pedido da galeria, mas passados 10 anos ela decidira levá-lo de novo para a cidade que o vira nascer como artista, Paris.
Respirou fundo e olhou as restantes indicações na sua agenda. Galeria de Arte na Rue du Bac. Era aí que o quadro estava agora exposto, juntamente com toda a colecção privada daquela mulher de olhar misterioso.
Porque é que simplesmente não tentavam subtrair o quadro? Porquê matar a dona do mesmo? Subitamente tudo lhe parecia demasiado frívolo. Matar alguém por causa de um quadro?
Ele nunca se debruçara sobre os motivos por detrás das ordens que recebia, mas desta vez experimentava uma sensação nova. Era como se a sua consciência começasse a despertar de um sono profundo. As palmas das mãos suadas denunciavam a insegurança, a boca seca revelava a falta de palavras que justificassem o que estava prestes a fazer com aquela mulher.
Desapertou o botão do colarinho e fechou os olhos, tentando recuperar a sua velha frieza.
- Sente-se bem? – Aquela voz suave fez com que abrisse de novo os olhos e quando o fez percebeu que tinha à sua frente, de pé no corredor do avião, uma mulher de cerca de 40 anos, olhar esverdeado e seguro, cabelos morenos.
- Medo de voar, apenas isso. – A voz saiu-lhe com a sua fiel firmeza, assumindo um tom neutro.
Ela sorriu-lhe e seguiu caminho até ao seu lugar.
Ele inspirou e expirou, inspirou e expirou numa tentativa vã de controlar o seu estado de ansiedade. Quais seriam as probabilidades de viajar no mesmo avião que a mulher que teria que assassinar?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Do outro lado da mira: Ana.

Baixou-se calmamente e apanhou o envelope. Olhou para Leonor que ficou muda. A sua pele estava ainda mais branca do que era o normal, o olhar perdido mas com laivos de desafio. Sem nada dizer, João colocou o envelope na sua gaveta original, fechou-a e retirou a chave. Leonor sentia a dureza do seu olhar enquanto colocava a gravata, vestia o casaco e se retirava. Estremeceu com o bater da porta, bater esse que a fez estremecer e sair do transe em que estava mergulhada.
João entrou no seu carro preto, descaracterizado, de vidros fumados e sem sinais particularmente distintivos. Ligou o sistema de comunicações do carro e ouviu-se o sinal de um telefone que tocava algures. Do outro lado uma voz feminina, intensa e cheia de personalidade, respondeu: "João, meu querido!! Muitos parabéns, a ultima missão foi um sucesso! O cliente ficou muito satisfeito. Mais uma vez encontrarás os teus honorários na conta designada. Está tudo bem contigo?" Esta última frase vinha cheia de segundas intenções, levemente provocadora.
"Deixe-se de tretas Chefe... recebi a foto do próximo alvo. Uma mulher? Não é muito comum... qual é a história?"
"Ah... sim! Ana... Ana Casaco. É uma especialista e coleccionadora de arte, principalmente quadros. O nosso cliente deseja uma peça que está na sua posse mas ela está renitente. Uma obra de Modigliani... mas enfim, não interessa. O que interessa é que o nosso cliente não está nada satisfeito com o comportamento dessa senhora e deseja que ela desapareça."
"Assim? Quer vê-la morta por causa de um quadro??"
"Bom... esse quadro vale muito dinheiro e o nosso cliente gosta de dinheiro..."
"Não quero saber. As coisas estão prontas?"
"Encontrarás tudo o que precisas no banco. Quando foi a última vez que estiveste em Paris?"
"Adeus." João desligou o telefone.
Estacionou o carro em frente ao Banco. Um empregado levou o carro para as entranhas do prédio. Era um prédio enorme, secular, na baixa, rodeado de monumentos. Tinha um ar austero e inacessível mas estava impecavelmente limpo o que o destacava do negrume dos prédios públicos que o rodeavam. A entrada imponente dava acesso a um enorme átrio com um chão de mármore imaculado mas vazio. Os passos ecoavam pelo espaço percorrendo as enormes colunas trabalhadas até ficarem aprisionados nas abóbadas do tecto decorado com pinturas de temas renascentistas. Ao fundo, um empregado fardado com um uniforme carmesim recebeu João com um caloroso "Bom dia Dr.!" a que ele respondeu com um sorriso e um ligeiro aceno com a cabeça. Entrou no elevador e saiu no último andar, um andar de acesso restrito onde só ele trabalhava. Tirou o casaco e desapertou a gravata. Em cima da secretária um envelope. Saiu para o enorme terraço e sentou-se á mesa enquanto um empregado lhe trazia o seu pequeno almoço. Esperou que ele saísse e abriu o envelope. Um bilhete de avião para o aeroporto Charles de Gaulle, só de ida, um passaporte e uma foto de Ana. A sua missão estava lançada mas uma coisa o intrigava: quem era Sérgio Andrade? A agência não encontrara nada acerca deste nome.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Do Outro Lado da Mira - Desconfiança

Leonor deixou-o entrar na casa de banho e assim que o ouviu ligar a água do duche correu para o quarto. Vestiu o seu suave roupão de seda e abriu a gaveta do armário. Tinha que ser rápida. Sabia onde ele guardava a chave da secretária. A chave que ele nunca largava, que levava sempre consigo.
Sentiu a superfície gelada da chave na sua mão enquanto corria até ao escritório. O seu coração acelerado, todos os seus instintos alerta. Assim que deixasse de ouvir a água do duche tinha que devolver a chave ao seu devido lugar.
Ela tinha que abrir a gaveta mistério. Alguma coisa lhe dizia que era ali que João escondia o que quer que andasse a esconder.
O seu coração feminino nunca se enganava e ela tinha a certeza que o marido a traía. Nunca mais lhe tocara, nunca mais a olhara como um homem deve olhar uma mulher. Andava brusco, impaciente, irascível. Isso só podia querer dizer uma coisa...
A mão trémula conseguiu encaixar a chave na pequena fechadura e ao abri-la, nem ela própria estava preparada para o que se revelava do seu interior.
Pegou na primeira fotografia que repousava sobre o extenso molho. Uma mulher de traços nobres, sofisticada, sorria para a câmara, como se a namorasse. Ela abafou um pequeno grito quando leu a mensagem escrita nas costas da fotografia.
" Tua Até à Eternidade"
Leonor colocou a fotografia sobre as outras e virou a sua atenção para um pequeno envelope escrito com uma caligrafia muito feminina.
Ao Cuidado de Sérgio Andrade.
- Sérgio Andrade? - Pensou e repensou aquele nome, tentando encontrar algum sinal na sua memória que lhe dissesse que o conhecia. Mas uma voz interrompeu o seu pensamento:
- O que é que pensas que estás a fazer Leonor?
Ela deixou cair o envelope e olhou o marido num misto de culpa e incredulidade.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Do outro lado da mira.

João acordou a meio da noite. A pele suada e fria, as mão tremendo e o coração a bater. Saiu da cama devagar, não queria acordar a mulher que dormia com ele naquela noite. Precisava de beber água e dirigiu-se ao frigorífico. Não era capaz de beber água que não fosse gelada. A garganta seca exigia-o. Enquanto enchia lentamente o copo, a sua mente fazia-o reviver o que se tinha passado umas horas antes. A respiração ofegante, a adrenalina de perseguição, o braço esticado empunhando a pistola, o coração a bater lentamente, o premir do gatilho exactamente num espaço entre dois batimentos cardíacos, o barulho abafado do tiro, o sangue projectado contra a parede, o morto com a cabeça estilhaçada. "Até parece que é a primeira vez que o fazes..." pensou de si para si. Já não consegui lembrar-se de quantos "clientes" tinha despachado, mas também não era importante. Fazia o trabalho, era bem pago, nunca seria apanhado.
Não conseguia dormir, por isso foi para a sala ver televisão. Acendeu as luzes com um bater de palmas. Vivia numa casa grande, com todos os luxos mas essencialmente prática. Ligou o enorme ecrã LCD e afundou-se no sofá branco de genuína pele, design italiano. Nada de novo nas notícias. A crise, o desemprego, os crimes dos multibancos, um homicídio, um corpo nas ruas. Os seus lábios desenharam um sorriso misto de orgulho e escárnio. Nada sobre o seu trabalho. Resolveu que precisava de dormir. Apagou a televisão e foi até ao pequeno ginásio. O exercício ajudava-o a relaxar e logo, a adormecer. O seu tronco era bem trabalhado, os abdominais definidos, o peito firme de ombros largos e braços robustos. Contudo havia várias cicatrizes que revelavam a dureza da sua linha de trabalho. Uma cicatriz grande e linear que começava junto ao umbigo e terminava quase junto à coluna denunciava uma intervenção cirúrgica demorada e que, provavelmente o colocara em risco de vida, como aliás o devia ter feito a situação que levou a essa intervenção. Depois havia sinais de lesões por balas e arma branca. Correu uns largos minutos no tapete e passou para os abdominais. A sua cabeça continuava povoada com as imagens do seu último trabalho. Afundado nos seus pensamentos, não se apercebeu da mulher que entrara no ginásio. Estava completamente nua e sorria "Se querias gastar energias, há outras maneiras de o fazer... juntos!". Ele levantou-se e disse-lhe secamente "Por favor... vou tomar um banho." Enquanto o via percorrer o corredor ela não conteve um comentário em voz baixa: "Mas porque raio precisa um gerente bancário de tanto exercício?".

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Parabéns Sr. Enfermeiro!

Chamem-me excêntrica, mas o meu comentário ao grande final da Alzira vem em forma de Post. Às vezes parece que me esqueço que posso escrever aqui mais do que histórias. Por isso hoje decidi escrever um elogio. Acho que é merecido.
Miguel seu enfermeiro tantas vezes desanimado que apela ao espírito criativo para que lhe valha:
Eu acho que ele te valeu.
Tens-te vindo a revelar de história para história como uma espécie de criativo nato que não cansa de surpreender. Mas acho que este desfecho com cheiro a enxofre superou todos os outros.
Muito embora a imagem da Alzira a sexar com uma garrafa térmica vá povoar os meus pesadelos nos próximos tempos, foste mais do que criativo. Ou então tens uma mente diabolicamente retorcida e andas a cheirar éter pelos corredores do hospital :)
PARABÉNS!
E já sabes, quem lança a próxima história és tu.

Eu quero matar a minha mulher: agora sim, o fim.

Prudêncio chegou ao hospital já cadáver. O comentário mais profundo que fizeram à sua chegada foi "Porra que cheira a porco queimado!". Nem na morte aquele homem parecia inspirar particular respeito ou admiração. Alzira estava zangada. "Maldito homem, nem morto me dá descanso... agora tenho que andar a caminho do hospital por causa dele. E o dinheiro que vai custar o enterro..." Ainda sugeriu ao médico que queimassem o corpo mirrado de Prudêncio juntamente com os lixos do hospital... sem sorte.
O enterro foi simples e solitário. A imagem fiel da vida do homem. Alzira, o padre e dois homens que costumavam trocar dois dedos de conversa com Prudêncio, que lá estiveram por compaixão do que por amizade. A alocução do padre acerca do morto foi interrompida com um "Despache lá isso. " disparado secamente por Alzira, que nem esperou que o caixão descesse à terra para se retira. Voltou para casa com um sorriso nos lábios "Enfim, livre! Livre daquele traste inútil, de um homem sem força da braguilha, um desgraçado que só me trouxe trabalho." Entrou em casa triunfante e inspirou profundamente. Abriu um sorriso (coisa rara!) que revelou a boca negra e com apenas três ou quatro dentes esburacados e amarelos. Sentiu o cheiro da cozinha queimada e amaldiçoou Prudêncio uma vez mais. Caminhou pesadamente pelo corredor cujas tábuas velhas e bolorentas cediam e rangiam a cada passo, observando os seus cacarecos de cristal e porcelana, os seus naperons poeirentos, as imagens de santos e quadros com paisagens ou naturezas mortas pendurados aleatoriamente pelas paredes e chegou ao quarto. Deitou-se exactamente a meio da cama, como se reclamasse finalmente para si o espaço partilhado durante tantos anos, e adormeceu.
Acordou com o sol da manhã a bater-lhe nos olhos e berrou: "PRUDÊNCIO! PRUDÊNCIO? Raio do hom..." a lembrança da morte do marido bateu-lhe inesperadamente forte demais. Levantou-se e foi preparar o pequeno-almoço. Na cozinha semi-destruída preparou um café e um naco de pão torrado. A cada movimento se lembrava dele. Bateu com a palma da mão na testa "Esta agora... acorda mulher!" Saiu de casa e logo os vizinhos se apressaram a apresentar as suas condolências que se revelaram bem mais dolorosas do que ela imaginara. Passou um dia triste e cinzento. Prudêncio fazia-lhe falta. Não podia dizer que o amava. Nunca o amara, mas foram anos de convivência e partilha e ele nunca a tratara mal. Prudêncio era o seu animal de estimação, o seu cãozinho irrequieto a quem pontapeava e dava com o jornal, mas que nunca lhe rosnava e voltava sempre para ela. Além de que, sempre lhe dava algum prazer... não que fosse um animal sexual mas ela, embora não o confessasse, nunca tinha deixado de ter um orgasmo. Fraquitos é certo, mas mesmo assim vinha-se sempre! Ao regressar a casa sentiu-se sozinha. Aquele velho T1 parecia-lhe agora enorme e os seus passos pareciam agora ecoar por toda a casa. Ao jantar, deixou praticamente toda a comida no prato. Não tinha apetite e cozinhar nunca tinha sido o seu forte. Prudêncio tratava disso por ela e, diga-se que os pratos vinham sempre bem apaladados.
Sentou-se ao sofá a ver a novela. Os actores principais beijavam-se loucamente enquanto se despiam e, atabalhoadamente, se dirigiam para o quarto. "Ai, Prudêncio, Prudêncio. Sempre me fazes alguma falta afinal..." suspirou. A imagem de Prudêncio assaltou-lhe a mente. Aquela postura sempre submissa e com medo de levar um tabefe, as mão entrelaçadas junto ao peito, os olhinhos de cachorro medroso atrás daqueles óculos que só aumentavam a pena, os dentinhos de ratinho a espreitarem por cima dos lábios fininhos despertaram-lhe saudade. E um arrepio no fundo das costas. Alzira sabia o que isso significava mas Prudêncio não estava ali para lhe apagar o fogo "nos entrefolhos", como ela dizia. Fechou os olhos enquanto pensava nele e, acto contínuo, afundou a sua grande manápula por entre a gordura das coxas que sempre lhe faziam lembrar aquele boneco que tinha recebido de uma oficina, há uns anos atrás. Afastou as pernas e colocou a mão por cima da "boca do mundo". Estava quente e molhada. Estremeceu ao enfiar dois dedos dentro de si mesma mas logo recuou. "Ai meu Deus! Que grande pecado... perdoai-me Senhor", benzeu-se mas o toque daquela mão húmida a cheirar a luxúria carnal só lhe aumentou a vontade. Voltou a colocar a mão entre as coxas que ondulavam ao ritmo do movimento frenético da mão. Esfregava vigorosamente e enfiava os dedos no seu buraco. Primeiro um, gemeu. Depois outro. O terceiro -la abafar um pequeno grito. "Só mais um..." e os quatro dedos penetravam nas suas mais recônditas entranhas. "Prudêncio... quem me dera que aqui estivesses... sempre me preenchias mais que isto, se bem que nunca to disse... ai, Prudêncio..." ofegante e suada, decidiu que as suas mãos não eram suficientes para lhe satisfazer o desejo. Esfregando-se enquanto andava pela casa, procurava algo que lhe enchesse as medidas do prazer. Abriu gavetas e armários, no quarto, na sala, na casa de banho. Percebeu o que precisava assim que o viu: uma velha garrafa térmica que jazia esquecida no fundo de um armário da cozinha. Aquela tampa em forma de bola-cortada-a-meio tinha um aspecto sugestivo. Não pode deixar de sorrir ao constatar que aquela garrafa era a cópia exacta da picha circuncidada de Prudêncio, muito embora em ponto grande. "Tanto melhor!" pensava enquanto de deitava no sofá com as pernas o mais afastadas que era capaz. O frio da garrafa ao penetrar naquele túnel quente arrepiou-a mas logo passou. Começou devagar, a medo, nunca tinha feito aquilo e temia magoar-se mas as dimensões e o laxismo dos seus músculos pélvicos logo lhe exigiram mais vigor. Acelerou os movimentos e esforçou-se por se lembrar da cara de Prudêncio quando fodiam como cães. Lembrou-se e urrou de prazer. Mais rápido e ela sentia o desfecho a aproximar-se com a imagem de Prudêncio a aumentar de nitidez na sua imaginação. Os olhos pequenos fechados vigorosamente, pequenas gotas de suor a escorrerem pela careca e os lábio unidos com os dentes a morderem o inferior. Alzira combinou os movimentos de vai-vem da garrafa com movimentos circulares e capitulou! Gritou de prazer como nunca o tinha feito e veio-se. O seu corpo contorceu-se, tremeu e caiu do sofá. A luz apagou-se.
Alzira acordou num local desconhecido. Olhou em volta e não viu nada mais que montanhas despidas de verde. Estava numa escarpa, de um lado o vazio e do outro a entrada para uma caverna. À porta da caverna reconheceu um vulto magro e curvado sobre si mesmo. Poderia ser ele? Avançou em direcção à caverna, lentamente, como se receasse o seu destino. O vulto saiu das sombras. "Prudêncio?"
"Sim Alzira. Sou eu."
"Onde estamos? Que cheiro é este? Prudêncio... perdoa-me... senti a tua falta."
"Eu sei Alzirinha. Este cheiro de que falas é enxofre e esta é a nossa nova casa. Vamos entrar?"
"Sim Prudêncio. Vamos entrar!"
"Isto é uma descida longa e íngreme... não te assustes."
Avançaram juntos em direcção às trevas.
Uns dias mais tarde uma vizinha foi ver da Alzira. Não era normal tantos dias sem sair, por muito que estivesse de luto pelo marido. Encontrou-a morta no chão, pernas escancaradas com uma garrafa térmica enfiada nas partes baixas. O falatório não tardou e deu conversas durante algumas semanas. O tempo para a autópsia revelar a causa de morte: ruptura de aneurisma cerebral com hemorragia maciça após esforço e tensão muscular intensa. Morte imediata.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Eu Quero Matar a Minha Mulher - Fim (ou nem por isso?)

Prudêncio passou a tarde inteira a pesquisar formas de o inodoro monóxido de carbono penetrar nas vias respiratórias da vaca que dormia no quarto, ainda amarelada pelo veneno fora de prazo. Desse por onde desse, aquele animal teria que sair da sua vida. Tudo à sua volta desaparecera para dar lugar apenas ao propósito de matá-la. Nada mais importava. Vê-la morta, de língua pendente, pupilas dilatadas. Ver-se livre da voz, da pele pegajosa, do cheiro húmido daquele traste era a motivação para continuar a respirar.
Não falharia. Observou o esquentador, comprado há pouco tempo e por isso, pouco atreito a avarias mortais. Provocar-lhe uma avaria certamente deixaria rasto. Teria que ser de outra forma. Abriu e fechou os bicos do velho fogão, a porta do forno e enquanto ligava o gás de um dos bicos foi levantado do chão pela voz que o enojava até às entranhas.
- A minha canja seu imprestável? É preciso ir aí aviar-te seu paneleiro?
Prudêncio respondeu com a voz mais serena que conseguiu:
- A canja está a cozinhar!!! – Mal sabes tu a canja que te vou fazer minha vaca, ruminou de si para si.
Enquanto pensava que seria a última vez que aquela megera gritaria ordens na sua direcção sentiu um forte murro na nuca. Alzira levantara-se desconfiada e ao verificar que não havia canja ao lume praticamente espumava de raiva.
- Seu inútil careca de merda que nem uma porra de uma água com frango e arroz metes no lume! És pior que uma galinha depenada. A minha canja?!!!!!! Queres-me matar?!!!! Não vês que estou desarranjada da tripa? - Um forte ruído vindo do interior da gigantesca pança da mulher deu o toque final ao seu discurso. Ela continuava pontapeá-lo, a esbofeteá-lo, como se isso de alguma forma a pusesse melhor.
- Ai pára, pára. Falta-me o frango. Não queres canja sem frango, pois não? Deixa-me sair que o vou comprar! Ai! A voz de Prudêncio era de puro desespero.
As lágrimas de humilhação e dor caíam sobre o rosto oleoso de Prudêncio. Alzira olhava-o implacável:
- Se demoras mais de 15 minutos a ires ao talho do Vítor e voltares, vou-te buscar e vens de rastos.
Prudêncio virou costas e fugiu porta fora. As lágrimas mal o deixavam enxergar o caminho à sua frente. Sentou-se no banco de jardim e chorou de puro ódio. O tempo passou e à medida que se ia acalmando um pânico crescente bem no fundo do pensamento saltou para a frente dos seus olhos. Com a confusão, deixara o bico do gás ligado. Alzira certamente nem notaria o gás a espalhar-se pelo apartamento. Meu Deus, o que é que fora fazer? Não podia ser assim. Não era o que tinha programado. A canja, ela tinha que comer a canja. A culpa seria dele, o que faria com tamanha culpa? O que faria sem Alzira?
Levantou-se do banco de jardim e cego de pânico correu até ao velho prédio onde sempre morara com aquela que era, apesar de tudo, a sua mulher. Tinha que a salvar.
Enquanto subia as escadas de madeira gritava:
- Alzira eu estou a ir, não te enerves comigo! Eu não fiz por mal!
Abriu a porta do apartamento mal iluminado e sem pensar duas vezes ligou o interruptor da luz. A última coisa que ouviu foi um enorme estrondo que o ensurdeceu e uma luz tão intensa que o cegou para sempre.
Enquanto era consumido pelas chamas que engoliam a casa juntamente com o seu pequeno corpo. Conseguiu ainda ouvir as vozes dos bombeiros e sobre as vozes na rua, uma que se impunha sobre todas as outras:
- Aquele traste pegou fogo à casa.
Foram estas as últimas palavras que ouviu antes de partir em direcção à luz reconfortante e serena.
Uma frase saiu ainda da sua boca retorcida pelas chamas:
- Desculpa Alzira, não fiz por mal...