Há quem goste delas curtas, há quem as aprecie mais longas, mas para nós o tamanho não importa, uma história merece sempre ser contada.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Promessa (não eleitoral).

Eu prometo, prometo mesmo que vou avançar sozinho com este blog! Já que as minhas colegas de escrita não se chegam à frente...
É que é uma tremenda falta de respeito para com os nossos leitores, não é Nuvem?

sábado, 27 de março de 2010

Turno da Noite - Allexa

- Disk Amizade Ou Algo Mais, tem dois minutos gratuitos, fala a Allexa.
- Para continuar, prima 2 para dar dados do cartão de crédito
- O-Olá...
- Olá, meu chuchu. Com quem estou a falar?
- Com o... c-com...
- Relaxa, querido. A linha é segura, a chamada não vem discriminada na conta, a tua mulher nunca vai...
- Não! Não... Não há mulher.
- Favor premir 2 para dar cartão de crédito ou chamada será terminada em
- Como é que um chuchu com uma voz assim não casou ainda?
- Não... Não é assim, não é nada disso. Não é por ela...
- Ahh, então há uma Ela. Ela deixou-te carente, chuchu...
- Não, não, não. Ela é perfeita. Ela é melhor do que tu.
- Não precisa ofender a Allexa. Então porque estás tão nervoso? Relaxa, meu bem, queres que a Allexa conte uma "historinha relaxante"?
- Chamas-te mesmo Allexa?
- Premir 2 para dar dados do cartão de crédito
- Se preferires outro nome... Mas tens de dar os dados do cartão de crédito primeiro, chuchu.
- Favor dar dados do...
- Ela chamava-se Helena. Helena, como a Helena de Tróia...
- Se deres o cartão de crédito, também eu posso ser a Helena, chuchu.
- Não!
(pequena pausa)
- Chuchu?
- Era linda, a Helena.
- E o que a Helena te fazia que deixou tanta saudade? Olha que a Allexa faz milagres pelo telefone, mas precisa do teu...
- Eu não liguei para isso.
- Paga e os minutos são todos teus, chuchu.
(Ouvem-se passos sobre chão de madeira do outro lado da linha)
- Vocês sabem tudo, não sabem? Assim... Se é Amizade ou Algo Mais, posso pedir o Algo Mais.
- A 1,80 por minuto, és o dono da Allexa. Mas primeiro...
- Favor premir 2 para dar dados do cartão de crédito
- Então quero o Algo Mais.
- O que é que queres, chuchu?
- Quero saber como me livro da Helena.
- Ora essa, chuchu, diz que te apaixonaste aqui pela Allexa. Não há comparação...
- Não, puta de merda! Quero saber como me livro, COMO ME LIVRO da Helena!
(pausa súbita. Operadora chama gerente de turno com um sinal de dedos e pede-lhe para pôr os headsets. As duas ouvem)
- Onde está a Helena, chuchu?
(Gerente e operadora entreolham-se. A respiração do outro lado é forte e ritmada, em gestão de esforço)
- No... no sofá...
- A... A Helena está a ouvir esta conversa?
(risos do outro lado)
- Duvido. Quer dizer, e daí...
- Porque é que ligaste para o Disk Amizade Ou Algo Mais?
- Para saber como me livro...
- Eu sei, eu sei.
- Esta chamada será interrompida por falta de provisão
- ... Não, não sabes, porra, porque se soubesses, já tinhas dito, vaca de merda. Porque a Helena está ali, no sofá, e não se mexe, não respira,
e está com uma cor estranha, e não é do blush nem do caralho do autobronzeador ou essas merdas que vocês, putas, usam, é porque...
(cai ligação. O terminal telefónico volta a piscar, há outra chamada em linha.)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sandra regressou ao seu local de trabalho. Os olhos molhados, a voz embargada. Lutou contra si mesma até ao momento em que saiu do edifício. O ar frio da noite e o silêncio do parque de estacionamento receberam as suas lágrimas num silêncio indiferente. Sentia-se humilhada, rejeitada, gozada. Sentia-se uma puta. Entrou no carro e ligou o rádio, pegou no telefone.
-Olá amiga! uma voz bem-disposta recebeu a chamada de Sandra -O que se passa? Estás a chorar??
-Ele... ele... recusou-me... Sandra chorava abundantemente agora.
-Onde estás? No call? Vou já para aí!
Margarida era a melhor amiga de Sandra. Entrou no carro e abraçou a amiga. Começou a chover. Ficaram ali sentadas durante largos minutos. Sandra a chorar e Margarida a consolar. A chuva aumentava e Sandra parava, como se as suas lágrimas fossem agora a chuva que caía intensamente.
-Sinto-me uma puta...
-Não sejas parva! Ele é que é estúpido.
-Não imaginas como me senti... ajoelhada, em frente a ele, pronta... e ele levanta-se e vai-se embora?? Foda-se... sou uma puta.
-Sandra. Detesto dizer-to mas... o que estavas à espera? Já sabes que ele está indeciso e confuso! Já sabes que ele é casado e que não tem tomates para deixar a mulher... não podes ser tão insistente! O que aconteceu à Sandra sedutora e subtil?
-Não imaginas como ele me faz sentir... fico arrepiada só de o ver, fico tensa, contraída, húmida... e nem sei porquê! Estúpida...
-Ora amiga...
-E o pior é que ele me quer! EU SEI QUE ELE ME QUER!! Eu sinto-o. Sei que ele adora tocar-me subtilmente na cintura, nos braços, no cabelo. Sei que ele adora cheirar-me e aproximar-se, sei que olha para o meu rabo quando me afasto. E sei que ele me quer, sei-o porque o tive nas minhas mãos e, acredita amiga!, ele quer-me tanto como eu a ele!! Sandra riu-se, aliviada.
-Ouve Sandra. Ele é casado, tem um filho....
-Um casamento acabado, é o que é!
-Um casamento acabado continua a ser um casamento! Tens que lhe dar tempo, dar-lhe espaço. Aproximar-te devagar e avançar quando for a altura. Assim só o confundes mais... se fores para a cama com ele agora e ele se divorciar depois, a culpa do divórcio será sempre tua! Mesmo que o casamento já esteja acabado, serás sempre "a outra"!
-Mas é tão estranho... ele dá-me montes de dicas e convida-me para o café naquela sala escura... acaricia-me as costas e as ancas e massaja-me enquanto falamos... e depois eu fico louca e só o quero provar e mete-lo dentro de mim... e ele acobarda-se no último momento! Cabrão!
-Ouve, vamos beber uns copos e conhecer uns gajos como deve ser?
-Os copos pode ser, mas não quero nada com gajos hoje!!!
Riram-se. Sandra limpou as lágrimas, retocou a maquiagem e arrancaram.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Daniel saiu batendo a porta atrás de si. Sentia-se frustrado, agredido, insultado, injustiçado. Acima de tudo injustiçado. Mas que grande merda... foda-se. Um gajo mata-se a trabalhar, 12, 13, 14 horas para que nada falte em casa. Estou com o meu filho e ajudo nas tarefas... puta que pariu! E ela vem com a merda da conversa da puta da tampa da sanita... estou mesmo cansado. Mesmo. Transferia toda a raiva que sentia naquele momento para o volante do carro e para os condutores menos avisados ou cuidadosos que se cruzavam com ele. Não sabia para onde ia mas logo se apercebeu que estava à porta do call-center. Inconscientemente dirigiu-se para um lugar onde as pessoas o estimavam e gostavam dele e, acima de tudo, não lhe chateavam a cabeça. Instintivamente olhou para o lugar normalmente ocupado por Sandra. Ela lá estava, os seus saltos altos, as unhas impecavelmente arranjadas, as calças de ganga justas e a blusa larga e decotada. Mesmo com os auscultadores do telefone na cabeça a sensualidade dela preenchia toda a sala. Os seus olhares cruzaram-se e ela sorriu-lhe. Ele levou os dedos à boca simulando que tomava um café. O convite estava feito.
"O que é que estou aqui a fazer? E porque raio fui convida-la para tomar café? Ainda arranjo lenha para me queimar, é o que é... Mas caramba! Se eu desse uma queca nesta gaja era bem feito para a Leonor! Sempre a criticar, sempre a insinuar que... se ela soubesse das intenções desta bem que se passava..." Estes e outros pensamentos corriam-lhe pela mente quando Sandra entrou enchendo o ar com o seu agradável aroma de sempre...
-Oi bonitão! Que fazes por aqui? (sentou-se ligeiramente debruçada mostrando o seu enorme decote)
-Ora... vim tomar um café! Sempre são mais baratos!
-Por falar em café! Não chegaste a responder ao meu convite...
-Oh, desculpa... estava com a Leonor e o Sam...
-Pois... mas estás sempre com eles? Bem podias ter algum tempo para ti...
-São e minha família. Se não estiver com eles, estarei com quem?
-Hmmm, comigo por exemplo... não é por falta de convites...
-Não é por falta de vontade...
Aquelas palavras saíram-lhe fora do controlo. Sandra percebeu a sua oportunidade. Levantou-se e sentou-se ao seu colo. Olhos nos olhos, beijou-o. Avidamente meteu a sua língua na boca dele, puxou-o contra si e comprimiu todo o seu corpo no dele. Daniel resistiu timidamente de início mas depois devolveu o beijo e a língua. As suas mãos percorreram o corpo dela, tentando perceber se a sua imaginação estava correcta. Estava. A pele dela era mais macia, o seu rabo mais firme a os seus seios eram melhores do que tudo o que ele já tinha imaginado. E o cheiro! Por deus, o cheiro dela era tão mais intenso! Parecia que aquele odor o envolvia e o inebriava. Ele estava em todo lado, nos cabelos, nas mãos, na nuca dela. Ela desapertou-lhe as calças e agarrou-lhe firmemente o pénis. Daniel estava pronto! E como. Ela sorriu maliciosamente e deslizou por ele, ajoelhando-se. Depois beijou-o...
-Não, não, não , não.... Daniel afastou-se docemente enquanto se levantava e abotoava as calças.
-Não? Estás louco?! O que mais queres? Que ta amarre? Sem nunca o dizer, Sandra sentia-se humilhada por Daniel.
-Desculpa Sandra. Eu quero, juro que quero muito mas... não posso. Leonor, Samuel... seria incapaz de viver com isso.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

-Mas o que se passa contigo hoje que andas a arrastar-te pelos cantos da casa?
Leonor já tinha dado sinais de impaciência e rebentava finalmente
-Não se passa nada... estou cansado.
Respondeu Daniel enquanto passava os olhos pelo Facebook pela enésima vez.
-Cansado do quê? Do trabalho? Tens estado o dia todo em frente à porcaria do computador e eu tenho andado aqui a arrumar a casa, a fazer máquinas de lavar a limpar a porcaria das sanitas... Olha, já agora, vê lá se baixas o tampo quando acabas ok?
-Sempre a mesma conversa!! Irra, qual é a dificuldade de baixar a porcaria do tampo?!?
-Exactamente. Não é nenhuma, por isso...
-Não sejas chatinha...
-CHATINHA? Ontem não achaste que fui chata, quando chegaste... deve ser por isso que estás tãããão cansadinho!
-Pronto, lá vem a ameaça do costume...
-Qual ameaça?
- Acaba-se o sexo e blá blá blá...
-Olha! Se não for eu a avançar tu bem que chegas e adormeces!
-Mal feito fora...
-O que queres dizer com isso?
-Nada.
-Nada? Nada? Pois podes crer que a partir de hoje bem podes adormecer as noites que quiseres meu menino!
-Sim. Não te chateies com isso que eu também não.
-QUE MERDA Daniel!!
Leonor estava a perder a calma.
-Garanto-te, GARANTO que não te chateio mais com as minhas necessidades sexuais!!
-Leonor... essa ameaça não pega. Sexo posso encontrar fora de casa. Com a maior das facilidades...
A frieza daquelas palavras, ditas com a indiferença de um estranho atingiram o coração de Leonor.
-Andas a comer por fora? Andas meu sacana?
-Estás louca?!!
-É por isso que vais sempre tão contente para o trabalho... e depois vens sempre muito cansado... idiota!
-Deixa-te de merdas Leonor! Nunca te traí! E ainda mais agora com o Samuel...
-Só estás comigo por causa do Sam? Mas não estejas! VAI EMBORA!! Cretino...
-Vá lá Leonor...
Daniel olhava-a agora enquanto ela lutava para conter a torrente de lágrimas que se formava nos seus olhos. E tentava abraçá-la.
-Larga-me!! É porque estou a chorar? Fizeste merda e agora vens com abracinhos? Deixa-me em paz! SAI DAQUI!!!
-Mas...
-SAIIIIIII!!
Daniel pegou nas suas coisas e saiu porta fora, deixando Leonor entregue ás lágrimas e ao chocolate.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Daniel chegou a casa já tarde. As luzes apagadas indicavam que já ninguém estava acordado. Entrou silenciosamente e deixou-se guiar apenas pelas luzes que vinham da rua. Comeu qualquer coisa na cozinha e foi deitar-se. Passou pelo quarto de Samuel, o seu filho de 3 anos. Ele dormia calmo e sereno. Beijou-o ao de leve e foi para o seu quarto. Leonor dormia calmamente quando ele se deitou ao seu lado e lhe beijou a face. Daniel considerava isso uma espécie de ritual, beijar a face da sua mulher mesmo que ele estivesse a dormir. Ela virou-se para ele e, ainda de olhos fechados disse:
-Olá meu amor... estás bem?
-Um pouco cansado.
-Concerteza que ainda tens um pouco de energia para mim...
Dizia ela enquanto lhe acariciava o peito e o beijava ternamente
-Tenho sempre energia para ti minha querida! Mesmo que estivesse morto...
Abraçou-a repentinamente e beijou-a sofregamente enquanto lhe despia o pijama. Ela retribuía o desejo e despia-lhe os boxers rapidamente. Estavam finalmente nus. Acariciaram-se longamente nas sombras do quarto. Aquela média-luz excitava-o. Leonor ligou a luz da cabeceira mas ele logo a desligou.
-Não me queres ver?
-Não sejas louca! Assim vejo-te perfeitamente... e é mais excitante!
Ele sentia-a pronta e penetrou-a devagar. Ele gemia baixinho e pedia mais, mais fundo. Ele acedeu e aumentou o ritmo. Contudo, sem que ele o pudesse prever ou evitar, a imagem de Sandra surgia-lhe na mente. Lutou para a afastar mas ela lá ficou, a um canto da mente como uma observadora excitada. Concentrou-se e cumpriu o seu papel. Leonor veio-se primeiro, num orgasmo longo e forte. Daniel fazia questão disso mesmo. Que Leonor fosse sempre a primeira a vir-se. Depois ele, com calma, prolongando o prazer dela, veio-se. Beijaram-se olhando-se nos olhos enquanto se abraçavam.
-Amo-te.
-Também te amo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Daniel deixou Eduardo na esplanada. Afinal era um final de tarde de verão junto ao mar e Eduardo queria continuar a "micar as miúdas", como ele próprio gostava de dizer. Eles eram amigos desde sempre. Eduardo o aventureiro impulsivo e Daniel o cuidadoso, o ponderado, aquele que os tirava dos sarilhos que Eduardo arranjava. Tinham discutido muito acerca da decisão de Daniel em não ter respondido à mensagem de Sandra. Enquanto se dirigia para o trabalho, o seu carro serviu como uma bolha que o isolou do resto do mundo.
"Devia ter aceite. Afinal, seria só um café, que mal é que isso tem. Um café entre dois colegas de trabalho. Porra! Perdi uma oportunidade única! Afinal, não é todos os dias que encontramos uma mulher daquelas disposta a ir para a cama connosco. Disso tenho a certeza. A gaja quer..."
A partir daqui a sua mente foi invadida pela imagem de Sandra a bambolear pelo call center nos seus saltos de agulha de 10cm. As suas narinas enchiam-se com aquele odor subtilmente imposto que ela tão bem dominava, quase podia sentir a suavidade do seu cabelo. Mais uma vez se dava conta que este simples pensamento fazia crescer o seu desejo, a sua vontade, a sua masculinidade.
"Merda, merda, merda! Deixa-te de merdas Daniel! Com uma gaja do trabalho nunca! Os sarilhos que poderias arranjar... e depois a gaja deve querer mais que uma quequa ou duas. As gajas nunca querem só dar umas quequas. Não. Não posso." Sabia que não a ia encontrar no trabalho. Quase como um reflexo, a primeira coisa que fazia quando chegava era consultar a escala dos operadores de chamadas e procurar o nome dela. A excitação tomava conta dele se os seus turnos coincidiam. Sentia-se aliviado por não ter que lhe justificar a razão de ter ignorado o seu convite mas, por outro lado sentia-se desapontado por não a poder ver. O seu corpo sentia-se desapontado. Era como se ela fosse uma droga que lhe despertasse os sentidos. Acima de tudo estimulava-lhe o desejo. A sua mente desenhava cenários de sexo desenfreado nos vários locais do trabalho: em cima da sua secretária, na casa de banho, no quarto escuro. Ela, pura e simplesmente desconcertava-o! Todo o seu ser o empurrava para junto dela, para a sua unidade de trabalho, inventava pretextos para lhe falar, para se aproximar dela e cheirar o seu cabelo, para gentilmente lhe pousar a mão no ombro enquanto lhe ditava instruções desnecessárias. O seu momento zen acontecia quando ela o convidava para um café após o jantar. E ficava furioso se ela não o fazia, preferindo a companhia de outras colegas. Estava completamente apanhado. "Daniel, Daniel... não comeces com ideias." babulciava de si para si quando ela o provocava. "Controla-te. És o chefe dela, não podes simplesmente dar-lhe uma queca no teu gabinete e esperar que ninguém descubra! Afinal, tudo se sabe neste ninho de víboras!".
Mas ele deixava-a avançar sempre mais um pouco. No seu íntimo ele queria estar com ela e ela sabia-o. Num corredor vazio onde estava a máquina do café, ela colocou a mão no peito dele. AO de leve mas o suficiente para o acariciar subtilmente. Depois avançou pelo abdómen descendo e terminando o seu caminho no cinto dele. Apoiou a mão no cinto dele como se fosse a coisa mais natural do mundo, um sorriso na face, os olhos expressivamente a convidar. Largou-a e enfiou-se no WC. Masturbou-se energicamente e veio-se rápido. Arrependeu-se. "Bolas. Pareces um miúdo com as putas das hormonas ao saltos! Foda-se." Limpou-se e saiu, arrependido e com a ligeira sensação que ela sabia o que ele tinha acabado de fazer.
Alguém o chamou,
-Daniel, tem uma chamada em espera na linha 1.
-Quem é?
-A sua esposa.

sábado, 30 de janeiro de 2010

"estou na costa. vens beber um café cmg?"
-Merda! Esta gaja agora...
-Um SMS da Sandra?! Meu! Ela está aqui!! Diz-lhe que sim, vá!!
-Estás louco. Não.
-Qual é a tua meu? Ela está mesmo a pedir... VAI MEU, responde-lhe que sim!
-Não.
-Foda-se. Vou mesmo deixar de te falar...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Quando se aproximou da esplanada já Eduardo estava calmamente sentado, observando quem passava no novo estradão da Costa. Todo ele era coolness! O cabelo bem aparado quase do tamanho da barba bem trabalhada. Os seus inseparáveis óculos de sol XXL (que ele afirmava usar porque "as miúdas curtem" mas que na verdade serviam para esconder os seus olhos demasiado pequenos!), calções pelo joelho e as havaianas brancas eram a sua imagem de marca durante o verão. Mantinha aquela pinta de rufia desde sempre e era essa a sua principal arma nas suas conquistas!
-Desculpa o atraso..
-Qual é meu! Sem stress. Tenho estado aqui a ver a miúdas... mãe do céu! Adoro o verão por causa disto! O mulherio cheio de calor, os tops, as mini-saias. Loucura meu, lou-cu-ra! É o que te digo.
-Nisso tens razão! Já vi bom gado no caminho do carro até aqui!
-Por falar em gado... recebeste a minha mensagem?
-Claro pá! Conta, conta!!
-Ouve, não vais acreditar! Ontem foi aquele workshop da treta lá do callcenter. Aquele sobre técnicas de comunicação. Enfim, não tinha vontade nenhuma de ir mas pronto... logo que cheguei topei logo uma tipa lá no fundo da sala. Alta, magra, bem arranjada com umas calças de ganga bem justinhas e um top muito básico. Estava sozinha. No intervalo posicionei-me estrategicamente para lher ver o rabinho... e que rabo meu! No final tens aquela treta de café e bolhinhos e a tipa veio falar-me! Nem queria acreditar! Meteu conversa que tinha gostado das minhas intervenções...
-Sempre foste um lírico do caraças!
-... deixa-me acabar porra! Disse que gostou das minhas intervenções e perguntou qual o centro onde trabalhava e essas tretas. Notei um sotaque estranho na sua voz mas percebi quando me disso o nome: Marie Claire! Francesa meu!! Fiquei logo em brasa porque dizem que as francesas não perdoam... fiquei estúpido depois quando me disse a idade: 41! Foda-se, 41?!? Eu dava-lhe uns 33! Conversa puxa conversa e ela deu-me as dicas todas! TODAS! Que loucura! Quando me disse que morava ali perto, que dava para ir a pé, arrisquei! Ofereci-me para a levar a casa! E ela aceitou!! Daqui prá frente, deixo á tua imaginação! Só te digo uma coisa amigo, a partir de hoje olho para as quarentonas com um olhar diferente! Que louca! Não acreditas na concentração que tive de ter para não me vir antes dela meu!!
-Não é assim com todas??
-Vai pró caralhinho. Nunca uma mulher me tinha dado tanto prazer. Arrepio-me só de pensar. Olha só para os meus braços... Marie Claire...
-E então? Vão voltar a encontrar-se?
-Mas tu estás louco? Foda-se, vê-se logo que não dás uma queca há muito tempo meu... isto é uma coisa de uma noite e pronto! Já me conheces...
-Pois conheço. Há muitos anos!
-. Há muitos anos... E então a outra lá do trabalho? Aquela Sandra? A gaja anda louca para te papar meu!
-És maluco. Anda agora.
-Mas que merda meu! Só tu é que não vês! A maneira como ele empina aquele rabinho como se dissesse "Come-me", como olha para ti, como está sempre ansiosa que chegues... eu já a topei! Mas tu sempre foste assim. Sem fazeres nada tens sempre uma gaja qualquer a levitar à tua volta! E sempre gajas boas! E tu... nada! Sempre com essa história do amor e da fidelidade! Fieis são os cães...
- Já não sei... já não sei se acredito nisso. Vou contar-te uma coisa mas juro-te que te esfolo se falas disto a mais alguém!
-O quê?
-Ontem à noite fui tomar café com ela na "sala escura"...
-...UUUI a "sala escura"...
-Deixa-em acabar. Fomos tomar café depois do jantar e, quando dei por isso ela estava sentada de costas para mim e eu com uma tesão do caralho encostado ao dela, com as mãos nas costas delas, soutien desapertado e com uma vontade do caralho de lhe apalpar as mamas... por momentos fiquei cego, só queria tirar-lhe as calças (o que não era difícil) e papa-la mesmo ali...
-O QUÊ?!!? E não a papaste?
-Não. Apertei-lhe o soutien de novo, levantei-me e saímos. Ela não voltou a falar comigo e eu andei de "pau-feito" até ao final do turno.
-Que paneleiro meu... ÉS UM MERDAS PÁ!!! Nem sei como sou teu amigo... uma gaja tão boa, ainda por cima a pedi-las... foda-se. E quem é que iria saber? Que parvalhão...
-Ouve Eduardo. EU iria saber. EU! E não conseguiria viver com isso... além disso a tipa tem um filho pequeno. Achas mesmo que ela quer só dar umas quequas com um gajo qualquer no trabalho? És parvo. Ainda por cima uma gaja que trabalha comigo. É demasiado complicado.
-Tu é que és complicado. Isso são tudo desculpas que arranjas agora, depois de teres desperdiçado a oportunidade... ainda me custa a acreditar.
- Pede mas é um café...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Preparava-se para se deitar quando o Nokia berrou o sinal de SMS recebido.
"nao vais acreditar. acabo de dar a queca da minha vida. amanha falamos"
Sorriu. O Eduardo tinha a sensibilidade de um cepo mas era o seu melhor amigo!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

-Sabes? Sonhei contigo!

Ela atirou-lhe aquela informação de uma forma descarada, com um riso escarninho na face sabendo que ele iria roer-se de curiosidade durante o tempo que estivessem sem se encontrar. Afinal, aqueles horários rotativos do call center tornavam os seus encontros imprevisíveis. Ele sorriu subtilmente. Há meses que andavam naquele jogo do gato e do rato, numa espécie de flirt não declaradamente assumido mas implícito. Aquela mulher, não sendo uma "bomba", não sendo uma mulher estonteantemente bonita, despertava nele um sentimento difícil de definir. Uma espécie de vazio na barriga que se transformava depois num arrepio quente que se alastrava um pouco mais para baixo. Ele não conseguia identificar claramente, nem sequer definir o que nela havia que o afectava assim. Mas ela cuidava-se. As unhas de gel impecavelmente tratadas, com cores e motivos diferentes todas as semanas arrepiavam-no! Embora as achasse sempre compridas demais, não conseguia deixar de imaginar aquelas unhas a cravarem-se impiedosamente nas suas costas. Andava sempre de salto alto o que lhe dava uma elegância que os seu metro e sessenta de altura não deixava adivinhar e andava sempre perfumada. Não de uma forma ostensiva, daquelas que empestam a sala mas de uma maneira mais subtil. Ele detectava sempre que ela mudava de cheiro e desejava morder a curva do pescoço dela. Avidamente.

-Cabra.

Pensou enquanto a mirava a afastar-se, o andar elegante, o discreto ondular das ancas.

-Engordaste um bocadinho mas continuas com um rabo delicioso...

Este pensamento envolveu-lhe a mente enquanto sentia o arrepio quente a percorrer o caminho descendente para terminar bem na ponta do seu pénis. Ele, o pénis, parecia ganhar vida própria quando a via e a cheirava. Ele, o pénis queria prová-la. Abanou a cabeça freneticamente para afastar as imagens luxuriosas que lhe passavam diante dos olhos e voltou para a sua função de coordenador da sala.
Aquilo que um dia começara como uma conversa brejeira com troca de frases de sentido dúbio mas implícito logo evoluíra para algo mais pessoal. Ele arriscava perguntas cada vez mais pessoais e ela respondia-lhe com insinuações. Ela convidava-o para um café mas sempre apenas a dois. Trocavam olhares e sorrisos provocantes enquanto sorviam os seus cafés quentes. Ele começou a agarrar-lhe primeiro no braço enquanto caminhavam pelos corredores vazios e sombrios do prédio, nas noites de plantão, e logo depois um braço sobre os ombros e, por fim, as suas mãos na cintura dela, a sua pélvis no rabo dela. Ela sorria maliciosamente e inclinava a cabeça para o seu ombro, o cheiro dela a invadir as narinas dele, o arrepio da barriga para o sexo dele que inchava e crescia e pulsava de desejo. Ele estava preenchido pelo desejo de foder aquela mulher. Ela sabia e perpetuava o jogo. Nenhum avançava. Nenhum arriscava.
Numa dessas noites mortas de plantão nocturno ele encaminhou-a para uma sala escura, para tomarem o seu habitual café. Nenhuma luz havia a não ser a ténue luz dos candeeiros da rua que entrava timidamente pelas janelas.
-Hoje sinto-me tão cansada. E temos ainda tanta noite pela frente. Dói-me o pescoço de estar sentada naquela porcaria de cadeiras que temos para trabalhar...
Ele percebeu o convite e ofereceu-se para uma massagem. Ela levantou-se e rodou para se sentar com o peito apoiado no apoio de costas da cadeira. Encostou a sua cadeira à dele, alçou uma perna e sentou-se. Ele observou aquele movimento propositado e exagerado quando o rabo dela passou a centímetros do seu nariz. Estavam agora sentados, ele de frente de pernas abertas, ela de costas para ele, bem encaixada nele, inclinada sobre a cadeira. A sua blusa curta levantara e os seus jeans de cintura descaída baixaram revelando o fio dental que ela trazia nessa noite. Ele começou a massagem pelo pescoço, sem uma palavra. Depois desceu, sempre massajando por cima da blusa. Depois o pescoço outra vez e, ousadia, os ombros e os braços. Desceu e enfiou as mãos por baixo da blusa. Perdeu-se com o toque na pele dela e ficou cheio de tesão. Incomodava-o o seu pénis duro preso nas calças mas não havia nada para controlar isso. Subiu e voltou aos ombros. Ela arqueou as costas e pressionou a braguilha dele com as suas nádegas. Ele desapertou-lhe o soutien e continuou a massagem. Sentia as margens das mamas dela e imaginava os seus mamilos duros. Inspirou fundo, apertou-lhe o soutien, largou-lhe as costas e levantou-se. Sorriu-lhe. Ela devolveu-lhe um olhar confuso e desapontado.
Chegou a casa na madrugada, despiu-se e enfiou-se debaixo do chuveiro quente. As delicadas costas dela não lhe saiam do pensamento, o toque da sua pele, aquele apetitoso rabo encaixado na sua erecção, no seu desejo. Estava de novo duro, forte e pronto. Masturbou-se enquanto sussurrava o nome dela. Sandra.

Ponto de Situação.

Ora bem. O blog não está morto. Está em coma induzido. Com uma das autoras prenhe até ás orelhas e com o marido inválido e com a outra afundada numa piscina de anões (imaginem uma piscina de bolas mas cheiinha de anões), não me resta nenhuma alternativa a não ser reanimar o nosso blog enfermo sozinho! É por ser enfermeiro.
Portanto: a saga da Aldeia de S. Vicente da Lua encontra-se em suspenso por greve dos argumentistas. Se os americanos tiveram nós também queremos. Encaramos a coisa como uma espécie de "season one" que terminou em suspenso. Só para aguçar a curiosidade dos nossos (cinco) leitores. Agora vou eu escrever uma historieta sozinho só para me armar ao pingarelho.
Prometo muito delírio esquizofrénico, prometo não seguir nenhuma narrativa minimamente coerente. Não prometo é que seja algo de jeito.
Posto isto, vou começar a escrever.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Resolução para 2010.

Acabar a saga "O Inverno e a Aldeia" e se possível escrever aí mais uma historieta. Ou duas, vá...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Queridos Amigos

Queridos amigos, colegas de escrita e eu própria
O que é que se passa connosco?
Possuídos pelo espírito que tomou conta de S.Vicente da Lua, ou simplesmente cansados e engolidos pela rotina que nos arranca a inspiração?
Aguardo melhores dias para todos.
A vossa estimada, maravilhosa, sensual e carismática
Anacê
Cascais, 22 de Dezembro do ano de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Inverno e a Aldeia 26

- A esta hora Sr. Prior?
Os olhos de Joana brilhavam de surpresa.
- Como me disseste que os ruídos chegavam ao anoitecer decidi vir, para que não os escutasses sozinha. Juntos vamos perceber o que se passa realmente, que ruídos são esses à beira da tua casa.
Joana não sabia se havia de rir, ou chorar de agradecimento. O Prior levou a mão ao bolso, acariciando a pequena adaga que trouxera da capela que abraçava o rosário meio escondido nessa parte da batina.
- Tem sido tão bom para mim…
- Porque é que não desligas as lamparinas? Quem quer que venha não tem que nos ver aqui dentro a espreitar a janela.
- Claro, claro. Eu nunca espreitei, pois morro de medo de ver alguma coisa que não quero. No fundo, no fundo, por pura falta de coragem.
As palmas das mãos de Alberto estavam húmidas de pânico. Sabia que aquelas alucinações eram a prova viva que Joana estava possessa, que residia nela o mal de todo S. Vicente da Lua. Ele sabia-o bem dentro de si, mas por outro lado quando a via assim, desprovida de chagas, de rubores, de malícia, sentia que estava perante a mulher mais pura da aldeia. Pureza de alma. Enquanto a via desligar as lamparinas com uma fé cega no seu conselho desejava estar errado, desejava ouvir realmente as cantilenas que ela dizia escutar. Rezou com fervor para que começassem os gritos no escuro, as velas acesas lá fora, pois assim não teria que usar aquela adaga que lhe ardia como fogo entre os dedos.
Ao longe, abrigado do frio por uma grossa samarra de lã grossa, Júlio olhou mais uma vez a casa onde o esperava o filho e tremeu quando viu a fraca luz que a iluminava apagar-se, deixando tudo em seu redor envolto na mais completa bruma. Estugou o passo da burra e sentiu que a sua própria vida dependeria da velocidade a que conseguisse alcançar a aldeia.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Inverno e a Aldeia.

Ao meu amado filho, ainda por nascer.
Meu filho, após uma longa e solitária viagem de três dias, a pé por entre os montes e as matas que os habitam, eis que me encontro na serra sobranceira a S. Vicente. Quero genuinamente sentir-me feliz, alegre e revigorado pela visão da minha terra, da nossa terra, aquela onde conheci a tua mãe e onde foste concebido mas não sinto nada. Nada. Será talvez porque, na verdade, não vejo o casario? Todas as casas, desde as mais próximas aos campos até às ladeiras à Igreja estão perdidas no meio do nevoeiro cerrado. Só se vê a torre da Igreja, como se o Senhor estivesse a assistir, impávido e sereno, ao que acontece dentro do negrume. Será possível que Deus nos tenha abandonado?
Nem sei porquê esta interrogação que me invade. Mas sinto-me vazio, frio, gelado por dentro. O meu coração, que me encheu de força para encontrar o meu filho, está agora parado. Que coisa é esta que me invade? Onde foi a alegria que trouxe até aqui? E porque não sou capaz de entrar na minha terra, no pedaço de mundo que viu nascer? O silêncio está por todo o lado. Não se ouve nada. Nem pessoas, nem os cães, nem os mugidos das vacas e os seus badalos, nem o sino da Igreja, nem as crianças a correr pelo empedrado das ruas, nem os pássaros a piar ao final da tarde. Mas o que mais me impressiona é esta indiferença ao facto de estar a pouca distância de ti, meu filho. A minha mente é constantemente invadida por imagens de dor e sofrimento. Não que tu estejas a sofrer mas que... sejas tu o causador do desespero. Vejo imagens de um homem, adulto, que ri enquanto bate e humilha outros homens e mulheres. Ele ri e eu oiço o seu riso, o seu gargalhar ecoa na minha cabeça e eu sei, eu sei que esse homem é o meu filho. Esse homem serás tu.
Mas que pai serei eu, que homem cria o seu filho para que ele se torne no canalha que me invade a mente? Onde se esconderão os meus erros? Falho na minha missão de pai mesmo antes do teu nascimento, meu filho. Perdoa-me, se puderes. E este maldito vento que se faz sentir no monte onde me encontro. Maldito que vem das partes do nevoeiro e parece trazer as preces da gente da terra, as mesmas preces que se ouvem nos funerais, lentas, murmuradas que parecem empurrar o morto para além dos sete palmos da cova que lhe talharam. Sempre me arrepiou esse lamurio das carpideiras que fazem da dor dos outros o seu entretém nas noites passadas sentadas nos frios bancos de pedra da casa mortuária da Igreja, enquanto ensaiam choros fingidos e gritos de dor. Cada uma na sua vez, encadeadas como num coro. São esses os sons que trás o vento, meu filho. E, como sempre, a minha pele arrepia-se de angústia.
A noite cai. É hora de me preparar para a caminhada que me levará a sentir-te na barriga da tua mãe. E é curioso que seja a noite a trazer-me uma alegria. Vejo ao longe uma luz, no meio do nevoeiro! Uma luz que parece ténue mas que deve ser forte, para conseguir trespassar o espectro negro que rodeia a aldeia. Uma luz que ondula, como as árvores ao vento, como se estivesse a assinalar onde tu estás, meu filho. Conheço bem a aldeia, e ali, de onde a luz parece chamar-me é a casa da tua mãe, Joana. Bem perto fica a torre da Igreja, solene, alta, distante. Dela só me chega angústia.
Se eu perecer, rogo a quem encontrar a minha velha carcaça que entregue esta carta ao meu filho, o filho de Júlio e Joana de S. Vicente da Lua.
Este episódio é dedicado à Nuvem. Pela sua incansável fidelidade, obrigado!
(Já podes ir falar com o Pai Natal!)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Inverno e a Aldeia.

Pai nosso que estáis nos Céus.
A força da fé no Senhor me dê forças para as provações que terei ainda de passar mas feliz daquele que sofre por Deus, como ele por nós sofreu o martírio da crucificação. Porque hoje estive no covil do mal. As mãos doem e tremem ao escrever estas letras, como se tivessem sido queimadas pelo fogo do próprio Inferno. Enquanto rezava as orações de mãos dadas com aquela mulher, as mãos ardiam num fogo invisível. Ela não tem a marca do mal nas mãos, confirmei, antes a maldade está dentro dela. Vive dentro dela, alimenta-se dela e através dela se espalha aos corações das minhas ovelhas.
Confesso, meu Deus, que rezava para que me désseis força para suportar a dor daquele fogo que me atravessava através das minhas já frágeis mãos. Rezava por mim e não para combater aquele terrível mal. Sucumbi perante a violência daquela força. As vozes das almas condenadas flagelaram a minha mente, como sempre o fazem quando abandono a Igreja. Malditos sejam os inimigos do senhor. Este mal que nos ataca é enorme. Invadiu já a Casa do Senhor mas o covil fica naquela casa. A puta do Diabo chorou lágrimas de dissimulação mas eu bem vi o seu olhar vazio, as sombras a olharem-me por trás dos olhos dela. As suas mãos eram frias, como as de um falecido após a noite de velório em cima da pedra mortuária. Frias mas ao mesmo tempo queimavam como um ferro em brasa. São estas as contradições e a perfídia de Lúcifer.
O povo apercebe-se já do mal que emana daquela casa. Fazem-se vigílias e procissões em redor dela. Os cânticos dos vossos servos entoam agora pela noite. A luz da casa apaga-se mas, sem luz lá dentro, os homens quebram na sua determinação. Dizem que ela silva, como uma serpente, que leva a noite, que se apagam as estrelas, que sentem um frio no peito como se o coração tivesse parado, que se sentem vazios por dentro e temem. Temem mais ao Diabo que a Deus.
Mas a raíz de todo o Mal está dentro dela. Enquanto fervorosamente rezava por mim, pela minha salvação, consegui ouvir a sua voz dentro de mim. "Temes-me já e ainda nem nasci. Mas nada temas, serás o meu escravo assim que eu nascer. Verás todo o teu rebanho a perecer perante a minha força e, mesmo assim, servir-me-ás!". Estas palavras ressoavam por todos os meus ossos, toda a minha carne, corpo de Deus. E o riso, o riso que gela e nos rouba a vontade, a força nas pernas e oprime o peito. Não estava preparado Senhor para tamanha força. Hoje mesmo apertarei ainda mais o silício que trago na perna para que sangre o Sangue Divino através do qual purificarei as almas mais preversas!
Aquela criança é Lúcifer. O mal personificado puro e frágil. Tem de morrer! Pelo meu punho, pelo punho de Deus! Deus Pai Todo-Poderoso que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.
(Diário do Vigário, 22 de Novembro de 1951)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Inverno e a Aldeia.

Hospital Psiquiátrico de São João de Deus
Serviço de Internamento de Doentes Agudos
Diário Clínico
10/12/1952: O doente apresenta-se sem alterações do seu estado. Mantém-se em mutismo, não colabora nos cuidados. É extremamente agressivo e violento para com os profissionais de saúde que considera como inimigos. Verbaliza apenas quando "ataca" o pessoal. Passo a citar:
"Cambada de filhos da puta nojentos haveis de morrer nos fogos dos infernos de onde saíram"
"Nunca me vergarão, cabrões"
"Matem-me de uma vez seus filhos de uma cabra sarnenta"
A um dos enfermeiros arrancou uma orelha com uma dentada. Mantém-se contido no leito com correias de couro no tórax e membros inferiores e ainda com o colete de forças vestido.
Foi aplicado o protocolo terapêutico de electrochoques diários, sem resultados visíveis. No final de cada sessão o doente apresenta-se prostrado, sonolento e aparentemente calmo. Neste curto período de tempo verbaliza repetidamente a seguinte frase: "Hei-de regressar para te salvar.". Não foi possível estabelecer o significado dessas palavras. Contudo o doente regressa aos seus delírios e confabulações logo que retoma a plena consciência. Não há registo de qualquer outro esquizofrénico que seja tão refractário ao tratamento. O doente parece adaptar-se a cada tratamento, a ponto de, actualmente não parecer sofrer qualquer tipo de desconforto com as descargas eléctricas cada vez mais potentes. Chega a parecer sobrenatural.
A ferida no deltóide mantém-se por cicatrizar. Após uma semana a receber injecções de penicilina (2.400.000 unidades), a ferida mantém sinais inflamatórios exuberantes com expulsão de pus. Aparentemente sem dor, o paciente parece estar infectado com qualquer tipo de bactéria resistente à penicilina, o que será caso único na literatura médica conhecida. Mantém-se tratamento. O doente apresenta agora traumatismos múltiplos no corpo. Na sessão de tratamento de ontem, o doente conseguiu libertar-se do colete de contenção e tentou uma fuga, atirando-se pela janela da sala de tratamentos. Foi perseguido e apanhado já fora dos muros do hospital pelos enfermeiros que assistiram à tentativa de fuga. Na ânsia de escapar, correu de encontro ao portão e embateu com a cabeça no mesmo. Perdeu a consciência por traumatismo craneo-encefálico que aguarda evolução. Mantém as correias de imobilização no leito. Mantém esquema de electrochoques. O doente é considerado perigoso para a sociedade e se este esquema de tratamento não for bem sucedido pondera-se a sua institucionalização em hospício com medidas de contenção permanentes.
O médico psiquiatra,
(assinatura ilegível)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Inverno e a Aldeia 22

S. Vicente da Lua, 22 de Novembro de 1951
Página número 29 do Diário Pessoal de Joana Espinho

Querido Diário
Hoje chorei muito. Chorei como não chorava desde que me lembro. O vigário apareceu aqui ontem à noite e cedi ao seu abraço misericordioso. É o único que não me vira a cara na aldeia, que não me julga, quando é certo que cometi mais do que um pecado capital.
Todo o ambiente estranho que nos envolveu na capela se dissipou aqui em casa. Orámos com muito fervor, lemos passagens da Bíblia que pareciam escritas para mim, conversámos sobre o sentido das coisas e o Vigário pareceu mais sereno do que ontem de manhã. Pediu-me para ver as palmas das mãos, mas nada encontrou. Não lhe falei da estranha marca sobre o meu ventre que aparece e desaparece ao sabor do dia e da noite.
Deixou-me Água Benta para que me benzesse todas as manhãs e assim o vou fazer, bem como passá-la sobre a marca rosada no bucho, pois sei que nesta altura apenas Ele me pode valer.
Hoje os meus alunos pareceram menos cruéis e, apesar de no caminho de regresso a casa, alguns deles me terem seguido e jogado pedras, foram menos os que participaram no “linchamento”.
Estou convencida de que ouvem em casa aquilo que me gritam pelo caminho e certa de que quando me chamam puta nem sabem o que essa palavra quer dizer.
Segurei o meu rosário com todas as forças e caminhei de cabeça erguida, o que pareceu deixá-los um pouco atordoados, habituados como estão a ver-me gritar e perder as estribeiras.
Pensei muito no Júlio e em como seria bom tê-lo aqui perto de mim, mas não posso, não devo ceder à tentação. Para o bem e para o mal já tomei a minha decisão, vou entregar esta criança quando ela vir a luz do dia. Certa de que será mais feliz longe daqui, deste negrume que nos afunda a todos.
Ainda não falei com o Vigário sobre esta minha decisão. Talvez ele me possa ajudar se for um menino, dá-lo para os padres criarem no Mosteiro das Levadas. Se for menina eu mesma a entregarei num convento e quem sabe não pedirei para ficar também eu em voto de clausura.
Enquanto te escrevo escuto os ruídos lá fora e sei que vou passar mais uma noite em claro, possessa de horror. As cantilenas e preces na língua que desconheço parecem munidas de mais vozes a cada noite que passa. Quero encher-me de coragem para espreitar lá para fora, mas ainda não consigo. Chego a temer pela minha vida. Sinto que tudo piora todos os dias. Tudo menos a minha fé que foi resgatada dos confins de mim mesma pelo meu santo Vigário.
Vou ficar por aqui, pois as velas pouca serventia me dão. Esmorecem e apagam-se sempre à mesma hora. À hora dos cânticos. Sei que eles se aproximam, pois as velas já pouca chama queimam. Amanhã volto a ti querido Diário, até lá rezo para passar desta noite.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Inverno e a Aldeia.

(Correspondência nunca expedida.)
Penhas da Saudade, 21 de Novembro de 1951
Minha querida e Santa Mãezinha,
Espero que estas breves letras a encontrem de boa saúde, a mesma com que a deixei quando parti nesta viagem que agora me parece tresloucada. Quero que saiba o que se está a passar porque não estou certo que algum dia vá regressar o mesmo Júlio que viu partir. Cheguei ontem às Penhas da Saúde a não são bons os augúrio que vêm de S. Vicente. O velho comboio que fazia a ligação até ao apeadeiro de S. Vicente já não sai da barracão onde se resguarda e os homens das Penhas não vão até S. Vicente. Dizem que o mau-olhado paira sobre as casas e os campos da aldeia. Alguns dos jovens com o sangue mais quente aventuraram-se até ao campos dos homens da aldeia mas não foram capazes de lá entrar. Dizem que o nevoeiro é cerrado, que não se vê vivalma. Os poucos que se atreveram a entrar nos domínios do nevoeiro perderam-se e voltaram mudos para as Penhas. Ninguém fala de S. Vicente, é como se a aldeia tivesse deixado de existir. Ninguém está disposto a ajudar-me a atravessar os montes até chegar ao meu destino.
Na tasca das Penhas conta-se a história de um homem louco e bêbado que passou por aqui, vindo de S. Vicente. Um homem que contou histórias de morte e lutas. Um homem que falava no Diabo como se o tivesse visto com os seus próprios olhos. "Um maluco!" disseram-me, mas o certo é que este homem foi corrido das Penhas sem que ninguém, ninguém lhe tenha dado uma côdea de pão. Tentei identificar o homem, pois loucos é coisa que nunca houve em S. Vicente mas nada mais consegui que louco, desdentado, sujo, ladrão de chouriços e do fumeiro que entrava à socapa nas casas abertas. Há quem jure que esse homem trazia as mãos manchadas de sangue, que estava possuído. Também me contaram de como o levaram ao padre das Penhas, para que o benzesse, e de como ele silvou como uma serpente e cuspiu para o padre. Deram-lhe uma tareia e abandonaram-no no monte.
Mas, minha querida mãe, a razão porque lhe escrevo é outra. Desde que cheguei aqui que a dúvida me assalta. Serei covarde talvez mas, que faço eu? Que loucura é esta que me preparo para fazer? Deixar Lisboa, a minha casa, o meu trabalho? Atrás de um filho que eu nem sequer sei se existe? Atrás de um filho que pode até nem ser meu? Afinal de contas, há quanto tempo saí eu de S. Vicente? Tanto quanto julgo saber, Joana esteve sempre só durante esse tempo. E se procurou outro homem para se aquecer nas noites frias do monte? Eu bem senti o calor daquela mulher, minha mãe. Joana não é mulher para ficar sem homem durante muito tempo. Pouco tempo depois de nos namorarmos já estava na cama dela, ela por cima de mim, meneando-se, pedindo-me que lhe lambesse as tetas e lambendo-me o peito. Perdoe-me a franqueza minha mãe, mas uma mulher honrada não tem estes comportamentos. Pensei que estava apaixonado mas agora já não sei... Mas, acima de todas estas dúvidas, está um sentimento. Uma espécie de vazio no estômago, um arrepio na espinha que me atormenta desde que pus pé nas Penhas. Um sentimento que este filho, o meu filho, será também a minha desgraça.
Que Deus a tenha em Eterno Descanso minha mãe. Amanhã parto em direcção aos montes das Penhas. Que estas palavras, estas dúvidas que me ensombram a alma a encontrem no seu lugar no Céu. Que a sua sabedoria me guie na hora em que tenha que decidir.
Para sempre saudoso, o seu filho
Júlio.