Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Inverno e a Aldeia 15

Lisboa, 1 de Novembro de 1952
Documento nº42 – Caixa 17 – Correspondência Pessoal

Querida tia
Espero que esta carta te encontre de boa saúde, só Deus sabe como me custa estar afastada de ti, afinal de contas foste tu que me criaste de gaiata, desde a morte dos paizinhos e até hoje não conhecia a distância entre nós.
Gostava de te dizer que tem sido fácil a vida aqui na capital, mas não posso, não consigo mentir-te e mesmo que tentasse, certamente me lerias nas entrelinhas e perceberias que trouxe de S. Vicente a mágoa que quis abandonar.
Comigo veio o sonho dos palcos, mas veio também a culpa de ter deixado para trás os que me queriam bem, tu sabes de quem falo...
Ele deixou de dar resposta às minhas cartas e o único medo que tenho no coração é tê-lo ferido de morte, mas tive que o fazer. Conheces-me, sabes que não nasci para ficar na sombra de um casamento e o ensino há muito que não me trazia felicidade. Se não tentasse definharia em S. Vicente e comigo definharia ele tentando fazer-me feliz.

Mas deixemo-nos de lamúrias que a vida não é dos queixosos, amanhã vou prestar provas para uma revista. Se gostarem de mim participarei num papel pequeno, mas ao lado dos grandes. Reza por mim tia, pode bem ser o primeiro passo de muitos que se seguirão e se tudo correr bem quem sabe não te mando vir. Já nos imaginaste de braço dado pelos jardins da cidade como duas senhoras de bem?
Vivo num quarto pequeno em casa de uma viúva mal humorada e com buço, mas sei que em breve a minha sorte vai mudar e não precisarei de um casamento conveniente para me sustentar. Eu vou ser dona de mim.
Se as coisas aí na aldeia continuarem pesadas como o manto negro do infortúnio vem querida tia, não hesites em deixar S. Vicente para trás. Percebi há muito que essa aldeia nada faz além de nos botar raízes de tristeza nos pés e de nos amarrar a uma vida de suspiros.

Da tua sobrinha que te quer bem
Maria da Conceição

4 comentários:

Miguel disse...

E aí está!! O primeiro capítulo pós-encontro!!
E com factos novos!
Acho que agora é sempre a subir!!
Ou a descer... aos inferrrrnos...

Nuvem disse...

Muito bem :)
Fico à espera dos resultados da vossa tertúlia :)
mas como sabem que adoro a vossa escrita... ;)

Miguel disse...

"...Botar raízes nos pés..." LINDO!

Melissinha disse...

excelente!