Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Palpitar da Paixão - Olhos nos olhos

- Não adianta esconder-se, Constança... não adianta!!! Achava que eu não me ia lembrar?
Constança olha para os lados, entre os estampidos secos da porta. Maldita sejas, Gina, maldita! A porta vibra com as pancadas.
- Pelo poder da Hóstia Consagrada, Deus há-de me dar forças para derrubar essa porta!
Constança está encurralada. O seu maior segredo, aquilo que levaria com ela para o túmulo, fora trazido para a luz do dia. “Que idiota”, pensou. Mas a culpa era toda dela. Afinal, pesquisara durante quase todo o ano passado sobre o paradeiro de Virgínia Pureza. Fora a cartórios, notários, revirara prateleiras e prateleiras de arquivos paroquiais nas suas horas vagas. Na ausência de pistas, usara as suas parcas economias para contratar um detective particular, que finalmente resultou em alguma coisa.
Descobrira que Virgínia havia sido adoptada por um bom homem, viúvo já com filhos, muito parecido com o próprio Se. Netherfield. Descobrira também que Virgínia casara pouco mais velha que uma adolescente e que trabalhara em duas empresas... duas empresas cujos escritórios em que Gina trabalhara arderam por completo em “circunstâncias não esclarecidas”, segundo o relatório da Polícia, mas que havia fortes indícios de fogo posto.
- Abra já esta porta, Constança! IMEDIATAMENTE!

A voz dela acompanhava o crescendo de força com que ia batendo à porta. Constança engole em seco. Levanta-se e caminha em direcção à janela. “Mas encontrei-a, por fim. Por fim, encontrei-a”, pensa.

A porta abre e lá está Gina, com fogo nos olhos. Constança, nua, vulnerável, encostada contra a janela daquele terceiro andar, só consegue murmurar.
- Por fim encontrei-a, Virgínia.
- “Virgínia”?
Gina dá uma gargalhada enlouquecida. Solta os cabelos que caem pelos ombros, atira-os para trás e caminha bamboleante em direcção a uma assustada Constança.
- “Virgínia”? Estás a falar daquela totó que se escondia por baixo das saias das freiras?
Gina encerra Constança contra a parede, entre as suas duas palmas.
Sem escapatória.
- A Virgínia morreu num incêndio.
- Não... não... a Laura é que morreu, Virgínia. A Laura, não tu. Eu sei... eu tenho aqui as provas, se me deres um momento...
Gina aproxima a sua boca da de Constança, e é num sopro quente e doce que sussurra.
- Não me chames Virgínia.
Começa a explorar-lhe o pescoço... as orelhas... a queda do ombro.
- Virgínia, por favor, não... se soubesse quem eu sou...
Uma pequena mordida no lóbulo. Alguma dor.
Gina traz uma gota de sangue nos lábios e duas gramas de ódio nos olhos.
- Não me chames Virgínia quando sabes o meu nome.
Constança está apavorada. Pior que apavorada, está a sucumbir àquela mulher voluptuosa que explora os seus seios com a ponta da língua de forma precisa, quase cirúrgica, sem nunca tirar da parede as palmas das mãos.
Virgínia desce. Desce para o sul do corpo de Constança, degustando de cada centímetro da sua pele de leite, das suas gotículas de suor e de culpa.
E é a Sul que o pecado mora.
A respiração de Constança é ofegante, mas não vai deixar que os anos de solidão a deixem cometer o maior sacrilégio da sua vida.
E é quando Gina chega com os seus lábios aonde nenhum outro homem chegou, que Constança grita, vencendo-se a si própria. Puxa Gina para cima.
- Virgínia, não podes fazer isso! Não podemos fazer isso! Tu disseste que sabias quem eu era, mas pelos vistos, estás enganada! Eu não sou quem pensas, não sou!!! Eu...
- EU JÁ DISSE PARA NÃO ME CHAMARES VIRGÍNIA!!!
Num impulso, Gina agarra aquela frágil mulher pelos pulsos e, num único movimento, atira-a pela janela fora.
A queda é lenta. Muito lenta.
Gina segue Constança com o olhar até que o seu corpo caia, sem fazer qualquer barulho maior que um fardo de feno, no chão.
De olhos abertos. Fixados nos seus.
E, num longo abrir e fechar de olhos, Gina acorda.
Olha para baixo, onde vários empregados já cercam o corpo de Constança. "Foi a Sra. Netherfield, valha-me Deus..." "Foi o fantasma da falecida, não fico aqui nem mais um segundo..." "O Daniel? Alguém chama o Daniel?"

Gina está petrificada.

"Daniel!!! Daniel!!!", ouve chamarem.
Mas Daniel não está no andar de baixo. Daniel está, neste momento, diante de si, com o olhar aterrorizado de quem sabe tudo.

10 comentários:

Melissinha disse...

desculpem lá o atraso, foi um misto de família a mais em casa com outras complicações.
Não voltará a acontecer, sob pena de a pregnante me castigar a sério.

Miguel disse...

Melissa, Melissa... já li a história umas 5 vezes e continuo de boca aberta!! Caramba que consegues virar o rumo da história cada vez que és tu que escreves!!
Mas muito bem, muito bem!!!

Nuvem disse...

muito bom Melissinha, muito bom :)
quase que valeu a pena a longa espera... quase
está excelente, mas foram muitos dias ;)

parabéns e espero pela continuação :)

Melissinha disse...

brigadinha, moris. Da próxima regressarei ao meu habitual atraso de cinco dias.

Melissinha disse...

Para este episódio, lembrei-me da primeira temporada de Dexter (deve ter sido da foto do Gabi) e mais não digo.
(cai como uma lubiiiinha.)

Miguel disse...

1ª temporada do Dexter? Hmmm... será que é aquilo que estou a pensar?....

Miguel disse...

1ª temporada do Dexter? Hmmm... será que é aquilo que estou a pensar?....

Ana C. disse...

Das duas uma, ou o ar do mar me está a pôr ainda mais abécula, ou o teu texto está mesmo de revirar o cérebro de trás para a frente.
O fantasma encarnou na Virgina Pureza? Por acaso achas que me lembro de primeiros episódios do Dexter?
Parabéns sua retorcida, está muito bom :)

Melissinha disse...

Hmm não tava a pensar nisso, tava a pensar noutra coisa, hehe.
Mas pode, né? Pode tudo desde que possa.

Melissinha disse...

1. Constança tinha um interesse especial em Virgínia. Por que motivo?
2. Virgínia, quando muito estimulada de alguma forma, solta as suas feras, sexualmente ou incendiariamente, mesmo que não haja provas.
3. Será a casa assombrada ou a própria Virgínia? Ou são as duas partes da mesma entidade?
4. Quem é, afinal, Daniel?