Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

sábado, 29 de agosto de 2009

O Palpitar da Paixão: num quarto esconso.

"AIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!"
Num quarto escuro e esconso uma mulher gritava de dor. Gotículas de suor teimavam em formar-se na sua testa muito embora já todo o corpo estivesse húmido e escorregadio. Esta mulher estava acompanhada por uma outra, velha, mão sujas de sangue, olhar apreensivo. Apoiada nos joelhos flectidos daquela mulher deitada à sua frente, a velha forçava as pernas contra a barriga proeminente enquanto gritava:
"FORÇA!! FAZ FORÇA AGORA EMÍLIA!!! JÁ VEJO O BEBÉ!! FOOOORÇA!"
Uma pequena e ensanguentada cabeça anunciava-se através da vagina de Emília. Ficou preso naquela posição mas, após mais um grito de desespero da parturiente, o bebé conseguiu finalmente dar o seu primeiro suspiro fora de água. Quando a velha parteira o puxou para fora do ventre materno já a pequena criatura anunciava, aos berros, a sua chegada ao mundo!
"É uma menina Emília... uma linda menina!" anunciou a velha enquanto colocava a bebé ainda suja de sangue e de uma mistela verde-acastanhada no regaço da sua mãe. Mas esta não reagia. Não abraçou a sua filha, não chorou a sua chegada. Estava pálida, imóvel, os lábios negros. No meio de tanta preocupação com a menina, a velha não se tinha apercebido do estado de Emília. "Oh meu Deus, meu Deus, ajudai-me nesta aflição". O sangue vermelho vivo jorrava imparável por entre as pernas de Emília. O cordão umbilical rompido percorria o caminho de volta para as entranhas de Emília. A velha puxou, o resto do saco ficou dentro do útero de Emília e impedia que este se contraísse e contivesse a extensa hemorragia. A velha fez tudo ao seu alcance mas este era demasiado curto para valer a Emília. Estava morta. A velha tapou o corpo pálido e frio de Emília. Limpou a bebé com um pano limpo e olhou para um canto escuro daquele pequeno quarto. Uma pequena menina brincava com uma velha boneca de trapos, suja e já sem cabelo, aparentemente alheia a todo aquele cenário. "Vamos Virgínia, vamos embora." A bebé olhou para a velha, dirigiu-se a ela e dando-lhe a mão, saíram do quarto.
Após o funeral, a velha dirigiu-se ao velho orfanato. Uma freira com ar sereno e doce acolheu-a com bonomia. Recebeu a bebé nos braços enquanto Virgínia se escondia atrás das saias da velha. A boa freira baixou-se e sorriu-lhe. A velha empurrou-a suavemente e Virgínia deu a sua mão à mão estendida da freira. A velha virou costas e disse: "Essa chama-se Virgínia. A bebé não tem nome."
"Laura. Chamar-se-á Laura."
As meninas cresceram sem nunca saberem o seu parentesco. A velha e seca Madre-Superiora assim tinha determinado. Mas desde cedo as meninas se aproximaram. Andavam juntas, comiam juntas, dormiam juntas e eram castigadas juntas porque juntas faziam as travessuras de meninas. Quem as via tão juntas, tão cúmplices, tão felizes na companhia uma da outra dizia que, se fossem irmãs eram perfeitas uma para a outra. Os anos passaram. Juraram que sairiam juntas daquele cárcere. Juraram que seriam companheiras até ao final da vida, que encontrariam maridos juntas e que em casas juntas viveriam. No dia em que Laura viu Gina a abandonar o orfanato pela mão de tão distinto homem algo dentro dela mudou. As lágrimas corriam-lhe pela face mas não as sentia. Tornou-se indomável e destruidora. A destruição que tinha tomado conta dela estava a alastrar-se para fora de si mesmo. E sentia-se estranhamente atraída pelo fogo. Uma série de pequenos incêndios aconteceram então no orfanato e Laura encontrava-se sempre envolvida. Embora não se lembrasse de alguma vez ter ateado o fogo, era constantemente encontrada inconsciente nos locais ardidos. Até que acordou um dia no meio de um grande incêndio no seu quarto. Estava atordoada, não sabia o que se estava a passar. Desesperada, saltou pela janela em chamas e caiu desamparada na rua das traseiras do orfanato. As freiras gritavam e corriam desordenadamente em todas as direcções. Laura viu a sua liberdade ao esticar da mão e agarrou-a. Fugiu para não mais ser encontrada.
Marcada pelo fogo no seu abdomén, parou e desmaiou junto a uma casa simples. Uma mulher viu-a e acorreu em seu auxílio. Tratou dela até Laura acordar. "Não te preocupes minha menina... qual é o teu nome?"
Com uma voz fina e trémula, Laura respondeu: "Constança... o meu nome é Constança."

6 comentários:

Nuvem disse...

lindo!!!
adorei, como sempre :)
o verdadeiro escritor!!!

Melissinha disse...

haha GANDA MIGUEEEEEL!!!!
A pornochanchada virou um Lynch.

Ana C. disse...

Então e a nossa pornochachada foleira? Andamos a esquecer-nos de escrever para dona de casa com calores Miguel. Isto está a ficar com nível e não pode ser...
Boa história, só é pena que a Constança esteja de miolos abertos lá em baixo.
Eu não vou tocar na história enquanto estiver com o escalpe queimado, por isso se quiserem adiantar-se, força!

Miguel disse...

A Laura/Constança pode ter morrido (morreu?) mas há muitas maneiras de Virginia descobrir a verdade...
E sim, começa a ser hora de voltar ás quecas religiosas!! Desculpa subir o nível, é um defeito que tenho...
E desde quando é que escalpe esturricado impede escrita??? Anda mas é trabalhar!!!

Melissinha disse...

Eu acho giro as evoluções, mas sim, mais sexo, vá!
Só volto cá ao sítio lá para o dia 8!

Ana C. disse...

Escalpe frito igual a férias :)